O almoço havia terminado, e Marco observava enquanto Lou-reen se preparava para sair. A general ajustou a capa e pegou a espada, preparando-se para a visita à prisão.

    Antes de sair, Lou-reen retirou algo do bolso e estendeu para Marco.

    — Tome. Nunca deixe de usá-lo.

    Marco pegou o objeto e percebeu que era um colar com uma pequena pedra de selenita vermelha incrustada no centro. O cristal emitia um brilho fraco, quase imperceptível.

    Ele ergueu uma sobrancelha.

    — Isso é só um acessório ou tem alguma função especial?

    Em resposta, Lou-reen puxou um disco de selenita branca que cabia na palma de sua mão.

    — Quando você canalizar essência na pedra do colar, este disco irá ressoar e me mostrar sua localização. Distância e direção exatas.

    Marco arregalou os olhos.

    — Então isso é tipo um rastreador?

    — Rastreador? — Ela repetiu o termo desconhecido, mas ignorou a explicação. — Com isso, qualquer problema, eu apareço em menos de cinco segundos.

    Marco segurou o colar por um instante, sentindo o peso da responsabilidade embutida naquele pequeno cristal. Ela estava confiando nele para se virar sozinho, mas também não deixaria que ele enfrentasse perigo desnecessário.

    Ele colocou o colar no pescoço e deu um meio sorriso.

    — Bem, se eu me perder, pelo menos sei que vou ter uma general furiosa me caçando.

    Lou-reen cruzou os braços, avaliando-o com um olhar sério.

    — Tente não precisar disso.

    Marco riu e se espreguiçou. Pela primeira vez desde que chegara a Taeris, teria um tempo livre.

    — Já que estou sozinho, acho que vou aproveitar para dar uma volta.

    — Para fazer o quê? — Faey perguntou, sem tirar a postura rígida.

    — Comprar algumas coisas. Quero montar um telescópio amador, então preciso de alguns materiais simples. Mas tem um pequeno problema… — Marco bateu nos bolsos vazios e forçou um sorriso. — Eu não tenho um tostão furado.

    Lou-reen suspirou e olhou para Venia.

    — Dê algumas moedas a ele.

    A secretária, que estava organizando alguns pergaminhos, levantou os olhos, surpresa.

    — Ahn… s-sim, senhora.

    Ela abriu uma pequena bolsa de couro e contou algumas moedas, entregando-as a Marco com mãos hesitantes.

    — Isso deve ser suficiente para coisas básicas…

    — Valeu, Venia! — Marco pegou as moedas e as observou com curiosidade antes de guardá-las no bolso.

    As moedas eram grossas e pesadas, com marcas que ele ainda não compreendia. Em uma delas, viu o símbolo de uma espada e um escudo cruzados, enquanto outra exibia uma torre imponente cercada por muralhas. Ele virou uma delas entre os dedos, sentindo o peso do metal frio.

    — Interessante… Nunca pensei que precisaria aprender sobre o dinheiro de outro mundo.

    ***

    Marco ajeitou uma bolsa de couro ao redor do tronco, ajustando a alça para que ficasse firme. Antes de sair, olhou para o Cetro de Clyve, que flutuava levemente ao seu lado, como sempre.

    — Você vai ter que ficar aqui dentro por um tempo — murmurou, abrindo a bolsa.

    A relíquia não protestou, apenas deslizou suavemente para dentro do compartimento, acomodando-se sem dificuldades. O brilho vermelho dos rubis na caveira se apagou parcialmente, tornando-se mais discreto.

    — Melhor assim — Marco comentou, puxando a aba da bolsa para cobrir a abertura. Não queria atrair olhares desnecessários carregando um cetro flutuante no meio da cidade.

    Com tudo pronto, ele inspirou fundo e seguiu para fora da casa de Lou-reen. O ar frio de Yhe-for bateu em seu rosto assim que cruzou a porta. O sol já estava mais alto, iluminando as construções robustas da cidade militar.

    — Muito bem, Nova — disse em voz baixa. — Vamos às compras.

    “Recomendo que busque fornecedores confiáveis e compare preços antes de efetuar qualquer compra,” a IA sugeriu em sua mente.

    — Eu só quero comprar algumas lentes, madeira e uns metais básicos. Como difícil pode ser?

    “Quer uma lista estatística das coisas que podem dar errado?”

    — Melhor não.

    Marco caminhava pelas ruas rígidas de Yhe-for, os olhos analisando as construções de pedra robustas ao redor. Tudo na cidade parecia feito para suportar uma guerra: paredes espessas, janelas estreitas, torres de vigia. A fortificação não era só um conceito ali, mas parte do dia a dia.

    Marco entrou na oficina do vidraceiro e imediatamente foi recebido por um cheiro forte de fuligem e calor residual dos fornos. A pequena loja era simples, com prateleiras repletas de placas de vidro de diferentes espessuras, algumas já cortadas em formatos específicos, outras ainda brutas.

    Atrás do balcão, um homem de meia-idade limpava as mãos em um avental encardido, observando Marco com curiosidade.

    — Em que posso ajudar?

    Marco tirou um pequeno pedaço de carvão e começou a desenhar no balcão de madeira.

    — Preciso de duas lentes de vidro, cortadas nesses formatos aqui. — Ele traçou dois círculos, um maior e um menor. — A superfície deve ser levemente curva, assim.

    O vidraceiro franziu a testa.

    — Curva? Você quer vidro soprado?

    — Não exatamente. Preciso que elas sejam moldadas com precisão para focar a luz. Tipo… sabe como uma gota d’água pode aumentar algo quando você olha através dela? Quero o mesmo efeito, mas em vidro.

    O homem cruzou os braços.

    — Nunca fiz nada assim. Para que vai usar?

    Marco sorriu.

    — Para olhar as estrelas.

    O vidraceiro bufou, descrente.

    — Você quer vidro para um espelho, então? Temos espelhos polidos—

    — Não, não. Eu quero ampliar os detalhes do céu, não refletir. Essas lentes vão ser parte de um tubo que direciona a luz e amplia os astros.

    O vidraceiro coçou o queixo, ainda desconfiado.

    — Nunca ouvi falar de algo assim… Mas, se pagar bem, posso tentar.

    Marco pegou as moedas que Lou-reen havia lhe dado e as colocou sobre o balcão.

    — Isso cobre o serviço?

    — Dá e sobra. E, por sorte, eu posso fazer isso agora.

    Ele pegou um pedaço bruto de vidro e levou até um pequeno forno, onde o material começou a brilhar com o calor intenso. Marco esperava que ele usasse alguma ferramenta para moldar o vidro derretido, talvez assoprando ou derramando em uma forma, mas, para sua surpresa, o vidraceiro simplesmente ergueu as mãos ao redor do material. Seus dedos se moveram com precisão, como se estivessem esculpindo o ar, e o vidro derretido começou a se contorcer e se ajustar, assumindo lentamente o formato exato que Marco havia descrito.

    Havia um leve brilho ao redor das mãos do homem, e Marco reconheceu imediatamente: ele estava usando essência primordial.

    O vidraceiro estreitou os olhos, concentrado, enquanto o vidro tomava forma. Em poucos minutos, a peça estava pronta e resfriava-se em um banho de água especial.

    Marco observava fascinado.

    — Isso foi muito mais eficiente do que eu esperava.

    O vidraceiro deu de ombros.

    — Com a essência e a prática, qualquer coisa pode ser moldada.

    Ele pegou as lentes ainda mornas e as entregou a Marco.

    — Aqui está. Teste aí e me diga se ficaram do jeito que queria.

    Marco pegou as peças cuidadosamente, observando o formato perfeito. Ele sorriu, satisfeito.

    — Ficaram ótimas. Obrigado.

    Depois de conseguir as lentes, Marco partiu em busca do próximo item essencial: um tubo para o telescópio. Ele encontrou uma loja de metais onde adquiriu um cilindro resistente o bastante para manter as lentes alinhadas. O vendedor estranhou o pedido incomum, mas não fez muitas perguntas quando Marco pagou adiantado.

    Em seguida, ele foi até um carpinteiro local para conseguir madeira e montar a estrutura do telescópio. Escolheu pedaços leves, mas firmes, e pediu cortes específicos para facilitar a montagem. O carpinteiro entregou tudo com eficiência, e Marco amarrou os materiais em um feixe para carregá-los com mais facilidade.

    Quando terminou suas compras, o céu já havia assumido tons alaranjados, e as sombras da cidade se estendiam pelas ruas de pedra. Marco olhou ao redor e percebeu que não fazia ideia de quanto tempo havia passado. Com um suspiro, ajeitou a bolsa com o cetro e pegou o caminho de volta para a casa de Lou-reen.

    Enquanto caminhava de volta, Marco passou por uma estrutura diferente das demais: uma mansão abandonada, cujas paredes de pedra desgastadas ainda mostravam traços de um passado grandioso. Mas o que realmente chamou sua atenção foi a torre alta, erguendo-se imponente contra o céu que começava a escurecer.

    Ele parou por um instante, observando o topo da construção. Ali seria um ótimo lugar para montar o telescópio pela primeira vez, longe da iluminação da cidade e com uma visão privilegiada do céu.

    — Acho que vou dar uma olhada. — Murmurou, desviando o caminho em direção ao portão enferrujado.

    “Recomendações de segurança: a estrutura pode estar instável, e há 72,6% de chance de você não estar sozinho lá dentro.” A voz de Nova ressoou em sua mente.

    — Relaxa, eu só vou testar o telescópio. Além do mais, não é como se alguém morasse aqui.

    ***

    Marco se afastou do telescópio, admirando sua obra com um sorriso satisfeito. O tubo estava montado, firme na estrutura de madeira que ele havia improvisado com os materiais que conseguira. Ele havia montado o aparelho com precisão, o que, por si só, já parecia um grande feito.

    Lá em cima, as estrelas brilhavam com intensidade, e Marco não conseguia esconder o orgulho ao ver o céu noturno através da lente. Ele se inclinou, ajustando o foco e observando atentamente a imensidão do espaço. Aos poucos, as estrelas se tornaram mais nítidas, e, com um suspiro de contentamento, ele reconheceu uma formação que o encantou: um planeta.

    É o que eu chamaria de um grande começo, pensou, satisfeito com o que acabara de descobrir.

    Foi então que, de repente, uma voz feminina cortou o silêncio da noite.

    — Quem é você e o que está fazendo aqui?

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