O sinal final tocou, libertando os alunos daquela prisão diária de cadeiras e quadros-negros. O corredor explodiu em barulho imediato — risadas, armários batendo, passos apressados. Eu me misturei à multidão, mais uma silhueta entre tantas outras, invisível por escolha e necessidade.

    Saí pelos portões da escola sem olhar para trás. O ar da tarde estava abafado, carregado com a promessa de chuva que não caía.

    Comecei a caminhada de volta para casa. Era um trajeto que eu conhecia de cor: cada calçada irregular, cada árvore que projetava sombras longas no asfalto, cada esquina onde o vento mudava de direção.

    Caminhar a pé era o meu ritual de descompressão. Enquanto meus pés marcavam o ritmo no concreto, minha mente tentava organizar o caos do dia.

    As vozes dos professores, os olhares dos colegas, o peso das expectativas… tudo isso ficava para trás, passo a passo. Mas, mesmo assim, algo permanecia. Uma tensão sutil na nuca, como se eu estivesse sendo observada por olhos que não estavam lá.

    Cheguei à porta de casa exausta, não pelo esforço físico, mas pelo desgaste emocional de manter a máscara no lugar durante horas.

    Respirei fundo antes de girar a chave.— Oi, filha — minha mãe disse da cozinha, sem levantar os olhos do fogão. O cheiro de temperos refogados preenchia o ambiente.

    — Oi — respondi, deixando a mochila cair no chão com um baque suave.

    Meu pai apareceu na sala, segurando o tablet.— Como foi a aula? — perguntou, num tom casual, quase distraído.

    Engoli a verdade. Engoli a vontade de dizer que me senti sufocada, que vi hipocrisia em cada sorriso, que queria gritar. Em vez disso, forcei um sorriso leve, aquele que eles aceitavam como resposta suficiente.

    — Foi legal — menti. A palavra saiu automática, lisa, sem arestas.

    Eles assentiram, satisfeitos. “Legal” significava sem problemas. “Legal” significava que eu estava seguindo o roteiro. Não havia perguntas sobre o que eu tinha aprendido, ou como eu me sentia, ou se algo tinha me incomodado. Apenas a confirmação de que tudo estava sob controle.

    Subi para o quarto e fechei a porta. O silêncio do ambiente me abraçou, mas não trouxe o alívio esperado. Joguei-me na cama, ainda uniformizada, sentindo o colchão afundar sob o meu peso.

    O teto branco girava lentamente acima de mim, ou talvez fosse minha cabeça que girava. Fechei os olhos, apenas por um instante. Apenas para descansar. Mas o descanso não veio. O mar respirava como um animal ferido.

    Abri os olhos e não estava mais no meu quarto. Estava em um pequeno barco de madeira, perdido numa imensidão cinzenta. Cada onda trazia consigo um rugido, um aviso, um lamento distante que parecia ecoar através de toda a água ao meu redor.

    As águas agitadas se erguiam diante de mim, ocultando completamente o horizonte, como muralhas vivas que impediam qualquer possibilidade de fuga.

    Acima, o céu estava coberto por um véu sufocante. Não havia sol. Não havia estrelas. Não existia qualquer sinal de que aquela tempestade algum dia chegaria ao fim.

    A embarcação parecia insignificante diante da força da natureza, como uma folha carregada pela correnteza de um rio violento. O mar se estendia em todas as direções e, por mais que eu procurasse, não conseguia encontrar terra firme.As ondas golpearam o casco sem piedade.

    Crac. Cada impacto fazia a madeira estremecer sob meus pés, arrancando rangidos dolorosos. Era um som inquietante, quase humano. Como se o próprio barco estivesse sofrendo. Como se reclamasse do peso que carregava. Segurei as bordas com força.

    Meus dedos estavam úmidos, escorregadios. Mas o medo que apertava meu peito era ainda mais difícil de controlar. Meu coração batia rápido demais, acompanhando o ritmo caótico da tempestade.

    Eu queria sair dali. Queria pisar em algo sólido. Mas só havia água. Água até onde meus olhos conseguiam alcançar. Um labirinto líquido sem saída.

    Enquanto observava aquela imensidão hostil, uma sensação estranha surgiu. O barco continuava resistindo, mesmo sendo pequeno e desgastado. Havia rachaduras espalhadas pela madeira. Marcas deixadas pelo tempo. Cicatrizes que revelavam quantas batalhas ele já havia enfrentado.

    De alguma forma, aquilo me pareceu familiar. Era como olhar para um reflexo. Assim como aquela embarcação, eu também vinha carregando peso demais durante tempo demais.

    Uma onda maior atingiu o casco. O barco balançou violentamente. Meu corpo quase foi lançado ao mar. Segurei-me com ainda mais força enquanto tentava recuperar o equilíbrio.

    O vento rugia e as gotas geladas atingiam meu rosto como agulhas. A tempestade parecia consciente da minha presença. Como se estivesse me testando.

    Então, uma nova onda surgiu no horizonte. Maior. Muito maior. Ela cresceu diante de mim como uma montanha líquida, bloqueando completamente o céu cinzento.

    Meu corpo congelou. Não havia para onde fugir.A onda desabou.A água me atingiu em cheio. Fui arremessada para frente e minhas mãos escorregaram. Bati contra a madeira, sentindo uma dor aguda nos braços.

    A água gelada envolveu tudo e, durante alguns segundos, perdi a noção de direção. Frio. Dor. Desorientação.

    Quando consegui levantar a cabeça, percebi que algo havia mudado. A madeira estava rachando. Pequenas fissuras se espalharam pelo casco. Primeiro discretas. Depois maiores. Mais profundas.

    Observei em silêncio enquanto a água começava a invadir a embarcação. Pouca no início. Apenas alguns filetes. Mas suficiente para anunciar o inevitável.

    O barco estava afundando.Por algum motivo, aquela visão não me surpreendeu. Talvez porque eu estivesse cansada demais para me surpreender.

    Fechei os olhos.Toda madeira envelhece. Toda embarcação se desgasta. Nenhum barco foi feito para resistir para sempre.

    Por que o meu seria diferente?

    A resposta veio com uma sensação amarga. Porque eu também estava cansada. Cansada de lutar contra ondas que nunca paravam.

    Percebi que cada onda carregava algo familiar. Algumas eram feitas de críticas. Outras de expectativas. Outras carregavam o peso dos julgamentos acumulados durante anos.

    Será que você consegue?”

    Será que vale a pena continuar?”

    Será que todos estavam certos sobre você?”

    Eu havia passado tanto tempo tentando permanecer forte que esqueci como era descansar. As pessoas enxergavam apenas o barco flutuando. Não viam as rachaduras. Não ouviam os estalos. Não percebiam a água entrando. E, mesmo assim, eu continuava ali.

    Então veio o estalo. Mais alto. Mais cruel. Mais definitivo.A madeira se partiu. E o barco desapareceu sob meus pés.

    Caí na água. O frio me envolveu imediatamente. Era uma escuridão viva. Profunda. Infinita. Tentei nadar. Tentei alcançar a superfície.

    Mas meu corpo não respondia. Meus braços pareciam chumbo. Minhas pernas afundavam como se estivessem presas ao fundo do oceano. Quanto mais eu lutava, mais me afundava.

    O desespero tomou conta. Pela primeira vez, senti um medo verdadeiro. O tipo de medo que paralisa. Que congela a alma. Abri a boca. Erro fatal. A água invadiu meus pulmões. Meu peito queimou. Minha garganta ardia.

    Estendi a mão em direção à superfície. Busquei a luz. Mas ela parecia cada vez mais distante. Menor. Mais fraca. A pressão aumentava.

    O frio atravessava os meus ossos. Minha visão desfocou. As cores desapareceram.E então veio o silêncio. Profundo. Absoluto. Assustador. Sozinha. Afundando. Descendo rumo a um abismo sem fim.

    Foi naquele instante que compreendi o que realmente me aterrorizava. Não era o mar. Não era a escuridão. Era a sensação de que ninguém perceberia.

    Como se minha luta, meu sofrimento e minha existência fossem engolidos pela tempestade sem deixar rastro. Era a solidão final. O abismo de não ser lembrada.

    — Hah!

    O ar invadiu meus pulmões de uma só vez e meu corpo se ergueu bruscamente na cama. Ofeguei, tentando recuperar o fôlego, enquanto o suor frio escorria pelas minhas têmporas.

    Afastei as cobertas com um movimento brusco, como se elas fossem algas me prendendo ao fundo do mar. Demorei alguns segundos para reconhecer o ambiente. Meu quarto. Minha cama. A janela entreaberta. A escuridão tranquila da madrugada.

    Passei a mão pelo rosto. Suor. Tremores. Respiração irregular. Não era real. Era apenas um sonho. Um pesadelo. Mas a sensação continuava ali. A sensação de afundar. De quebrar. De perder as forças.

    Olhei para minhas mãos ainda trêmulas e respirei fundo, repetindo para mim mesma que tudo aquilo havia acabado. Um ato de fé. Uma oração silenciosa.

    Permaneci sentada na cama, abraçando os joelhos. O quarto estava silencioso. Nenhuma tempestade. Nenhum rugido de ondas. Ainda assim, meu coração continuava acelerado, como se uma parte de mim tivesse permanecido naquele oceano.

    Fechei os olhos por um momento. As imagens ainda estavam vívidas. As ondas. O céu cinzento. As rachaduras na madeira.

    Talvez aquele sonho não tivesse surgido do nada. Talvez ele fosse feito de coisas que eu já carregava dentro de mim. Medos. Inseguranças. Cansaços que eu fingia não sentir quando dizia “foi legal” para meus pais.Baixei o olhar para minhas mãos.

    Os tremores diminuíam, mas o aperto no peito permanecia.Por um instante, pensei naquele barco novamente. Pequeno. Desgastado. Coberto de rachaduras. Mesmo assim, ele continuou flutuando até o último momento. Continuou resistindo.

    Não porque fosse indestrutível. Mas porque não sabia fazer outra coisa além de seguir em frente. Talvez eu me parecesse mais com ele do que gostaria de admitir.Soltei um longo suspiro. Aquela percepção não trouxe conforto imediato. Também não fez o peso desaparecer.

    Mas me permitiu compreender algo que eu vinha ignorando. Estava tudo bem admitir que eu estava cansada. Estava tudo bem reconhecer minhas próprias rachaduras. Fingir que elas não existiam nunca as fez desaparecer.Lentamente, olhei para a janela.

    A lua estava lá. Silenciosa. Serena. Sua luz prateada atravessava o vidro e iluminava uma parte do quarto, criando uma calma que contrastava com a tempestade interna.

    Respirei fundo mais uma vez. O mar havia desaparecido. O pesadelo tinha terminado.

    Mas a jornada para enfrentar aquilo que ele representava ainda continuava. E talvez fosse justamente por isso que eu precisava seguir em frente. Um amanhecer de cada vez.

    Preciso me acalmar… foi apenas um pesadelo horrível…

    Mas, no fundo, eu sabia que não era tão simples. Porque a tempestade do sonho podia ter desaparecido. O mar podia não existir. O barco podia nunca ter sido real.

    Mas o cansaço que ele representava continuava comigo. E talvez fosse justamente isso que tornava aquele pesadelo tão assustador. Porque, às vezes, a realidade consegue ser muito mais profunda do que qualquer oceano.

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