Capítulo 014 — Maera
As masmorras de Yhe-for eram úmidas e escuras, escavadas diretamente na rocha fria sob a fortaleza. Tochas bruxuleantes lançavam sombras irregulares nas paredes grossas, onde o musgo crescia em fendas antigas. O cheiro de ferrugem e podridão impregnava o ambiente, misturando-se ao odor metálico do sangue. Os corredores eram estreitos, com grades reforçadas separando as celas dos prisioneiros condenados.
— P-por favor… eu já disse tudo! — O Domador arfava, sua respiração irregular. — Eu juro! Eu não sei quem me contratou! Ele nunca mostrou o rosto!
Lou-reen saiu da cela, fechando a porta de ferro atrás de si. Seu olhar estava sombrio, a expressão endurecida pela frustração. Passou a mão sobre a luva de couro, limpando discretamente um resquício de sangue que manchava seus dedos antes de se virar para o guarda mais próximo.
— Chamem um curandeiro. — Sua voz cortou o silêncio do corredor. O guarda mais próximo assentiu e saiu apressado.
Ao lado da porta da prisão, Venia esperava. Ela parecia hesitante, mas sua expressão carregava uma expectativa silenciosa. Quando Lou-reen se aproximou, a secretária ajustou os óculos e perguntou:
— O que descobriu?
A general suspirou, ajeitando a capa.
— Nada de novo. O empregador deles não mostrou o rosto, pagou metade do dinheiro antecipadamente e apenas marcou um ponto de encontro para pegar a encomenda. — Sua expressão ficou ainda mais séria. — Mas os dois de Sadra disseram algo interessante que preciso verificar imediatamente… em casa.
Venia piscou, surpresa.
— Em casa…?
Lou-reen não respondeu. Apenas virou-se e caminhou com passos firmes em direção à saída da prisão. Algo em seu olhar dizia que não perderia tempo.
***
— Quem é você e o que está fazendo aqui?
A voz feminina fez Marco dar um pulo e levar a mão instintivamente ao colar que Lou-reen lhe dera. Seu coração acelerou por um instante, mas ele forçou-se a respirar fundo e olhar ao redor.
Encostada na entrada da torre, uma jovem o observava. Seu cabelo loiro emoldurava um rosto delicado, e os olhos azuis brilhavam em pura curiosidade. Ela usava roupas elegantes, um vestido bem ajustado que, apesar da poeira da mansão abandonada, ainda parecia impecável. Maquiada com cuidado, seus lábios e olhos tinham um toque de cor que contrastava com a palidez de sua pele.
Ela parecia… frágil. Diferente de qualquer outra pessoa que Marco havia visto em Taeris.
— Eu sou Marco, e… — Ele indicou o telescópio improvisado. — Estava apenas observando as estrelas.
A jovem estreitou os olhos e deu alguns passos à frente, parecendo mais interessada do que desconfiada.
— Você também gosta de olhar para o céu? — Ela perguntou, com um tom de empolgação na voz. — Eu sou a única pessoa que conheço que faz isso. Todos aqui só se preocupam com o exército, treinamentos, batalhas… Mas o céu é tão lindo.
Marco arqueou uma sobrancelha. O jeito que ela falava deixava claro que ela não era uma guerreira, muito menos alguém envolvida com a rígida disciplina de Yhe-for.
— Então venha ver isso. — Ele se afastou do telescópio e fez um gesto para que ela se aproximasse.
A jovem hesitou por um instante, mas logo avançou. Seus dedos tocaram levemente a estrutura do telescópio, como se temesse quebrá-lo.
— Como… como eu vejo? — perguntou, franzindo a testa.
— Feche um olho e olhe com o outro pela lente.
Ela obedeceu, ainda incerta, ajustando-se até encontrar o ângulo certo. Quando a imagem se formou diante dela, não conseguiu conter a emoção.
Ela afastou-se devagar, os olhos ainda arregalados, como se tentasse gravar aquela imagem na memória.
— É… mais lindo do que eu poderia imaginar. — Sua voz saiu quase em um sussurro. — Como você fez isso? — Sua voz carregava uma mistura de admiração e incredulidade.
— Eu trabalhava com isso antes de vir parar aqui. — Marco sorriu de leve. — Lá de onde eu venho, sou um explorador do espaço.
Ela piscou algumas vezes, absorvendo as palavras. Ela não entendia completamente o que aquilo significava, mas havia algo fascinante naquele homem que estudava o céu com tamanha paixão.
Ele não era como as outras pessoas.
Marco observou o brilho nos olhos da jovem e sorriu, intrigado.
— E qual é o seu nome? — perguntou.
Ela ergueu o queixo levemente, como se o nome tivesse peso.
— Maera Olaraeth.
Marco piscou. O sobrenome soava importante, mas ele o guardou para depois.
— Maera — repetiu, testando como o nome soava. — Venha cá, quero te mostrar algo.
Ela se inclinou curiosa quando ele voltou ao telescópio e ajustou a posição.
— Olhe novamente. Você vai ver um pequeno ponto azul no céu.
Maera hesitou por um instante antes de se aproximar e espiar pela lente. Seus olhos se arregalaram de novo, e Marco percebeu quando a respiração dela ficou mais lenta, como se estivesse prendendo o fôlego.
— O que… o que é isso? — sussurrou.
— Um outro mundo.
Maera se afastou bruscamente, olhando para ele com uma mistura de descrença e curiosidade.
— Outro… mundo?
Marco assentiu.
— Lá de onde eu venho, chamamos de planetas. São mundos inteiros, como Taeris, mas muito distantes. — Ele apontou para o céu estrelado. — Cada um desses pontos pode ser uma estrela, como o sol, ou um planeta, girando ao redor dela. E esse… — Ele indicou a lente do telescópio novamente. — Esse eu acabei de descobrir.
Ela se afastou um pouco, confusa.
— Você está dizendo que esse ponto azul é um outro mundo?
Marco assentiu.
— Sim. Um lugar distante, girando ao redor do mesmo sol que ilumina Taeris.
Maera ficou em silêncio, processando aquela informação. Então voltou a olhar, desta vez mais demoradamente.
— É lindo — disse, encantada.
Marco sorriu.
— E sabe o que é melhor? Como fui eu quem descobriu, posso dar um nome a ele.
Maera desviou o olhar do telescópio para encará-lo, sem entender completamente.
— Nomear um mundo?
— Sim, e eu acho que já tenho o nome perfeito. — Ele a fitou diretamente. — Maera.
Maera piscou, surpresa.
— Está dizendo que…
— Como descobridor, eu tenho o direito de nomeá-lo — Marco declarou, cruzando os braços. — E acho justo chamá-lo de Maera.
Os lábios da jovem se entreabriram, e Marco percebeu que pela primeira vez ela parecia genuinamente sem palavras. Ela desviou o olhar por um instante, como se tentasse esconder um leve rubor no rosto, mas logo voltou a encará-lo com um sorriso.
— Você acabou de nomear um outro mundo… com o meu nome?
— Sim, acho que combina. Ele é azul como os seus olhos.
Ela riu suavemente, tocando os próprios dedos.
— Eu não sei o que dizer…
Um rubor discreto coloriu as bochechas dela. Maera desviou o olhar, voltando-se para o telescópio, mas um pequeno sorriso curvou seus lábios.
— Então… esse mundo agora se chama Maera?
— Exatamente.
Ela tocou levemente a lente do telescópio, como se aquilo pudesse tornar tudo mais real.
— Um outro mundo, lá em cima… — sussurrou para si mesma. Então ergueu o olhar para Marco, um novo brilho de empolgação em seus olhos. — O que mais podemos encontrar?
***
Marco entrou em casa ainda sorrindo, a empolgação da noite refletida em cada passo leve. A experiência de olhar as estrelas com Maera, de compartilhar aquele momento único, deixava sua mente a mil. Eles haviam combinado de se encontrar novamente na noite seguinte, e ele mal podia esperar.
Mas, ao fechar a porta atrás de si, o ambiente pareceu congelar.
Lou-reen estava sentada à mesa de jantar, imóvel, as mãos entrelaçadas sobre o tampo de madeira. Sua expressão era indecifrável, mas a aura ao seu redor pesava como uma lâmina afiada encostada na garganta. O ar parecia mais denso, carregado por uma tensão que fez Marco parar no mesmo instante.
Os olhos de Lou-reen subiram lentamente até encontrá-lo.
— Onde. Você. Estava?
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