Capítulo 064 — As garras e a lâmina colidiram.
Nareth rangeu os dentes e avançou.
A espada desceu num arco bruto, sem elegância, só força. Kalamera ergueu o braço de metal e aparou. O impacto subiu pelos encaixes até os ombros, um choque seco.
Outra pancada. E outra.
Ele golpeava como alguém que queria apagar anos inteiros num único movimento. Nada de guarda, nada de recuo. Só aço contra metal, estalo atrás de estalo.
Ao redor, o mundo rachava.
Soldados em farda azul-escura de Taeris corriam pelo Distrito da Forja como se alguém tivesse virado uma chave invisível. Mesma lança, mesmo brasão, mas os alvos eram errados. Em vez de formar linha, atacavam quem estava perto. Em vez de proteger, atravessavam o próprio povo.
Ferreiros e aprendizes, todos com passado de treinamento militar, reagiam como podiam. Alguns formavam instintivamente pequenas defesas em volta das forjas, usando martelos, tenazes e lanças de treino. Outros eram derrubados antes de entender com clareza quem, ali, ainda obedecia a alguma cadeia de comando.
Gritos se misturavam ao chiado das brasas e ao cheiro de carne e carvão queimando.
Kalamera não contra-atacou.
Os quatro braços trabalhavam juntos: um segurava o antebraço que recebia a pancada, outro travava a linha da lâmina, os de baixo protegiam as laterais do corpo. Cada golpe de Nareth batia em metal, arrancava faíscas, mas não entrava.
— É isso? — ele cuspiu, ofegante, girando a espada para mais um ataque. — Tudo que você é… esses braços?
A lâmina bateu de lado, raspando na prótese como se tentasse abrir caminho na marra.
— Sem eles você não passava de mais uma aprendiz mediana, Kalamera. Mais uma sombra no fundo da forja.
Ela segurou o próximo golpe cruzando os dois braços superiores, travando a espada entre as juntas de metal.
— Como você sabia? — ela falou, sem tirar os olhos dele.
— Sabia o quê? — Nareth puxou a lâmina de volta e bateu de novo, mirando a cabeça. Ela levantou o braço e desviou, o fio raspando perto do rosto.
— Que Gorthen foi atacado pelas costas.
Ele deu uma risada curta, sem humor, e girou o punho, descendo um corte horizontal na altura do pescoço. Kalamera inclinou o corpo, deixou a lâmina bater no ombro de metal e escorregar.
— Gorthen era um tolo. — Nareth respondeu, apertando mais a guarda, o rosto suado, respiração pesada. — Apegado a forjas velhas, técnicas velhas, mestres velhos.
Outro golpe, vindo de cima. Ela ergueu dois braços ao mesmo tempo, cruzando-os como um escudo. A espada bateu ali, prendeu um instante, e ela torceu com a força das quatro próteses, jogando a lâmina para o lado.
Kalamera insistiu.
— Ninguém falou de ataque pelas costas.
Nareth não parou para pensar.
Ele avançou mais uma vez, gritando, golpe atrás de golpe. O fio da espada batia sempre no mesmo lugar: antebraços, cotovelos, juntas metálicas. Nenhuma carne para ceder.
Passo após passo, recuou entre bancadas, caldeirões, ferramentas largadas no chão. Cada vez que os pés tocavam pedra, ela sentia o tremor distante da Arena, como se o chão inteiro fosse um braseiro prestes a explodir.
Um soldado de farda imperial atravessou correndo o corredor entre as forjas, derrubando um aprendiz que tentava reposicionar a própria lança. Outro cravou a arma no peito de um mestre ferreiro que erguera o martelo como bloco de defesa. Os movimentos eram treinados, precisos, só o julgamento de alvo estava errado.
— Você devia estar ajoelhada, sabia? — Nareth falou, aproximando o rosto, fúria nos olhos. — Agradecida por essas sucatas te manterem de pé. Gorthen te fez um monstro útil. Um brinquedo de metal pro Império mostrar na vitrine.
Ela travou outro golpe na base dos braços, o corpo encostando numa coluna de pedra chamuscada.
Era o fim do espaço. Atrás dela, uma parede.
— E mesmo assim… — ele ergueu a espada, o corte pronto para descer. — Você insiste em falar.
Kalamera respirou fundo pela boca. Sentiu o calor da coluna nas costas, a vibração da pedra, o cheiro de ferrugem e suor preso no avental.
Ela baixou ligeiramente os braços e os olhou como se estivesse conferindo danos. Girou o pulso de uma prótese, flexionou os dedos de metal, como se um parafuso solto fosse mais urgente que a lâmina apontada para a garganta.
— Sabe, Nareth… — a voz saiu baixa, firme. — Pra encurralar alguém você deveria ter uma espada afiada.
Ele arqueou uma sobrancelha, impaciente.
— Andou afiando essa aí aonde?
Por um segundo, o barulho das forjas pareceu sumir.
Nareth olhou para a lâmina.
O fio estava marcado. Riscado. Microlascas brilhavam onde, minutos antes, o aço cortaria carne sem esforço. Cada bloqueio contra os braços de metal dela tinha comido um pouco da vantagem que ele achava ter.
Ele percebeu tarde.
Kalamera já se mexia.
Os pés dela empurraram o chão, o peso distribuído baixo. Ela saiu da coluna como se tivesse sido disparada de uma catapulta, o ombro avançando, o braço de metal vindo junto.
O impacto pegou em cheio no peito dele.
O som não foi de osso cedendo.
Foi metal batendo em metal.
Nareth voou para trás como se alguém tivesse arrancado o chão debaixo dos pés. Bateu de costas numa bancada, derrubou ferramentas, um braseiro virou, espalhando brasas pelo piso. Ele rolou, tossiu, puxando o ar como se tivesse engolido pedra.
Kalamera se endireitou, os quatro braços ainda em guarda.
Um soldado em farda de Taeris passou correndo a poucos passos, gritando uma ordem confusa para manter “os alvos” sob pressão e cravando a lança em outro ferreiro que tentava organizar uma linha de defesa. Mais adiante, dois grupos de soldados se chocavam entre si, todos com o mesmo brasão no peito. A cena parecia uma guerra interna estourando de repente, sem bandeiras trocadas.
Nareth finalmente conseguiu ficar de pé.
Apoiado na bancada, respirou fundo, o peito subindo sob o tecido rasgado. O olhar encontrou o dela.
— Não… foi ruim. — Ele passou os dedos pela região onde o golpe tinha batido.
Ele segurou a própria camisa com as duas mãos e puxou, rasgando o tecido de cima a baixo.
Debaixo, preso ao corpo magro, um peitoral metálico escuro ocupava o tronco inteiro. As bordas se encaixavam por baixo das costelas, o ombro coberto por tiras discretas. A superfície não era lisa como aço comum; tinha um brilho diferente, quase frio, mesmo sob a luz laranja das forjas.
— Aliás… — Nareth ajeitou o peitoral com um tapa leve, como quem mostra um prêmio. — Seu pai mandou lembrança, Kalamera.
Os olhos dela estreitaram.
— Mas não mandou presentes.
Ela reconhecia o som do metal quando o braço batia nele. Reconhecia o peso, a resistência. E reconhecia outra coisa: os sulcos rasos correndo pela superfície do peitoral, formando linhas que se cruzavam no centro do peito.
Runas.
Uma a uma, começaram a acender.
Kalamera firmou os pés.
Nareth abriu os braços um pouco, sentindo o peitoral vibrar contra a pele.
***
A poeira ainda caía do céu quando Lou-reen se ergueu dos escombros. O golpe de Serana fora rápido e certeiro demais. Seu uniforme estava rasgado no abdômen, sangue escorria em filetes, mas ela se mantinha de pé, espada em punho, os olhos fixos na inimiga.
Serana pousou à sua frente com a leveza de um predador experiente. O cabelo desgrenhado preso em tiras de couro, os olhos acesos de fúria contida. Nos pulsos, um bracelete escuro, gravado com runas antigas que pulsavam em vermelho vivo: o artefato roubado do Museu Imperial algumas noites atrás.
— O Bracelete de Solun… — murmurou Lou-reen, reconhecendo o objeto.
Um item lendário, imune a qualquer chama, e pior: capaz de converter fogo em energia para o portador. Um pesadelo para qualquer soldado do Império, especialmente para ela.
— Você realmente sobreviveu ao primeiro golpe — disse Serana, sorrindo com escárnio. — Clyve teria ficado impressionado.
Lou-reen limpou a boca com as costas da mão, cuspindo sangue.
— Eu não sei quem você pensa que é… mas vai se arrepender de ter me tirado daquele estádio.
Serana não respondeu. Avançou num estalo, como uma sombra viva. Suas garras cortaram o ar em arco, forçando Lou-reen a recuar, bloqueando com a lâmina. Mesmo assim, o impacto a lançou contra uma torre. A pedra cedeu. Serana já estava lá quando a poeira subiu.
Ela desceu como uma tempestade: garras rasgando o chão, atacando em sequências imprevisíveis, afiadas e selvagens. Lou-reen defendia com esforço, sua espada chiando a cada bloqueio. Um deslize, e as garras de Serana passaram rente ao rosto dela, abrindo um corte em sua bochecha.
— Você está com raiva — disse Lou-reen, entre um bloqueio e outro. — Raiva demais pra alguém que se diz tão no controle.
— Não é raiva — rosnou Serana, girando em pleno salto e rasgando o ar com as duas mãos. — É justiça.
Lou-reen desviou por baixo e contra-atacou, acertando o ombro de Serana com a parte chata da espada. A mulher recuou um passo, sorriu e saltou sobre ela com os joelhos à frente, empurrando a general contra as ruínas de uma torre antiga. As janelas explodiram com a força do impacto.
A luta seguiu pelo pátio destruído. Lou-reen tentou quebrar a distância, usando cotoveladas e joelhadas, mas Serana parecia uma pantera, dançando ao redor da lâmina com movimentos rasteiros, sempre buscando uma abertura.
Lou-reen finalmente liberou sua essência. A lâmina em sua mão incendiou-se de repente, envolta por labaredas intensas que dançavam com fúria contida. Com um grito de guerra, ela desferiu um golpe horizontal e uma onda de fogo varreu o ar, cortando o campo de batalha em direção a Serana como uma muralha incandescente. O calor era sufocante, ondulando a visão, rachando o solo por onde passava.
Mas Serana avançou sem medo.
As chamas se dissiparam ao redor do bracelete, absorvidas como se fossem alimento. As runas brilharam com mais intensidade.
— Você luta como o Império manda — zombou Serana, olhos fixos na espada de Lou-reen. — Disciplinada e previsível.
Lou-reen apertou o cabo da arma. Ela seguia os ensinamentos com orgulho, cada movimento da espada era fruto de anos de rigor militar.
As garras e a lâmina colidiram. O impacto rachou o solo num raio de cinquenta metros. Uma cratera se abriu sob os pés delas, e o som do golpe ressoou como trovão sobre Ga-el.

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