As masmorras de Yhe-for eram úmidas e escuras, escavadas diretamente na rocha fria sob a fortaleza. Tochas bruxuleantes lançavam sombras irregulares nas paredes grossas, onde o musgo crescia em fendas antigas. O cheiro de ferrugem e podridão impregnava o ambiente, misturando-se ao odor metálico do sangue. Os corredores eram estreitos, com grades reforçadas separando as celas dos prisioneiros condenados.

    — P-por favor… eu já disse tudo! — O Domador arfava, sua respiração irregular. — Eu juro! Eu não sei quem me contratou! Ele nunca mostrou o rosto!

    Lou-reen saiu da cela, fechando a porta de ferro atrás de si. Seu olhar estava sombrio, a expressão endurecida pela frustração. Passou a mão sobre a luva de couro, limpando discretamente um resquício de sangue que manchava seus dedos antes de se virar para o guarda mais próximo.

    — Chamem um curandeiro. — Sua voz cortou o silêncio do corredor. O guarda mais próximo assentiu e saiu apressado.

    Ao lado da porta da prisão, Venia esperava. Ela parecia hesitante, mas sua expressão carregava uma expectativa silenciosa. Quando Lou-reen se aproximou, a secretária ajustou os óculos e perguntou:

    — O que descobriu?

    A general suspirou, ajeitando a capa.

    — Nada de novo. O empregador deles não mostrou o rosto, pagou metade do dinheiro antecipadamente e apenas marcou um ponto de encontro para pegar a encomenda. — Sua expressão ficou ainda mais séria. — Mas os dois de Sadra disseram algo interessante que preciso verificar imediatamente… em casa.

    Venia piscou, surpresa.

    — Em casa…?

    Lou-reen não respondeu. Apenas virou-se e caminhou com passos firmes em direção à saída da prisão. Algo em seu olhar dizia que não perderia tempo.

    ***

    — Quem é você e o que está fazendo aqui?

    A voz feminina fez Marco dar um pulo e levar a mão instintivamente ao colar que Lou-reen lhe dera. Seu coração acelerou por um instante, mas ele forçou-se a respirar fundo e olhar ao redor.

    Encostada na entrada da torre, uma jovem o observava. Seu cabelo loiro emoldurava um rosto delicado, e os olhos azuis brilhavam em pura curiosidade. Ela usava roupas elegantes, um vestido bem ajustado que, apesar da poeira da mansão abandonada, ainda parecia impecável. Maquiada com cuidado, seus lábios e olhos tinham um toque de cor que contrastava com a palidez de sua pele.

    Ela parecia… frágil. Diferente de qualquer outra pessoa que Marco havia visto em Taeris.

    — Eu sou Marco, e… — Ele indicou o telescópio improvisado. — Estava apenas observando as estrelas.

    A jovem estreitou os olhos e deu alguns passos à frente, parecendo mais interessada do que desconfiada.

    — Você também gosta de olhar para o céu? — Ela perguntou, com um tom de empolgação na voz. — Eu sou a única pessoa que conheço que faz isso. Todos aqui só se preocupam com o exército, treinamentos, batalhas… Mas o céu é tão lindo.

    Marco arqueou uma sobrancelha. O jeito que ela falava deixava claro que ela não era uma guerreira, muito menos alguém envolvida com a rígida disciplina de Yhe-for.

    — Então venha ver isso. — Ele se afastou do telescópio e fez um gesto para que ela se aproximasse.

    A jovem hesitou por um instante, mas logo avançou. Seus dedos tocaram levemente a estrutura do telescópio, como se temesse quebrá-lo.

    — Como… como eu vejo? — perguntou, franzindo a testa.

    — Feche um olho e olhe com o outro pela lente.

    Ela obedeceu, ainda incerta, ajustando-se até encontrar o ângulo certo. Quando a imagem se formou diante dela, não conseguiu conter a emoção.

    Ela afastou-se devagar, os olhos ainda arregalados, como se tentasse gravar aquela imagem na memória.

    — É… mais lindo do que eu poderia imaginar. — Sua voz saiu quase em um sussurro. — Como você fez isso? — Sua voz carregava uma mistura de admiração e incredulidade.

    — Eu trabalhava com isso antes de vir parar aqui. — Marco sorriu de leve. — Lá de onde eu venho, sou um explorador do espaço.

    Ela piscou algumas vezes, absorvendo as palavras. Ela não entendia completamente o que aquilo significava, mas havia algo fascinante naquele homem que estudava o céu com tamanha paixão.

    Ele não era como as outras pessoas.

    Marco observou o brilho nos olhos da jovem e sorriu, intrigado.

    — E qual é o seu nome? — perguntou.

    Ela ergueu o queixo levemente, como se o nome tivesse peso.

    — Maera Olaraeth.

    Marco piscou. O sobrenome soava importante, mas ele o guardou para depois.

    — Maera — repetiu, testando como o nome soava. — Venha cá, quero te mostrar algo.

    Ela se inclinou curiosa quando ele voltou ao telescópio e ajustou a posição.

    — Olhe novamente. Você vai ver um pequeno ponto azul no céu.

    Maera hesitou por um instante antes de se aproximar e espiar pela lente. Seus olhos se arregalaram de novo, e Marco percebeu quando a respiração dela ficou mais lenta, como se estivesse prendendo o fôlego.

    — O que… o que é isso? — sussurrou.

    — Um outro mundo.

    Maera se afastou bruscamente, olhando para ele com uma mistura de descrença e curiosidade.

    — Outro… mundo?

    Marco assentiu.

    — Lá de onde eu venho, chamamos de planetas. São mundos inteiros, como Taeris, mas muito distantes. — Ele apontou para o céu estrelado. — Cada um desses pontos pode ser uma estrela, como o sol, ou um planeta, girando ao redor dela. E esse… — Ele indicou a lente do telescópio novamente. — Esse eu acabei de descobrir.

    Ela se afastou um pouco, confusa.

    — Você está dizendo que esse ponto azul é um outro mundo?

    Marco assentiu.

    — Sim. Um lugar distante, girando ao redor do mesmo sol que ilumina Taeris.

    Maera ficou em silêncio, processando aquela informação. Então voltou a olhar, desta vez mais demoradamente.

    — É lindo — disse, encantada.

    Marco sorriu.

    — E sabe o que é melhor? Como fui eu quem descobriu, posso dar um nome a ele.

    Maera desviou o olhar do telescópio para encará-lo, sem entender completamente.

    — Nomear um mundo?

    — Sim, e eu acho que já tenho o nome perfeito. — Ele a fitou diretamente. — Maera.

    Maera piscou, surpresa.

    — Está dizendo que…

    — Como descobridor, eu tenho o direito de nomeá-lo — Marco declarou, cruzando os braços. — E acho justo chamá-lo de Maera.

    Os lábios da jovem se entreabriram, e Marco percebeu que pela primeira vez ela parecia genuinamente sem palavras. Ela desviou o olhar por um instante, como se tentasse esconder um leve rubor no rosto, mas logo voltou a encará-lo com um sorriso.

    — Você acabou de nomear um outro mundo… com o meu nome?

    — Sim, acho que combina. Ele é azul como os seus olhos.

    Ela riu suavemente, tocando os próprios dedos.

    — Eu não sei o que dizer…

    Um rubor discreto coloriu as bochechas dela. Maera desviou o olhar, voltando-se para o telescópio, mas um pequeno sorriso curvou seus lábios.

    — Então… esse mundo agora se chama Maera?

    — Exatamente.

    Ela tocou levemente a lente do telescópio, como se aquilo pudesse tornar tudo mais real.

    — Um outro mundo, lá em cima… — sussurrou para si mesma. Então ergueu o olhar para Marco, um novo brilho de empolgação em seus olhos. — O que mais podemos encontrar?

    ***

    Marco entrou em casa ainda sorrindo, a empolgação da noite refletida em cada passo leve. A experiência de olhar as estrelas com Maera, de compartilhar aquele momento único, deixava sua mente a mil. Eles haviam combinado de se encontrar novamente na noite seguinte, e ele mal podia esperar.

    Mas, ao fechar a porta atrás de si, o ambiente pareceu congelar.

    Lou-reen estava sentada à mesa de jantar, imóvel, as mãos entrelaçadas sobre o tampo de madeira. Sua expressão era indecifrável, mas a aura ao seu redor pesava como uma lâmina afiada encostada na garganta. O ar parecia mais denso, carregado por uma tensão que fez Marco parar no mesmo instante.

    Os olhos de Lou-reen subiram lentamente até encontrá-lo.

    — Onde. Você. Estava?

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