Nunca entendi por que tanta gente julga quem prefere ficar sozinho.

    Enquanto meus colegas conversavam, riam e fingiam prestar atenção na aula, eu estava concentrada no pequeno desenho que surgia no canto da carteira.

    O contorno de uma personagem ganhava forma, livre das regras daquela sala de aula. Eu já planejava como finalizaria o desenho quando uma voz cortou meu fluxo criativo como uma tesoura.

    — Você precisa aprender a se enturmar mais.

    Ergui a cabeça devagar.

    O professor me encarava de braços cruzados. Alguns colegas viraram o rosto, curiosos. Senti o calor subir pelas bochechas.

    — Também precisa participar mais das atividades da turma — continuou ele, destilando crítica. — Ficar sempre isolada não é saudável.

    Permaneci em silêncio. Não havia defesa pronta. Para mim, aquela solitude era conforto; para eles, parecia um defeito a ser corrigido.

    Engoli em seco, ouvindo cada observação, cada suposto defeito apontado, enquanto meus olhos percorriam a sala sem foco.

    Ao meu redor, todos pareciam se encaixar naturalmente naquele ambiente, enquanto eu me sentia cada vez mais deslocada.

    Quando o sinal tocou, achei que o constrangimento teria fim.

    Estava enganada.

    Na saída, o professor chamou meus pais. Observei de longe, do pátio, os gestos contidos, os olhares preocupados e o movimento dos lábios deles pronunciando meu nome, acompanhado de uma lista invisível de tudo o que eu deveria mudar: quieta demais, reservada demais, diferente demais.

    Eu não imaginava que aquela conversa seria o estopim de um incêndio muito maior em casa.

    O caminho de volta no carro foi sufocante. Meus pais não disseram uma única palavra. Aquele silêncio no banco de trás pesava mais do que qualquer grito.

    Assim que cruzamos a porta de casa, larguei a mochila perto da entrada e fiz menção de subir os degraus.

    — Espere um momento, mocinha — a voz do meu pai me travou no hall.

    Virei-me. Minha mãe já estava de braços cruzados, o semblante rígido.

    — Seu professor nos contou tudo. Disse que você se isolou de novo e se recusou a fazer a apresentação do bimestre.

    Baixei os olhos para os tênis gastos. — Eu não queria participar.

    — Por quê? — Minha mãe deu um passo à frente. — Você nunca quer fazer nada com os outros!

    — Porque eu gosto de ficar sozinha.

    A resposta saiu simples, uma verdade óbvia para mim. Para eles, soou como insulto. Meu pai massageou as têmporas, exausto.

    — Filha, você não pode viver trancada dentro de si mesma.

    — Eu não me sinto sozinha — retruquei, sentindo um nó na garganta. — Eu tenho o meu mundo.

    — O mundo real não funciona assim! — A voz dela subiu. — Você precisa aprender a conviver. Não pode simplesmente fugir para dentro da sua cabeça.

    — Mas eu gosto do meu universo — murmurei.— Nem tudo é sobre o que gostamos — sentenciou meu pai.

    O silêncio desabou sobre a sala. Eu queria gritar que criar mundos novos era a minha forma de respirar.

    Mas toda vez que tentava traduzir isso em palavras, parecia que eu falava um idioma arcaico que só eu compreendia.

    Minha mãe se aproximou, deixando a rigidez de lado para pousar uma mão terna, mas pesada, no meu ombro. Seu olhar não tinha raiva, apenas uma preocupação genuína que doía ainda mais.

    — Estamos pensando no seu futuro, querida. Só queremos o melhor para você. Um dia vai entender.

    Concordei com a cabeça apenas para encerrar o julgamento.

    Subi para o quarto sem responder, carregando a incômoda sensação de que eles tentavam moldar quem eu deveria ser antes mesmo que eu descobrisse quem eu realmente era.

    Tranquei a porta e me deitei na cama, encarando o teto enquanto o ventilador girava em um ritmo monótono. O som das hélices deveria me acalmar, mas meus pensamentos gritavam alto demais.

    A conversa com os meus pais ainda ecoava na minha mente, um mantra silencioso que parecia ter ficado gravado nas paredes do meu quarto. Sei que eles não falam por mal; o amor deles é um porto seguro.

    O problema é que, às vezes, um porto é tão bem construído que acaba te impedindo de ver o vasto oceano lá fora. Existe uma linha tênue entre querer ajudar alguém e decidir o futuro por ela.

    Sentei-me na minha cama, encarei o estado do meu quarto.

    Ao meu redor, o quarto estava exatamente como eu gostava: Os livros empilhados na mesa, os desenhos colados nas paredes, cada pequeno objeto nas prateleiras… tudo aquilo contava um pedaço da minha identidade, longe dos moldes pré-definidos que esperavam de mim.

    Talvez fosse por isso que eu gostasse tanto de ler histórias. Nos livros que lia e nos mundos que desenhava, os personagens podiam escolher seus próprios caminhos.

    Eles erravam, aprendiam, mudavam de direção e enfrentavam as consequências das próprias decisões, mas ninguém ditava suas vidas por eles. Nos livros, eu encontrava a única coisa que o mundo exterior me negava: liberdade.

    Era um sentimento simples, mas precioso. Por alguns instantes, eu podia esquecer as expectativas dos outros e me lembrar de quem eu realmente queria ser.

    Há dias meus pais listam quais caminhos eram mais seguros, quais escolhas eram “boas” e quais sonhos valiam a pena perseguir. E quais não valiam.

    Eu sentia como se estivesse atuando em um roteiro escrito por terceiros. Toda vez que imagino isso, sinto uma sensação sufocante. É como usar roupas que não servem, apertadas em alguns lugares e largas em outros. Um desconforto constante.

    Tenho medo de chegar ao futuro e perceber que passei anos sendo apenas uma marionete em um palco que nunca foi meu. O mais assustador era que esse tipo de prisão não acontece de uma vez. Ela surge devagar. Primeiro você aceita uma pequena escolha que não queria fazer. Depois abre mão de outra. E mais outra.

    Até que, um dia, percebe que está vivendo uma vida que parece confortável para todos ao seu redor, menos para você. O medo não era errar, mas acordar daqui a anos e perceber que vivi uma vida que nunca escolhi, apenas para agradar expectativas alheias, do que tentando compreender a mim mesma.

    Preferia enfrentar dificuldades sendo fiel aos meus próprios desejos do que conquistar uma felicidade que nunca senti como minha.O maior problema é que os sonhos que eles consideram “ruins” são justamente os que me fazem sentir viva.

    Soltei um suspiro pesado, levantei-me e caminhei até a janela, apoiando os braços no parapeito. A brisa do entardecer começava a esfriar, limpando um pouco da opressão do meu peito.

    Lá fora, a engrenagem do bairro girava normalmente. Uma criança corria atrás de uma bola; um casal passava de mãos dadas; um cachorro dormia sob a sombra de uma árvore. Tudo parecia tão simples para os outros.

    Por que tudo parecia tão simples para eles?

    Às vezes me pergunto por que a individualidade incomoda tanto as pessoas. Quando eu era mais nova, achava que crescer resolveria tudo e que os adultos entendiam o mundo.

    Mas a realidade é que, quanto mais cresço, mais percebo que a sociedade espera que todos pensem igual, sonhem igual e sigam as mesmas trilhas.E quando você decide desviar do caminho… os cochichos começam.

    Ela é estranha.”

    Nunca faz o que os outros fazem.”

    Tem alguma coisa errada com ela.”

    Ela é louca.”

    A palavra “louca” ecoou na minha mente, trazendo um leve arrepio. É engraçado como usam esse termo para tudo o que não conseguem compreender. Se você se recusa a ser uma cópia, vira o foco dos julgamentos.

    Por muito tempo, eu tentei me encaixar. Forcei sorrisos, concordei com absurdos e mutilei partes de mim para caber. Mas esconder partes de mim todos os dias era um fardo invisível que esgotava minha alma. Eu estava me dissolvendo em um mar de conformidade, até que finalmente cansei. Cansei de pedir desculpas por ser quem sou.

    Um vento fresco entrou pela janela, bagunçando meus cabelos e trazendo o cheiro de chuva. Fechei os olhos e, dessa vez, a frustração deu lugar a algo diferente. Uma faísca.

    Eles podiam criticar, apontar dedos, tentar me moldar, mas não vou permitir que decidam por mim. No fim das contas, quem teria que olhar no espelho todas as manhãs era eu.Vou ser eu mesma, pensei. E vou ter orgulho do reflexo que encontrar.

    Afastei-me da janela quando a luz dourada do crepúsculo deu lugar ao manto azul da noite. O quarto mergulhou em sombras tranquilas.

    Voltei para a cama e deitei-me, puxando o cobertor até o peito, sentindo o colchão me acolher como um abraço seguro. As incertezas ainda estavam lá, claro que ainda tinha muitas dúvidas.

    Eu ainda sentia receio. Ainda me perguntava se conseguiria enfrentar tudo o que estava por vir.Mas, dessa vez, minhas dúvidas deixaram de parecer correntes. Deixaria isso para amanhã, não precisava resolver minha vida inteira antes do amanhecer; bastava dar um passo de cada vez.

    Olhei de relance para a mesa de estudos. Sob o luar, meus desenhos inacabados esperavam. O amanhã traria novos julgamentos, mas também seria o marco zero da minha própria jornada.

    Um sorriso genuíno surgiu nos meus lábios. Com essa certeza aquecendo o peito, fechei os olhos e me deixei levar pelo sono. Dali em diante, eu escreveria a minha própria história.

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