Capítulo 076 — Coronel Von Smet
O corredor que levava ao pátio parecia menor do que na última vez.
Marco vinha com a espada na mão e a armadura ainda quente nas juntas, como se o metal lembrasse do salto impossível que o tinha arrancado do céu e devolvido a Ga-el. O som da arena batia abafado pelas paredes, pesado, irregular. Era guerra acontecendo a poucos metros, mas o labirinto de pedra fazia parecer outra cidade.
Será que a Asora passou por aqui?
Ele repetia isso como se fosse um cálculo. Como se, andando na direção certa, fosse encontrar uma resposta no chão.
“Você está procurando rastros num lugar onde todo mundo correu.”
— Eu tô procurando qualquer coisa.
A resposta saiu baixa, para ninguém. A voz da Nova ficou presa no áudio do capacete, sem entrar na cabeça dele. A falta do canal telepático incomodava mais do que devia.
O corredor abriu no pátio murado.
A primeira coisa que Marco viu foi o metal da porta reforçada. A segunda foi o chão.
Corpos.
Soldados de Taeris espalhados como se tivessem sido derrubados em sequência, cada um onde a formação tinha falhado. Escudos largados, lanças fora de linha. O sangue no piso formava manchas escuras, já secas nas bordas.
Hogge Bakalyn estava entre eles.
De lado, a cabeça encostada na pedra, um braço torto por baixo do tronco, expressão nenhuma no rosto, como se a vida tivesse sido desligada e ninguém tivesse apertado o botão de volta.
Marco parou antes de entrar de vez.
O peito travou.
Uma parte dele quis recuar. Outra quis correr. Nenhuma das duas mexeu o corpo.
“Marco.”
A Nova falou mais baixo do que de costume, quase cuidadosa.
“Você não ia encontrar finais bonitos aqui.”
Ele passou pelo limite do pátio. A sola da bota raspou numa poça já endurecida e fez um som áspero.
— Eu só queria…
Ele não terminou.
O canto do olho pegou um brilho mais vivo perto da porta.
Kaertien Dorbeos estava no chão.
A túnica bem cortada agora era só tecido pesado grudado no corpo. A garganta estava aberta, a linha escura ainda brilhando de úmido. O sangue descia em fio, devagar.
Marco deu mais dois passos e travou de novo.
E então ele viu os três.
O Coronel Von Smet estava de pé ao lado do corpo. Ao lado dele, dois jovens, gêmeos, com a mesma altura e o mesmo olhar gelado. Dephredo e Phaedra, parados em guarda, um pouco atrás.
Von Smet estava com algo na mão. Uma correntinha fina pendia entre os dedos. O coronel ergueu a cabeça.
O olhar prendeu na armadura laranja. Ele demorou um segundo a mais antes de se mexer. A correntinha sumiu no bolso num gesto limpo.
Von Smet se ergueu.
— Ora ora. Nosso herói ainda está vivo.
Dephredo inclinou o corpo para a frente, um meio passo.
— O céu cuspiu você de volta.
Phaedra completou sem mudar o tom.
— Deve ser irritante pros inimigos.
Marco não entrou no jogo. Ele caminhou devagar, olhando os mortos, o sangue no piso, Hogge caído. A espada na mão parecia inútil ali.
— Onde está Asora?
Von Smet ergueu as sobrancelhas como se degustasse o nome.
— Esse é o nome da mulher que invadiu aqui?
Ele olhou de lado para Kaertien.
— Kaertien usou as últimas palavras para me dizer que ela entrou, tomou o Cetro de você e te lançou ao céu.
O olhar voltou para Marco.
— É bom ver que está bem.
Marco apertou o punho na empunhadura.
— Ela foi para onde?
Von Smet não respondeu. Deu um passo, depois outro.
Mudou o eixo do corpo; a mão achou a empunhadura, o metal raspou na bainha num som baixo, e Marco entendeu tarde demais: o coronel já avançava.
A lâmina veio de cima, reta, rápida, descendo para a linha de Marco.
O corpo de Marco tentou reagir, mas o braço não levantou, as pernas não abriram. O treino de Lou-reen surgiu, mas veio atrasado.
E então o golpe parou.
Metal bateu em metal. Um som seco estourou no pátio.
Marco sentiu uma presença nas costas, perto demais.
O infiltrado.
O mesmo que ele tinha deixado vivo minutos atrás, o rosto sujo, a arma de novo na mão, o braço esticado para cravar algo por trás do capacete.
Von Smet tinha interceptado a lâmina dele com a própria espada.
O coronel girou o corpo e cortou a distância com um passo.
O segundo golpe veio sem enfeite. O infiltrado caiu como se as juntas tivessem perdido a função.
O pátio voltou ao silêncio, interrompido só pelo som distante da arena e pelo sangue que continuava escorrendo do Kaertien.
Marco ficou parado, tentando encaixar a cena na cabeça.
Ele… me salvou.
Marco olhou para Von Smet.
O coronel limpou a lâmina num pano preso ao cinto, já sujo de sangue fresco, como se aquilo fosse rotina.
— Você está andando por aí como um alvo iluminado.
Phaedra fez um som de desprezo e Dephredo bateu a ponta da bota numa poça seca, só para provocar o barulho.
Marco engoliu a sensação de dívida e falou o que importava.
— Obrigado.
Ele apontou com a espada, sem ameaça, só direção.
— Eu preciso ir atrás do Cetro.
Von Smet soltou uma risada baixa, sem calor.
— Por quê?
Ele abriu os braços um pouco, mostrando o pátio e os mortos.
— Isso aqui não é a sua terra natal.
Marco sentiu o nome “terra” bater em outro lugar. Uma imagem rápida da Terra de verdade, azul, distante, impossível. A saudade tentou entrar, ele fechou a porta.
— Mesmo assim. É o certo a se fazer.
Dephredo riu como se tivesse ouvido uma criança pedindo permissão.
— O certo.
Phaedra inclinou a cabeça, avaliando Marco como se ele fosse um objeto defeituoso.
— Ele ainda acredita nisso.
Marco não respondeu. Ele já tinha aprendido que palavras gastas viravam munição na mão dos outros.
Von Smet se virou para a saída por onde Marco tinha vindo.
— Boa sorte, Marco.
Ele deu dois passos e parou.
— E mais atenção pelo caminho.
Os gêmeos foram junto, um de cada lado, guarda fechada, postura alinhada com a do pai. Em poucos instantes, os três sumiram no corredor.
Marco ficou sozinho no pátio murado.
O sangue de Kaertien continuava a descer, teimoso, como se o corpo ainda tentasse dizer algo que ninguém queria ouvir.
Marco olhou para a porta reforçada. Olhou para os corredores. Olhou para o céu recortado no alto, cinza-azulado, indiferente.
Asora. Pra quê ela quer o cetro?
Não havia pegadas claras, não havia trilha limpa. Só caos.

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