Capítulo 082 — Eu não sou ele.
O topo da torre estava frio, exposto. O parapeito quebrado deixava entrar fumaça do pátio e um ruído distante de aço e gritos. O piso de pedra tinha rachaduras abertas e riscos de metal onde lâminas tinham raspado com pressa.
O Cetro estava preso numa dessas fendas, deitado de lado, imóvel.
Asora foi até ele. As duas lâminas seguiam com ela por hábito; ela se inclinou, encostou o joelho na pedra e estendeu a mão para a madeira escura.
A vibração pegou antes do toque.
Foi um pulso seco, direto, atravessando o ar e batendo na palma dela como aviso. Os dedos travaram suspensos a um palmo do cabo. A pele do braço dela arrepiou sob a manga.
Ela virou o rosto.
Marco ainda estava no chão, onde tinha caído. A placa do peito do traje estava deformada na linha do golpe. O visor estava sujo e opaco, sem reflexo nítido. O corpo dele não devia responder.
Mas algo respondeu por ele.
A escuridão surgiu do peito, primeiro como um fio fino, depois como uma onda que ganhou o corpo. Avançou densa, pulsando, e correu pelas juntas do traje. Entrou sob as placas e apagou o laranja por dentro, ocupando espaço com um brilho escuro que não vinha de luz nenhuma.
O mundo deu um passo pra trás dentro da cabeça dele.
A torre sumiu.
A mão que ele via na frente não era a dele.
Era uma mão com sujeira de fuligem no nó dos dedos, segurando o Cetro por instinto, firme, sem tremor. Madeira viva na pegada, pesada de um jeito que não era só peso físico. O ar tinha cheiro de carne assando e fumaça contida.
Malrath, à noite.
A fogueira ficava baixa de propósito. Brasa presa num círculo de pedra rachada, sem chama alta, sem estalo chamando longe. Um espeto atravessava tiras grossas de carne e repousava em duas pedras mais altas. Gordura pingava na brasa e chiava abafado; a fumaça subia pouco e sumia na escuridão.
Do outro lado do fogo, estava Asora. Mesma postura pronta, mesmo olhar varrendo o escuro além da brasa, voltando pro perímetro e parando um instante no Cetro antes de seguir de novo. As duas adagas ficavam alinhadas nas coxas, como se fizessem parte do corpo.
Marco sentiu o próprio peito apertar com a estranheza do que via.
“Isso não é meu.”
A sensação veio, mas não mudou nada na cena. A boca abriu e a voz saiu no ritmo de quem já tinha dito aquilo mil vezes.
— Você é rápida.
Asora ergueu o olhar. Ela sorriu, mais provocação do que alegria.
— É o que mantém meu pescoço no lugar.
A resposta dela não mudou o olhar de quem segurava o Cetro. A mão pegou um graveto, puxou o espeto um pouco pro lado e girou a carne devagar pra pegar calor por igual, como se aquele detalhe merecesse o mesmo controle que uma guerra.
— Mas gasta energia demais pra resultado de menos.
Asora inclinou a cabeça, como se aquilo fosse só implicância, mas os dedos apertaram o cabo da adaga no mesmo instante.
— Tá me avaliando agora?
O tom do outro lado continuou plano, firme, sem pedido.
— Isso não é falta de habilidade. É falta de direção.
O sorriso dela falhou no meio. A mão foi até a adaga por reflexo, não pra sacar, só pra firmar alguma coisa. Ela encarou, esperando o resto, e o resto veio no lugar certo, sem romantizar.
— Uma flecha sem direção é uma flecha desperdiçada.
A brasa estalou baixo. O espeto chiou de novo. A noite seguiu quieta.
— Então eu sou o quê? Um desperdício caro?
A resposta saiu como decisão pronta, de um jeito que Marco reconhecia como ordem antes mesmo de entender.
— Eu vou te dar direção.
A fogueira continuou baixa. A fumaça continuou sumindo. O Cetro continuou firme na mão.
— Você vai ser a minha flecha precisa.
A visão quebrou de volta.
O corpo no chão se ergueu num movimento só. A escuridão já estava lá, ocupando o peito do traje e as juntas, apagando o laranja por baixo. Ela pulsou e se espalhou pela superfície como uma camada viva, sem cair, sem escorrer.
Asora não esperou.
Ela entrou pra finalizar rápido, lâmina no visor primeiro, depois na junta. O aço veio com linha reta, decidido.
A escuridão respondeu.
Ela saltou do peito e tomou o antebraço do traje numa faixa grossa, endurecida. A primeira lâmina bateu e foi jogada pro lado, desviada por aquela massa escura que não tinha metal nenhum. A segunda tentou achar a articulação; a sombra se estendeu e prendeu o pulso dela, apertando o bastante pra travar o golpe no meio do caminho.
Asora puxou o braço de volta.
O corpo do Marco avançou meio passo e girou, usando a própria tração da Asora contra ela. A sombra acompanhou, enrolada no braço dela, e puxou mais uma vez, quebrando a base.
Asora forçou o corte com o ombro e conseguiu soltar. Recuou um palmo e veio de novo, agora mirando o pescoço.
A escuridão subiu pelo ombro do traje e formou outra camada na linha do golpe. O aço raspou e não entrou. A sombra bateu de volta, seca, empurrando o antebraço dela pra fora.
O visor do traje apontou direto pra ela.
— Minha flecha precisa.
Asora travou por um instante. A lâmina ficou no meio do caminho, sem descer e sem voltar.
A sombra ainda prendia o pulso dela, firme; acompanhava cada microajuste, puxando de volta antes de virar movimento. O corpo do traje avançou meio passo e parou perto demais.
A mão do traje subiu.
Asora tentou cortar o que vinha. O cotovelo girou, a adaga buscou a linha do punho. A sombra interceptou antes do aço encostar. Ela cresceu numa faixa na frente do antebraço e bateu na lâmina, desviando o golpe pra fora. A outra mão dela tentou sacar a segunda adaga. Os dedos fecharam e pararam, como se a própria articulação tivesse ficado pesada.
A palma do traje encostou no rosto dela, firme na linha do maxilar, e levantou o queixo um pouco.
A voz saiu do capacete com uma falha mínima na primeira palavra, como coisa atravessando garganta estreita.
— Eu… não sou ele. Mas eu entendo o propósito que ele te deu.
Asora não respondeu. A pressão no maxilar dela aumentou. O polegar do traje pressionou perto da orelha, prendendo a cabeça no lugar.
A escuridão no peito explodiu.
Chamas negras arrebentaram pra fora e tomaram o topo da torre de uma vez, varrendo pedra, rachadura e parapeito. Asora desapareceu dentro disso, o corpo engolido no instante em que tentou reagir.

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