O silêncio de Akira não é mais de derrota. É de combustão. Quando ele expira, o ar ao redor de seu rosto parece distorcer. No centro de suas pupilas, um ponto frio se acende, e antes mesmo do juiz levar o apito à boca, a energia transborda. Chamas azuis. Não são labaredas violentas ou descontroladas.

    São chamas gélidas, cirúrgicas, que colam na pele dele como uma segunda armadura e flutuam rente ao gramado. É o contorno visual do seu novo Ideal: o domínio absoluto através da orquestração do caos.

    Kira, posicionado logo à frente na marcação do Time Z, estreita os olhos. Ele sente a queda drástica de temperatura. — “O que é isso…?” — Kira tensiona os músculos. — “Essa pressão de novo não.”

    Akira sorri de canto. Os olhos brilhando em azul fixam-se no rival. — “Eu não vou jogar contra você, Kira”, pensa Akira, enquanto pisca lentamente. “Eu vou fazer você reagir ao meu jogo.”

    O juiz apita.

    O jogo recomeça aos 77 minutos.

    Akira toca curto para Hiori e, antes mesmo de receber a bola de volta, ativa a sua mecânica. Sniper Dash.

    O primeiro impulso não é para frente, mas para a diagonal, quebrando a linha de pressão inicial de Agi.

    Quando a bola retorna para os seus pés, envolta por fagulhas azuis, Akira não para para analisar. Ele já sabe. Sua mente está rodando um segundo à frente de todos. Ele arma o corpo.

    Nikoji, com a Visão Astral ativa, tenta ler a trajetória. — “Ele vai enfiar para o corredor lateral!” — Nikoji projeta mentalmente.

    Mas Akira não passa para onde os jogadores estão. Ele passa para onde eles serão forçados a ir. O primeiro passe sai seco, rasgando o meio-campo em direção a Renji. A bola vai forte demais, ligeiramente atrasada nas costas do jogador, em um ângulo teoricamente ruim. — “O quê? Ficou maluco, Akira?!” — Renji grita, virando o corpo no susto.

    Mas o passe foi milimétrico para aquele exato desconforto. Para não perder a posse, o corpo de Renji reage por puro instinto de sobrevivência. Freestyle Monster ativado. O quadril de Renji quebra de forma absurda, o ritmo do corpo se desfaz no ar e ele executa uma pedalada invertida sem olhar, limpando Zan que vinha na caça.

    O erro do passe era, na verdade, o gatilho. Akira forçou a relíquia de Renji a operar no limite máximo para salvar a jogada. — “A bola não morreu…” — Nikoji estala os dentes, vendo a linha de probabilidade se romper. — “Ele previu o drible improvisado?!”

    Renji, ainda no embalo do giro, solta a bola para frente.

    Akira já está lá para recolher.

    O rastro de chamas azuis desenha uma parábola no meio-campo.

    Aizawa fecha o espaço com a serpente de energia. Baraki avança pesado pelo flanco esquerdo. Akira dá o segundo Sniper Dash. Um corte curto. Dessa vez, ele solta a bola no meio do fogo cruzado, mirando o setor mais congestionado do Time U, onde Keo está cercado por dois marcadores.

    É um passe de alto risco. Uma bola “suja”. — “Keo! Entra no caos!” — o comando mental de Akira ecoa.

    Keo sente a pressão da bola chegando no meio da fumaça. Se ele dominar normal, ele perde. Ele precisa absorver a bagunça.

    Copiar & Colar: Instinto Anárquico.

    Keo não tenta controlar. Ele usa o próprio corpo como escudo, rebate a bola de canela contra o peito do marcador e aproveita o ricochete para girar no próprio eixo, criando uma rota de fuga impossível que desorganiza a zaga central do Time U.

    O caos foi domado.

    — “O fluxo… não está parando!” — Aizawa percebe, esticando a perna para tentar cortar, mas o toque de Keo já saiu.

    A bola sai da zona de turbulência viva, quicando na entrada da intermediária. Exatamente onde o alvo final foi desenhado.

    Nakki surge em velocidade, com a perna esquerda já engatilhada. A zaga do Time U tenta se recuperar do susto, mas a engrenagem de Akira corre sem fricção. A bola chega perfeitamente no tempo de execução de Nakki. — “A terceira peça”, pensa Akira, assistindo a linha azul se fechar. — “Agora, quebrem.”

    Nakki arma o corpo. A postura é idêntica à do gol anterior: perna esquerda esticada, inclinação perfeita, a jorrar determinação.

    Aizawa e Nikoji reagem no mesmo milissegundo. A Visão Astral de Nikoji pisca em alerta vermelho, projetando o padrão que chocou o estádio minutos atrás.

    — “É o Chute Falso!” — Nikoji avisa mentalmente a defesa, coordenando os movimentos. — “Ele vai simular o impacto e levantar a bola para o voleio! Não comprem o primeiro movimento!”

    Aizawa avança com tudo, usando a serpente de energia não para bloquear o chão, mas para cercar o espaço aéreo acima de Nakki, antecipando o movimento de elevação. Toda a última linha defensiva do Time U converge para o mesmo ponto, sufocando o atacante. Eles morderam a isca. Eles se fecharam no padrão que achavam ter decifrado.

    Só que aquela jogada nunca foi sobre o Nakki.

    Enquanto a defesa se espremia para anular o chute, uma silhueta avançava nas sombras do ponto cego. Akira, envolto em suas chamas azuis, já havia iniciado a corrida segundos atrás, infiltrando-se nas costas da marcação de Aizawa. O espaço que o Time U esvaziou para cercar Nakki era exatamente a zona de finalização de Akira.

    Nakki executa o movimento. O corpo arma o chute real, o impacto visual engana o goleiro, mas, no último milissegundo, ele muda o vetor. A bola sobe leve, girando. Mas, em vez de saltar para o voleio individual, Nakki apenas escora de cabeça para trás, testando a bola com suavidade em direção à entrada da grande área.

    — “O quê?!” — Aizawa gira o corpo no ar, os olhos arregalados ao perceber a armadilha.

    A defesa do Time U está totalmente descompensada, presa no movimento de reação. E no meio do espaço vazio, Akira surge como um fantasma.

    O tempo parece desacelerar para ele. As chamas azuis ao redor de seu corpo se estabilizam, concentrando-se inteiramente em suas pernas. Atrás dele, as duas Berettas holográficas se materializam. Dessa vez, elas não tremem, não oscilam por causa do ego ou da pressa. Elas estão perfeitamente equilibradas, alinhadas com o fluxo do campo.

    Double Berettas Kick.

    Não há força exagerada. Não há desespero. É um movimento seco, limpo, executado sem nenhuma pressa, com a frieza de um atirador de elite que sabe que o alvo já está ganho.

    BANG.

    O som do impacto é cirúrgico. A bola viaja rente ao gramado, uma linha reta e azul que corta a área sem dar tempo de reação ao goleiro. Ela bate na bochecha interna da rede, estufando as malhas com violência.

    GOL!

    O placar eletrônico no topo do estádio brilha instantaneamente:

    Time U: 5

    Time Z: 5

    O estádio inteiro explode em um clamor ensurdecedor. Os torcedores vão à loucura com a velocidade da resposta. O cronômetro marca 82:00. Faltam exatamente 8 minutos para o fim do tempo regulamentar.

    Akira aterrissa no gramado, as chamas azuis ainda faiscando ao redor de suas chuteiras. Ele se vira lentamente para Kira, que observa a bola no fundo da rede com os punhos cerrados.

    — Eu disse — Akira fala baixo, os olhos brilhando em azul. — O jogo é meu.

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