O som seco de madeira contra madeira ecoava pelo campo de treinamento.

    Marco atacava com a espada de madeira em mãos, avançando contra Faey Tyrson, que desviava com facilidade, seu corpo se movendo de forma calculada e precisa. Cada golpe que ele desferia encontrava apenas o ar ou o bloqueio firme da tenente.

    Do lado de fora do círculo de treino, Lou-reen observava de braços cruzados, com sua expressão fechada e analítica. Ao seu lado, Venia assistia apreensiva, segurando uma prancheta como se aquilo lhe trouxesse alguma segurança.

    Marco atacou mais uma vez, mirando o tronco da tenente. Faey inclinou o corpo para o lado, desviando por um fio e girando sobre os calcanhares. Num instante, ela estava na sua guarda.

    — Você ataca com muita força e sem precisão. — A voz dela era firme, mas sem pressa. — Desperdiça energia tentando acertar golpes que eu vejo chegando de longe.

    Marco rangeu os dentes e levantou a espada para bloquear, mas Faey não lhe deu tempo.

    Ela avançou.

    O primeiro golpe atingiu seu antebraço. Seco. Preciso.

    — Ergue demais os braços, deixa o tronco exposto.

    Marco tentou recuar, mas Faey avançou novamente, atingindo sua coxa. Ele cambaleou.

    — Não protege as pernas. Isso te faz previsível.

    Ele tentou um contra-ataque, mas Faey se adiantou, batendo sua espada contra a dele e deslocando seu centro de gravidade.

    — E não controla o próprio equilíbrio.

    Marco caiu sentado no chão com um baque. Faey recuou, mantendo a postura impecável enquanto girava a espada de madeira na mão.

    — Você não está lutando com um bandido qualquer. Está lutando contra alguém treinado. Se não corrigir esses erros básicos, não tem chance.

    Marco bufou, mas se ergueu, sentindo os músculos reclamarem. Ele sabia que esse treinamento não seria fácil. Mas não esperava que fosse tão humilhante.

    — Já é o bastante por hoje. — Lou-reen finalmente disse.

    Faey hesitou por um instante antes de abaixar a espada de madeira. Marco, por sua vez, deixou escapar um suspiro aliviado. Seu corpo inteiro doía dos impactos, mas ele sabia que estava melhorando. Pelo menos, era o que ele queria acreditar.

    — Em apenas uma semana, sua evolução foi significativa. — Lou-reen avaliou com o olhar clínico de sempre. — Mas lutar não é apenas técnica. Hora de treinar sua essência.

    Marco se endireitou, sentindo um leve orgulho brotar. Durante os últimos dias, Lou-reen vinha lhe ensinando os fundamentos da essência primordial e, pela primeira vez, ele começava a achar que aquilo fazia sentido.

    — Já sabe como funciona? — ela perguntou, firme.

    Desde que Lou-reen o ensinou a senti-la, Marco nunca mais deixou de perceber a essência primordial. Era como calor difuso no ar. Vibração e ritmo. Algo sempre presente, esperando ser chamado. Ele cruzou os braços e sorriu, um pouco convencido demais.

    — Sim, consegui até esquentar a água para o banho hoje de manhã.

    Lou-reen ergueu uma sobrancelha, levemente surpresa.

    — Foi mesmo?

    — Bom… — ele desviou o olhar. — Só um pouco…, mas foi melhor do que a água congelante da semana passada.

    Ela balançou a cabeça, suspirando, e então puxou sua espada da bainha. Girou o cabo na direção dele.

    — Veja.

    Marco se aproximou. A lâmina reluzia, mas o que chamou sua atenção foi a runa gravada no punho: traços curvos, linhas cruzadas, simetria precisa.

    — Hoje você aprenderá a criá-la com essência. — disse ela.

    Ele estudou a inscrição com curiosidade. Não era a primeira runa que via em Taeris, mas era a primeira vez que parava para analisar uma de perto. E algo nele lhe era… familiar.

    Uma sensação incômoda se formou no fundo da mente, como se estivesse à beira de lembrar algo importante — mas a resposta se escondia, girando logo fora de alcance.

    Nova, alguma ideia?

    A resposta veio, direta:

    “Identificação completa. O padrão da runa contém a fórmula estrutural do etanol.”

    Marco piscou.

    O quê?

    Olhou de novo. A disposição dos traços, o número de ramificações, a forma como tudo se conectava… era uma representação visual simplificada da molécula de etanol.

    A cabeça de Marco girou com a informação. Aquilo não era coincidência.

    — Lou-reen… me mostre outra runa. — disse, subitamente sério.

    Ela franziu o cenho.

    — Qual?

    — A runa de gelo. Aquela que você usou contra os lobos do Domador.

    Ela hesitou. Mas então ergueu a mão livre e canalizou sua essência. Um brilho azul começou a irradiar da palma. No ar, surgiu uma nova runa, flutuando, envolta em leve névoa.

    Marco deu um passo à frente. O padrão também era familiar.

    Nova…?

    “Análise completa. A estrutura da runa contém a fórmula molecular do nitrogênio.”

    O coração de Marco acelerou. Agora tudo fazia sentido.

    A essência primordial não era apenas uma energia abstrata. Ela assumia formas específicas. Reproduzia padrões físicos que, de alguma forma, coincidiam com a química que ele conhecia. Ou talvez o contrário: o universo físico replicava essas estruturas arcanas.

    Ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

    — Lou-reen… como você conjura uma esfera de fogo?

    Ela olhou para ele, um pouco surpresa com a pergunta, mas respondeu com a franqueza típica de um soldado de Taeris:

    — Simples. Puxo essência do ar, concentro na palma, imagino calor — algo que queima, que destrói. Mentalizo o formato de seis lados porque é mais estável. A energia se reúne e… — Ela abriu a mão. Uma esfera de chamas nasceu ali, girando suavemente no ar — …se forma.

    Para ela, era natural. Tão trivial quanto amarrar o cadarço de uma bota. Nenhuma teoria, nenhuma fórmula. Só prática, hábito e instinto.

    Marco assentiu, mas por dentro, a mente estava fervendo.

    Ela não precisa entender a estrutura do etanol… mas ainda assim, está usando-a.

    — Sua vez. — Lou-reen ordenou, como se estivesse pedindo pra ele respirar.

    Marco engoliu em seco. Inspirou fundo. Sentiu a essência ao redor. Como um rio invisível correndo em todas as direções. Ele puxou uma parte para si.

    “Etanol. C₂H₅OH. Dois carbonos. Cinco hidrogênios. Uma hidroxila.” Nova recitou com precisão.

     Marco visualizou a estrutura com clareza científica. Traçou no ar os átomos, as ligações, a forma tridimensional adaptada em runa mágica. Rastros dourados começaram a surgir, hesitantes. Ele fechou o padrão com um hexágono.

    A runa brilhou por um segundo… e se desfez.

    Lou-reen não disse nada.

    Marco rangeu os dentes. Tentou de novo. Agora com menos essência. Nova corrigiu sua distribuição, ajustando o ponto de ignição. A runa acendeu. A esfera se formou.

    Pequena e trêmula.

    Ele sorriu e a esfera explodiu.

    Lou-reen continuava em silêncio, os braços cruzados. Como se estivesse esperando. Observando se ele ia parar.

    Ele não parou.

    Porque agora ele sabia: magia era ciência.  Marco já começava a entender a linguagem secreta do mundo.

    Só faltava aprender a falar sem explodir a mão no processo.

    ***

    O treino terminou com Marco estirado no chão, ofegante, o corpo coberto de fuligem e queimaduras superficiais. Seu uniforme estava chamuscado em vários pontos, e o cheiro de fumaça pairava ao redor.

    Lou-reen cruzou os braços, observando-o com um pequeno sorriso satisfeito.

    — Nada mal. — Ela comentou, inclinando a cabeça. — Você está tão bem quanto uma criança de cinco anos comum de Taeris.

    Marco piscou, atordoado.

    — Cinco anos?!

    Faey, que estava ao lado da general, arqueou uma sobrancelha.

    — Sim. Aos cinco anos as crianças já têm noções básicas de controle de essência. Aos dez, entram no Colégio Militar. Aos quinze, seguem para a Academia. Aos dezoito, estão prontos para o Exército Imperial.

    Marco piscou novamente.

    — No meu mundo a gente só entra no exército com dezoito anos.

    Agora foi a vez de Lou-reen e Faey se entreolharem, confusas.

    — Só aos dezoito? — Faey repetiu, como se fosse um conceito absurdo.

    — Como vocês vencem guerras assim? — Lou-reen perguntou, ainda tentando processar. — Sem essência, sem bolas de fogo… como lutam?

    Marco se sentou devagar, ainda sentindo a pele arder dos últimos ataques, e soltou um suspiro.

    — Com armas. — Ele respondeu. — E bombas.

    Houve um breve silêncio.

    — O que é uma “bomba”?

    Marco piscou. Ele não havia considerado que elas sequer conheciam o conceito.

    — É… uma arma de destruição. — Ele começou. — Algo que explode e causam danos em grande escala.

    Faey estreitou os olhos.

    — Explosões eu entendo. Mas como vocês fazem algo explodir sem essência?

    — Com reações químicas. — Marco explicou, gesticulando. — Uma bomba é um recipiente cheio de substâncias que, quando ativadas, reagem violentamente liberando calor, fogo e uma onda de pressão.

    Lou-reen franziu o cenho.

    — Então sua gente… fabrica explosões?

    — Exato. Existem vários tipos de explosões. Como a Thermobaric.

    Ela cruzou os braços.

    — E o que essa tal de Thermobaric faz?

    Marco respirou fundo, tentando encontrar uma explicação que se encaixasse na mentalidade de uma guerreira mágica medieval.

    — Pense em uma magia de fogo comum. — Ele começou. — Mas, ao invés de conjurar uma chama diretamente, primeiro você espalha no ar uma névoa de óleo extremamente inflamável. Essa névoa se mistura ao ar do ambiente, criando um campo de combustão invisível. Então, você lança a faísca.

    Os olhos de Lou-reen brilharam com interesse.

    — E o que acontece?

    — A névoa inteira pega fogo de uma vez só, gerando uma explosão muito maior do que um feitiço de fogo normal. O calor intenso queima tudo ao redor, enquanto a onda de choque esmaga e sufoca quem estiver na área.

    Dessa vez, até Faey demonstrou surpresa.

    — Vocês criaram algo assim… sem essência?

    Marco assentiu.

    Lou-reen sorriu de canto. Não era um sorriso amigável.

    — Me conte mais sobre essas bombas.

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