O Medo Te Perturba
Fui para a escola de carro com meu pai. Nenhuma palavra foi dita.
O silêncio dentro do veículo era sufocante. Nem mesmo o som do motor parecia capaz de preencher o vazio entre nós. Eu observava a paisagem pela janela enquanto as ruas passavam lentamente, mas minha mente estava longe dali.
As imagens do pesadelo ainda permaneciam vivas.
O mar.
A tempestade.
O barco afundando.
Mesmo sabendo que tudo havia sido apenas um sonho, a sensação continuava presa dentro de mim. Como uma sombra silenciosa que se recusava a desaparecer.
Quando o carro estacionou em frente à escola, soltei o cinto rapidamente.
— Tenha um bom dia — disse meu pai. Sua voz soou distante, como se viesse de outro cômodo.
— Vou tentar.
Saí antes que ele pudesse responder.
O ar da manhã estava fresco, mas não conseguiu aliviar o peso que eu carregava. Caminhei pelos corredores tentando ignorar a sensação estranha que permanecia no meu peito.
Achei que estava atrasada. Por sorte, não estava. Mas o alívio durou pouco. Assim que entrei na sala, ouvi a professora anunciar:
— Hoje faremos apresentações em grupo.
Meu estômago afundou.
Não. Qualquer coisa menos isso.
Trabalhos em grupo sempre foram um pesadelo. Não porque eu não gostasse dos colegas, mas porque significava ficar na frente das pessoas. Ser observada. Ser julgada. Ser o centro das atenções. Algumas pessoas pareciam nascer sabendo lidar com isso. Conseguiram levantar da cadeira, falar diante da turma e seguir em frente como se fosse algo simples. Eu nunca entendi como faziam aquilo.
Não era falta de estudo. Não era preguiça. Eu me preparava tanto quanto qualquer outra pessoa. Às vezes até mais. O problema começava no momento em que os olhares se voltavam para mim. Era como se meu cérebro esquecesse que aquelas pessoas eram apenas colegas de classe. De repente, todos pareciam juízes esperando pelo meu próximo erro.
Enquanto os grupos se organizavam, meu coração acelerava. Cada minuto parecia empurrar a tempestade mais perto.
Talvez eu estivesse exagerando. Talvez não fosse tão ruim. Talvez tudo desse certo. Mas quanto mais eu tentava me convencer, menos acreditava.
O tempo passou rápido demais. Quando percebi, a sala já estava organizada em círculo. Um por um, os alunos começaram a se apresentar. Alguns falavam com facilidade. Outros demonstravam nervosismo. Mesmo assim, todos conseguiam terminar.
Eu observava tentando parecer calma. Por dentro, porém, a tempestade retornava. Meu coração batia rápido demais. Era a mesma sensação do sonho: ondas invisíveis se chocando contra mim.
Conforme os alunos se apresentavam, tentei prestar atenção no que estavam dizendo.
Não consegui.
As palavras chegavam até mim, mas desapareciam quase imediatamente. Minha mente estava ocupada demais imaginando o que aconteceria quando chegasse a minha vez.
E se eu travasse?
E se esquecesse tudo?
E se começasse a gaguejar?
E se simplesmente não conseguisse falar?
Quanto mais tentava afastar aqueles pensamentos, mais eles voltavam. Era como tentar impedir uma onda de alcançar a praia. Ela sempre voltava.
Além do medo, existia algo ainda pior: a expectativa. Eu sabia que a apresentação não duraria muito tempo. Talvez alguns minutos. Talvez menos. Ainda assim, meu corpo reagia como se eu estivesse diante de algum grande perigo.
Era irracional.
Uma parte de mim entendia isso perfeitamente. Ninguém iria me machucar. Ninguém iria me expulsar da sala. Provavelmente, na semana seguinte, quase todos esqueceriam daquela apresentação.
Mas meu corpo não parecia interessado em ouvir a lógica. O medo ignorava explicações.
Ele simplesmente existia.
Lembrei de outras situações parecidas. Pequenos momentos que, isoladamente, pareciam insignificantes. Uma resposta errada dada em voz alta. Uma risada ouvida no momento errado. Um comentário que ficou preso na memória muito mais tempo do que deveria.
Talvez aquele medo não tivesse nascido naquele dia. Talvez ele estivesse crescendo havia anos. Pequenas inseguranças acumuladas. Pequenos constrangimentos guardados em silêncio. Pequenas feridas que ninguém percebia.
Quanto mais eu pensava nisso, mais sentia que aquela situação era maior do que uma simples apresentação escolar.
Não era apenas sobre falar. Era sobre ser vista. Sobre estar exposta. Sobre não ter para onde fugir quando todos os olhares se voltassem para mim.
Observei os colegas que já haviam se apresentado. Alguns pareciam tão tranquilos. Erravam palavras. Esqueciam partes do conteúdo. Davam risada de si mesmos. E continuavam normalmente.
Eu me perguntava como conseguiam fazer aquilo. Como conseguiam errar sem sentir que o mundo inteiro estava desabando.
Talvez a diferença estivesse justamente aí. Para eles, um erro era apenas um erro. Para mim, parecia uma confirmação de todos os medos que eu carregava. Uma prova de que eu não era boa o suficiente. Uma prova de que as pessoas tinham razão em me julgar.
Mesmo sabendo que isso não fazia sentido, não conseguia impedir aqueles pensamentos. Eles apareciam sozinhos.
Sempre apareciam.
Meu nome se aproximava. Cada colega que terminava fazia meu nervosismo aumentar. Era como uma contagem regressiva que eu não podia interromper.
Até que restou apenas uma pessoa.
Depois dela… seria eu.
Minhas mãos suavam. Meu estômago se contraía. Minha respiração ficava irregular.
Tentei inspirar profundamente.
Não funcionou.
Então ouvi meu nome. Era a minha vez.
Levantei lentamente. Minhas pernas pareciam feitas de chumbo. Caminhei até a frente da sala sentindo dezenas de olhares pousarem sobre mim.
Talvez ninguém estivesse realmente me julgando. Talvez ninguém prestasse tanta atenção. Mas meu cérebro não acreditava nisso. Ele enxergava todos aqueles rostos como uma ameaça.
Olhei para os colegas. Erro fatal.
A sensação de pânico aumentou. Voltei os olhos para o chão. Mais seguro.
Meu coração disparou ainda mais. Tão forte que parecia ecoar dentro da minha cabeça.
Abri a boca para começar.
Nenhuma palavra saiu.
O silêncio se tornou insuportável. Eu sabia o que precisava dizer, tinha ensaiado, conhecia o conteúdo. Mas minha mente estava vazia.
Meu corpo começou a tremer. As mãos. As pernas. Até minha voz.
Não conseguia respirar direito. O ar entrava e saía rápido demais.
Minha garganta parecia fechada.
Os segundos passavam. Cada segundo era uma eternidade.
Então ouvi risadas abafadas no fundo da sala. Pequenas. Discretas. Mas suficientes.
Meu coração afundou. Os cochichos começaram.
Talvez não fossem sobre mim. Talvez comentassem outra coisa. Mas não importava. Minha mente já havia decidido:
Estão rindo de você.
Estão vendo você falhar.
Estão vendo o quanto você é ridícula.
A vergonha me consumiu. Eu queria desaparecer. Queria correr. Queria acordar daquele pesadelo como havia acordado do sonho do oceano.
Mas não havia despertar. Aquilo era real. Muito real.
A professora tentou me incentivar. Um olhar de compreensão, uma mão estendida. Mas as palavras chegavam distantes, abafadas. Como se eu estivesse submersa. Como se estivesse afundando novamente.
Trriiiim!
O sinal finalmente tocou. Seu som cortou a sala como uma corda sendo rompida.
O exercício foi interrompido. Os alunos levantaram, conversaram, guardaram os materiais. A vida deles continuou normalmente.
A minha não.
Fiquei imóvel por alguns segundos, sentindo o peso do silêncio ao meu redor enquanto todos se moviam. Tentando entender o que havia acabado de acontecer. Não foi apenas vergonha. Não foi apenas nervosismo.
Algo dentro de mim havia mudado. Algo que continuaria comigo muito depois que todos esquecessem aquele momento.
Enquanto observava a sala esvaziar, senti um aperto estranho no peito. Um medo novo, mais profundo.
Foi naquele dia que percebi: não tinha medo apenas de apresentações ou de errar.
Eu tinha medo das pessoas. Dos olhares. Dos julgamentos. Da exposição.
Não foi apenas vergonha o que obtive naquele dia. Foi a fobia que absorvi e que agora carregaria comigo. Uma cicatriz invisível, mas que doía a cada lembrança.

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