Capítulo 083 — Esse calor… essa raiva…
As casas do pátio externo estavam abertas por dentro, teto faltando, paredes partidas em ângulos que não pertenciam a construção nenhuma. Um arco de pedra tinha virado metade arco; o resto tinha caído no chão e sido esmagado de novo por algo passando por cima. Em alguns pontos, a terra nem era terra: era um prato raso de rocha exposta, estilhaçada, com marcas longas onde metal tinha raspado e arrancado faíscas.
O som vinha atrasado.
Primeiro, a poeira tremia. Depois, o impacto chegava, grosso, como se alguém tivesse batido uma placa de aço do tamanho de uma casa. Então vinha o resto: telha caindo, madeira reclamando, pedra descascando.
Lou-reen apareceu no meio do pátio como uma falha no ar.
Um instante atrás ela não estava ali. No seguinte, a lâmina dela cruzou a linha do peito de Serana; a garra entrou por dentro e interceptou. Metal raspou nas trevas, e o ar estourou em volta.
Um bloco de muro, já rachado, cedeu inteiro e caiu em câmera lenta, tarde demais pra importar.
Serana sustentou o choque sem mover o pé. As garras negras estavam abertas na frente dela, uma em cima, outra embaixo, segurando a lâmina no meio do caminho. A pressão do encontro fez a pedra abaixo delas abrir um círculo de fissuras e cuspir pedrinhas pra todos os lados.
Lou-reen forçou mais.
O choque subiu pelo braço e fez a mão vibrar na empunhadura. O ombro travou um instante. Ela afundou o quadril e empurrou. A bota de Serana riscou o chão e o corpo dela foi obrigado a recuar um palmo.
Foi pouco, mas era tudo o que ela precisava.
Lou-reen não deu espaço pra reorganizar. Sumiu de novo. A espada passou por baixo, mirando a base. Serana interceptou com a garra de cima e desviou a trajetória no último segundo. A ponta riscou o piso e a pedra explodiu em lascas.
Uma cratera abriu onde a lâmina tocou, redonda, funda o suficiente pra engolir um tornozelo. O ar estourou e empurrou os detritos pra fora como chuva pesada.
Lou-reen já estava em outro lugar quando os pedaços começaram a cair.
Ela apareceu à direita, de lado. A espada já vinha na linha da costela. Serana respondeu com a garra esquerda e cortou o espaço antes do aço chegar. O choque aconteceu no ar, a meio metro do rosto de Lou-reen, e as duas foram jogadas pra trás.
A parede atrás delas desabou de uma vez e a poeira fechou tudo. Um choque atravessou a nuvem, depois outro, e o ar estourou no atraso. Quando a visão voltou, havia um sulco aberto na pedra e um telhado arrancado pela metade.
Lou-reen pousou com o pé esquerdo na beirada do telhado e o direito no nada por um instante. A correção veio tarde; o joelho cedeu um dedo. Ela jogou o peso pro outro lado e arrancou a sola da telha antes de escorregar. Serana já estava em cima dela.
Garras tocaram o metal da espada e deslizaram, tentando prender. Lou-reen girou o punho e cortou por fora, fugindo do encaixe. A lâmina passou a dois dedos do rosto de Serana e levou um tufo de poeira do ar.
Serana avançou mesmo assim, sem se importar com a proximidade. Um golpe de garra raspou o peito da armadura de Lou-reen e arrancou faíscas.
Lou-reen bateu com a guarda no antebraço de Serana e empurrou, tentando tirar a mão da linha. Serana segurou. A outra garra veio por baixo e rasgou a base do telhado. A madeira estalou, a fileira de telhas cedeu, e o piso abriu sob as duas.
As duas afundaram com o telhado. Se encontraram de novo.
Metal contra trevas, trevas contra metal.
O ar estourou em ondas, empurrando fumaça e poeira em círculos. Um estandarte queimado, preso num poste torto, foi arrancado e rodopiou até sumir no alto. Um pedaço de janela, ainda com vidro, estourou no atraso do som.
Serana deu um passo pra trás e parou.
— A princesa tá cansando.
Lou-reen não respondeu de imediato. O peito dela subiu e desceu com peso. A mão na empunhadura apertou um pouco mais, ajustando a firmeza sem mudar o ângulo.
— Ainda dá pra te matar aqui.
Serana deixou uma risada escapar pelo nariz e avançou. A pressão no pátio mudou antes do golpe chegar.
As duas travaram. A espada de Lou-reen ficou suspensa na guarda. As garras de Serana ficaram abertas, paradas. O ar comprimiu o pátio em silêncio pesado, uniforme, e o som do aço morreu.
Lá em cima, no topo de uma torre da fortaleza, chamas negras explodiram pra fora e tomaram tudo de uma vez.
Serana se virou, o coração acelerado por uma esperança inesperada.
— Clyve…?
Ela sorriu. Um sorriso largo, ofegante, quase eufórico.
— É ele, não é? — sua voz saiu rouca. — Esse calor… essa raiva…
Ela ergueu as mãos e absorveu parte da vibração no ar, como se sentisse o gosto do momento.
— Clyve…! Você está aqui!
Lou-reen franziu o cenho.
— Clyve morreu…
Mas Serana riu. Um riso cortante, embriagado.
— Morreu? Não, não… Essa energia só pode ser dele. Eu reconheceria no meio de mil batalhas.
Ela girou para Lou-reen, empolgada, selvagem.
— Eu ia brincar com você, mas agora, eu preciso acabar com isso rápido. Ele pode estar me observando.
Nareth surgiu na lateral do pátio, passou por cima do entulho e não entrou na linha das duas. A mão dele já veio no movimento. A bainha longa rodou no ar. A Espada da Chama Eterna atravessou o pátio reta, vindo na direção de Serana.
Ela estendeu a mão esquerda e pegou no ar sem olhar por mais de um instante. Lou-reen sentiu o peso daquela arma entrar na cena e o estômago apertou.
Serana pegou a bainha na diagonal e sentiu o peso. O olhar dela subiu pra torre em chamas de trevas por meio segundo. Depois voltou pra Lou-reen.
— Obrigada.
Serana puxou a lâmina pra fora e a reação foi imediata.
Chamas intensas tomaram a extensão do metal em um único sopro, como se a espada tivesse acordado com fome. A onda de calor varreu o pátio e fez o ar queimar por um instante.
Lou-reen sentiu a essência do pátio mudando de direção. A pressão do lugar cedeu e correu pra lâmina em um fluxo contínuo, puxada como por um dreno. A pedra sob os pés pareceu mais leve, como se tivesse perdido parte do que sustentava o mundo. As chamas engrossaram junto, ganhando volume na mesma batida, sem espalhar; o fogo se alimentava do que o pátio entregava.
Então o Bracelete de Solun acendeu.
Parte das chamas da lâmina se curvou pro pulso de Serana e foi engolida pelo metal em fios finos, sumindo no contato. A Espada da Chama Eterna continuou acesa, constante, enquanto o bracelete drenava uma fração do fogo e devolvia isso por dentro do corpo dela.
Veias acenderam sob a pele e pulsaram em linhas vivas. A luz correu do pulso pro antebraço e se espalhou pelo peito em fios irregulares, acendendo e apagando no ritmo do sangue. As pupilas ficaram estreitas, presas num foco só.
— Eu não tenho mais tempo pra você.
Lou-reen cravou o olhar em Serana sem piscar, buscando qualquer microfalha que denunciasse o avanço. Serana ficou imóvel um instante a mais do que devia.
O primeiro aviso foi o calor abrindo no ventre, por dentro da placa: a Espada da Chama Eterna já estava entrando.

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