Capítulo 10: Funeral (Parte II)
Caminhamos por entre os túmulos, produzindo nenhum som sob o brilho prateado acima.
Logo chegamos em um túmulo com o nome “Heinrich Wilhelm von Wilczek”, onde supostamente, ao conhecimento dos humanos, o general descansa, mas agora, finalmente será preenchido apropriadamente.
O túmulo de sua mãe está logo ao lado.
Joseph coloca seu pai no chão, sua esposa coloca sua mãe, então, ambos começam a cavar os dois túmulos.
Os outros vampiros que vieram conosco se espalham ao redor do cemitério para se certificar de que ninguém aparecerá, por precaução fico próximo dos dois.
Não demora muito até que eles cavem um buraco fundo e abram as tampas dos caixões, como esperado, não há nada dentro.
Ambos colocam os dois corpos dentro, mas, antes que fechem a tampa, nos viramos ao ouvir passos atrás.
Me preparo para avançar na direção de duas figuras, dois homens, mas Joseph me agarra pelo pulso e me para.
— O que você pensa que…
— Acalme-se, são meus filhos.
— Hm?
Agora que me acalmo, sinto o cheiro característico de vampiro.
Aquelas duas figuras se aproximam, um se veste de maneira mais cuidadosa, um político? Já o outro tem uma aparência mais condizente com o de um cidadão comum, suas roupas não são chiques, mas também não são ruins.
— Este é uma péssima ocasião para introduções, mas chamo-me Johann Josef Maria von Wilczek, estava por perto quando soube das notícias. — O que se parece com um diplomata oferece sua mão para um aperto, retribuo.
— Joseph Franz von Wilczek. — O outro passa por mim após se apresentar e passa por mim, abraçando o pai.
Esses nomes… apenas para que não me confunda, chamarei o pai de Joseph, o primeiro filho de Johann, e o segundo de Franz, caso contrário minha cabeça explodirá.
— Primeiro nossa irmã, agora nossos avós… — Franz cerra os punhos com força. — Pai, mãe, não quero que sejam os próximos…
— Não seremos, filho, o próximo imperador mudará isso… — Ele se vira e encara os caixões abertos. — Vamos acabar com isso.
Todos concordam com a cabeça e Joseph Maria fecham os caixões, os enterrando novamente com a ajuda dos filhos.
Os quatro ficam em silêncio por um momento, até que, por fim, se viram na minha direção.
— Vamos embora. — Seus olhos estão vermelhos, furiosos.
— Não se preocupe, Joseph, hoje, vocês choram, amanhã, os caçadores…
Me viro e caminho confiantemente para fora do cemitério enquanto o sol lentamente começa a nascer.
***
Respiro pesadamente, diante de mim jaz morte e destruição.
O templo, que até pouco abrigava meus devotos, não existe mais, sua fundação se transformou em pó, os cadáveres das gárgulas foram levados pela furiosa maré.
Afasto meus cabelos molhados do meu rosto e seguro um coração em minhas mãos.
— Como…? Tu nem roubaste um Ícor… Como me sobrepujaste?
— Subestimaste a si mesmo, tio, já te esqueceste que não és o único Vrykolakas que derroto?
— Ah, sim… achei que meu irmão apenas se descuidara, porém tu és realmente forte… — Ele tosse sangue. — Porém não espere que derrotará o último de nós… A guerra que iniciaste está longe de acabar, e nós seremos os vitoriosos… O destino dos humanos é escravidão.
— Veremos sobre isso, tio… — Pressiono com força e esmago seu coração em minhas mãos.
— Tsk, tu és um fracasso como Vrykolakas… se comeres meu coração…
— Ninguém jamais deveria ter tamanho poder, muito menos tiranos como vós…
— Heh, covarde…
Seus olhos se fecham, finalmente morreu.
Contudo não devo ser descuidada, seu coração pode estar destruído, mas sua carne ainda contém poder, me certificarei que nenhum Vrykolakas o consuma.
Ninguém deve possuir tamanho poder, nem mesmo eu, por mais que eu possua boas intenções, não posso correr o risco de me corromper.
Isso mesmo, ninguém…
Carrego-o em meus braços, lanço um último olhar para o relevo arrasado pelas ondas e, enfim, dou um enorme salto.
***
Desperto lentamente em um quarto luxuoso, bem cuidado.
Joseph, pelo seu status, possuí uma bela moradia, devo dizer que nunca dormi em uma cama tão confortável antes.
— Essas memórias… de quando são?
Não reconheço aquela pessoa caída… quem será que é? Que guerra? Perséfone possuí muitos segredos.
Que seja…
Abro um pouco a cortina, viro meu rosto e fecho um olho quando raios de sol assaltam minha visão.
— Maldição… sol desgraçado…
Fecho a cortina com força e irritação.
— Logo anoitecerá…
Saio do quarto e encontro Joseph na sala principal com a esposa, as janelas e cortinas estão fechadas, mas há um mapa da região em uma mesa diante deles.
— Não dormiram?
— Tentei, não consegui…
Seus filhos não estão, provavelmente dormindo.
— E as memórias?
— Caçadores do Reino da França, como esperado…
Sua esposa se levanta e vai até a cozinha.
— Como esperado?
— Ah, sim, não sabe, certo? O Reino da França é governado por caçadores, a maioria dos caçadores são de lá, inclusive os de elite, são a maior ameaça para os vampiros na Europa atualmente.
Reino da França? O maldito que matou minha filha é um francês nojento…
— Sabe onde se escondem?
Marie retorna com vinho, despeja-o em duas taças e se senta novamente, pego a taça e bebo um gole, é doce, bom.
— Tem uma caverna por perto, estão lá. Ao anoitecer iremos atrás de nossa vingança.
Joseph aponta para o mapa.
— A caverna está protegida por alguns caçadores, construíram uma muralha de madeira e há uma cabana perto da entrada. Meus filhos e os outros vampiros que vieram de Salzburg lidarão com os caçadores aqui, tu, eu e minha esposa entraremos na caverna e lidaremos com o resto.
— Então já pensou em tudo, huh? Perfeito.
— Claro, faremos esses malditos franceses pagarem.
Joseph pega sua taça e bebe tudo de uma só vez, ainda enfurecido.
Bem, não é como se eu não o entendesse.
— Apenas precisamos esperar até que o sol se ponha, os outros vampiros virão assim que os últimos raios desaparecerem.
Concordo com um aceno e bebo mais um pouco da taça.
— Por que o Sacro-Império ainda não declarou guerra ao Reino da França? Não somos governados por vampiros?
— O imperador atual é um covarde, além disso, a facção oposta vive atrapalhando, assim que Franz assumir o poder isso mudará.
Vejamos sobre isso… se não conseguem defender o próprio império de invasores estrangeiros, quem dirá guerrear contra o Reino da França.
Enfim termino o vinho e me levanto.
— Estou voltando para o meu quarto.
Me viro e me afasto.
***
Nos esgueiramos por entre as árvores, evitando o brilho da lua.
— Devagar, estamos perto.
Sob o aviso de Joseph, nos aproximamos com mais cuidado, até que avistamos uma muralha de estacas de madeira.
Escalo uma árvore e avisto a cabana, há alguns caçadores dentro, e a entrada da caverna está logo atrás.
— Vamos fazer como planejado, eu, você e Marie vamos dar a volta para chegar mais perto da caverna, esperamos os outros atacarem e, então, invadimos.
Todos concordam comigo, os vampiros que vieram conosco, incluindo os filhos de Joseph, permanecem ali, enquanto começamos a dar a volta na mureta de madeira.
Joseph nos guia, afinal, ele quem possuí as memórias do caçador.
Subimos a elevação de terra bem acima da entrada da caverna e aguardamos pelo sinal, ou seja, quando o ataque começar.
Ergo um pouco minha cabeça para espiar embaixo, posso ver alguns caçadores pela janela da cabana, conversando de maneira natural, como se não tivessem acabado de matar os pais de Joseph.
Hipócritas… vermes desprezíveis…
Farei de tudo para que ninguém escape daqui hoje, dessa vez, Perséfone não está presente, não preciso manter minha promessa aqui.
Aguardamos, minha paciência começa a se esvair…
Até que…
Bom!
Os vampiros do outro time descem com tudo contra a cabana, destruindo-a em uma explosão de madeira e serragem.
— Agora!
Sem esperar, me jogo ali embaixo no meio da confusão, vampiros lutando contra uma dúzia de caçadores, destroços ainda caindo, gritos.
— Ataque de vampiros! Em formação!
— Estão atrás também!
— Não deixem os caçadores impedirem Joseph!
Os filhos de Joseph se colocam na frente de nós, impedindo que os caçadores nos atrapalhem.
— Vamos. — Me viro e avanço até a caverna, seguido por Joseph e Marie.
Nossos passos apressados e molhados ecoam pelas paredes, o túnel está iluminado com lamparinas, mas mesmo se estivesse escuro, seríamos capazes de ver.
Logo chegamos em uma abertura, uma sala ampla com mesas, estandes de armadura, bigornas, pedras de amolar, é como uma pequena base de operações.
E é claro, caçadores.
— Vampiros! Preparem-se!
Um passo de cada vez, me aproximo confiantemente.
— Joseph, Marie, hora da caça…
— Hora da vingança!
— Si-Sim!
Os caçadores nos encaram com atenção, são cinco, e seus olhos estão nervosos.
— Acalmem-se, mantenham a formação e tudo dará certo.
A voz de um homem reverbera, ele dá um passo adiante enquanto os outros caçadores se espalham.
Este homem trajando uma armadura de couro, cabelo castanho raspado nas laterais e…
Bigode…
— Você… — Cerro meus punhos, ranjo meus dentes.
De todos os lugares, de todas as possibilidades, todo esse tempo… esse maldito era um caçador?
— Você é o maldito que matou minha filha… — Minha voz ofegante quase não sai.
— Filha? Quem diabos é você? Na verdade, não importa… — Objetos começam a flutuar ao seu redor. — Você acabará como ela.
— Dracula, o que vo…
— Morra! — As palavras de Joseph são como um eco distante, o ignoro e avanço sem pensar duas vezes.

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