Capítulo 38 - Acerto de contas pt 2
— Vamos logo, agora. Você não vai me enrolar de novo Daichi. — falei em tom firme.
Cerrei os punhos e dei um passo à frente na direção de Daichi. Meus olhos fixos nos seus e meus nervos gritavam para que acabasse com tudo aquilo ali.
Kiryū se moveu novamente e se pôs na frente de Daichi. O guarda-costas levou seu braço em frente ao corpo e o estendeu para impedir meu avanço.
O olhar do homem era afiado e penetrava meu ser, porém aquilo não seria o suficiente para me amedrontar, não mais.
Olhei para Daichi por cima dos ombros de Kiryū enquanto o homem me encarava com uma expressão de deboche discreta mas ainda perceptível.
— Tudo bem Kiryū, está tudo bem. Prepare o carro, estamos indo. — Daichi ordenou para seu subordinado.
Kiryū saiu do galpão discretamente através da escuridão do local. Daichi sacudiu a poeira em seu terno e então se levantou da cadeira e me encarou com aquele seu olhar cínico.
— Certo, certo… Vamos lá. — o homem falou e suspirou logo em seguida até se virar de costas na direção do portão do armazém abandonado.
Encarei Daichi pelas costas enquanto o homem seguiu até a saída. Lentamente caminhei atrás dele e o segui cautelosamente.
— Sabe, ela deve estar com muita saudade também…
Pude ouvir o ronco do motor do carro que nos esperava do lado de fora do galpão. Daichi ainda caminhava lentamente e eu o acompanhava com cautela.
— Eu sei… Eu também estou. — respondi de forma curta e grossa.
Não há necessidade de conversa com esse maldito… Eu só preciso que ele me leve até ela. Depois disso eu posso cortar qualquer vínculo.
— Se acalme Kenji. É notável o nível de perigo daquele homem que o escolta. É arriscado enfrentá-lo assim. Não deixe que essa raiva te domine. — Satoshi aconselhou mentalmente.
Saímos do galpão abandonado e chegamos até o carro que já estava ligado. Kiryū esperou até que seu chefe se aproximasse para abrir a porta do banco do passageiro e a fechou assim que Daichi entrou. O guarda-costas se moveu e também abriu a porta do banco traseiro do carro e me encarou esperando que eu entrasse.
Esse olhar… Kiryū certamente é um problema. Se eu quiser me livrar de Daichi, esse cara com certeza é um obstáculo no caminho a altura dos que eu já enfrentei.
Entrei no carro sem tirar os olhos de Kiryū que também me encarava, ambos como feras que apenas aguardavam um movimento precipitado do outro.
— Certamente hostil… Se acalme, Ken. Você não quer deixar estampado na sua cara que é uma ameaça ao chefe dele né…? Ele pode te eliminar antes mesmo que tente fazer algo, a hostilidade é um fator a ser considerado. — Satoshi alertou.
— Beleza… — respondi relutante enquanto fechei a porta do carro por conta própria e desviei o olhar que estava fixado no homem ao lado de fora para Daichi.
O crápula lançou seu olhar até mim através do espelho do carro e pude ver um sorriso cínico se formar em seu rosto. Esse maldito me irrita até mesmo com suas expressões.
— É impressionante como o medo se transforma em raiva quando quebrado. Isso é uma faca de dois gumes. Talvez isso seja uma estratégia de manipulação, Kenji, apenas seja cuidadoso, falta pouco para o fim de tudo…
Kiryū entrou no carro pelo lado do motorista e rapidamente fechou a porta e repousou suas mãos sobre o volante adornado do carro caro de Daichi.
— Você sabe o caminho, podemos ir. — Daichi disse enquanto abriu a janela e puxou um cigarro de seu bolso.
— Que educação… — Satoshi ironizou.
O homem puxou um isqueiro, acendeu o cigarro que estava em mãos e deu um trago. A fumaça se espalhou pelo interior do carro e rapidamente foi levada pelo vento que soprava conforme o carro acelerava.
— Sabe Yoshida, você precisa de algo pra relaxar, um hobbie ou algo assim, entende? — Daichi sugeriu após soprar a fumaça pela janela do carro.
Permaneci silencioso e olhando para o lado de fora do carro através do vidro. Mesmo com o vento que levava a fumaça, ainda era possível sentir o mal cheiro de cigarro que escapava para dentro.
— Vamos lá… Me responda. Fale alguma coisa de uma vez. — Daichi insistiu e deu mais um trago.
— Eu não quero conversar com você. Podemos ficar apenas quietos durante toda essa viagem. — suspirei e respondi.
— Parece que a sua mãe não te educou muito bem… — o homem disparou.
Desgraçado… Como ele ousa citar a minha mãe mais uma vez? Maldito nojento, eu te odeio!!!
O olhar de Kiryū que dirigia se lançou através do espelho e me atingiu, o que me fez retomar a calma para evitar qualquer outro problema.
— Apenas ignore ele. Falta pouco… — Satoshi falou.
…
A estrada de terra e as casas simples de madeira no horizonte ressuscitaram memórias que há tempos não retornavam.
— Toda semana esse lugar melhora um pouco. — Daichi afirmou lançando uma bituca de cigarro pela janela do carro que diminuía a velocidade.
As casas simples de madeira do vilarejo pareciam mais agradáveis aos olhos e a estrada de terra batida era melhor marcada no solo, como uma trilha.
— Realmente… — assenti em tom baixo.
— É… Eu fiz alguns investimentos. O povo anda bem trabalhador, sabe? — Daichi relatou.
— Eu imagino… Eles merecem. — concordei com um leve tom de ironia.
Kiryū diminuía a velocidade do carro pela estrada de terra conforme eu via a minha velha casa também mais apresentável ao fim do caminho.
A expressão do guarda-costas era tranquila, despreocupada, e seus cabelos negros voavam com o soprar do vento que entrava pelas janelas. Não parecia tão ameaçador.
— Ela sente muito a sua falta Yoshida. — Daichi afirmou enquanto subia os vidros de sua janela e abria a porta do carro.
Fiz o mesmo, saí do carro e bati a porta. Kiryū logo se pôs próximo ao seu chefe e sua expressão se tornou séria novamente.
— Eu sei que está.
Caminhei ansioso até a porta da minha velha casa e a cada passo lento as memórias do carinho de minha mãe surgiam em minha mente.
Isso vai passar… Eu vou cuidar de você. Eu vou te salvar dessa vez, mãe. Eu vou ser seu herói.
Acelerei os passos e corri. Passei por Daichi e Kiryū e os deixei para trás. Avancei ligeiramente e entrei dentro da casa de madeira.
— Mãe! — chamei enquanto caminhava rapidamente na direção do quarto.
— Parabéns Kenji. — Satoshi disse.
Entrei no quarto com a ansiedade que moveu meu corpo e finalmente pude a ver. Quem sempre cuidou de mim, me salvou, quem eu devo retribuir.

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