Capítulo 084 — É isso que eu chamo de diversão.
— Como vai ser?
Hamita avançou, a sola raspando areia entre as placas rachadas.
— Um de cada vez… ou vocês todos juntos?
Ao redor, os três que restavam em pé mantinham distância e giravam ao redor de Hamita, apertando o cerco.
Löerg segurava o florete alto, ponta estável, sem definir onde acertar primeiro. Cedric deixava as duas espadas baixas e girava as lâminas na mão, impaciente, como quem já contava o tempo. Pátkos estava com o tronco projetado, pés bem plantados, mãos abertas à frente do peito; os dedos fechavam e abriam devagar.
Löerg soltou:
— Agora.
Pátkos desapareceu de onde estava.
Hamita também.
Os dois surgiram no meio do caminho entre eles, já com os braços estendidos. Punho contra punho se chocaram em pleno ar. O choque estourou seco e empurrou a poeira do chão e a que ainda caía das juntas de pedra. Cascalho pulou das rachaduras.
Hamita permaneceu no lugar.
Pátkos foi jogado pra trás pela força do golpe dela. O calcanhar dele raspou pedra, abriu um risco na areia, e o corpo recuou dois passos até firmar. O rosto dele endureceu, como se o impacto tivesse tirado o controle por um batimento.
Duas lâminas surgiram no flanco, assobiando no ar.
Cedric já tinha entrado. Hamita sacou as duas lâminas no mesmo movimento e travou os dois cortes ao mesmo tempo. Metal estalou.
Ela empurrou.
As duas lâminas de Cedric foram desviadas com força, e ele teve que recuar meio passo pra não cair por cima do próprio ataque.
Hamita riu.
— É isso que eu chamo de diversão.
A ponta do florete veio logo depois.
Löerg estocou uma vez. Hamita saiu meio palmo, só o bastante para desviar. A segunda veio na linha do peito; ela virou o quadril e deixou passar. A terceira buscou costela; ela baixou o ombro e a ponta encontrou apenas ar. A quarta veio alta, insistente; Hamita girou o corpo e a lâmina riscou o espaço onde o rosto dela tinha estado.
Ela devolveu com um corte descendente e Löerg pulou pra trás pra não ser partido ao meio. A distância abriu num instante.
Pátkos surgiu em cima de Hamita.
A sombra dele cobriu o chão por um instante. Os dois braços vieram juntos, descendo como bigorna, direto na cabeça. Hamita levantou a perna e a bota entrou no meio do peito dele com um estalo seco.
—ISSO É TAERIS.
Pátkos saiu do chão. O corpo atravessou a linha quebrada da arena e desapareceu de novo nos escombros, levando poeira e pedaços de pedra no caminho.
Cedric ficou um batimento parado, as duas espadas ainda baixas. Os olhos dele desviaram por um instante, seguindo o colega voando.
Foi o suficiente.
Hamita já estava em cima dele.
As duas lâminas dela subiram como tesoura. Cedric trouxe as dele no reflexo, e o espaço entre os dois virou metal e faísca. Um golpe, outro, outro; o som virou uma sequência seca de impactos curtos, sem tempo pra respiro.
Cedric tentou impor ritmo. Hamita não deixou.
Ela entrou por dentro do primeiro parry, forçou a mão dele pro lado e cortou baixo. Cedric tirou a perna, sentiu o ar passar perto da canela, e respondeu com a lâmina da esquerda buscando o flanco.
Hamita já tinha recuado meio palmo e trocado ângulo. A espada dela encontrou a de Cedric no meio do caminho e empurrou com o antebraço inteiro por trás. Cedric cedeu um passo, só pra não perder a base.
Löerg tentou aproveitar.
A ponta do florete apareceu por trás do ombro de Hamita, reta, sem aviso, mirando a costela.
Hamita não precisou olhar.
A lâmina dela subiu de lado e pegou o florete no caminho, desviando a estocada pra fora. O metal vibrou, e a ponta passou onde não tinha carne. No mesmo movimento, ela voltou pro Cedric e fez a dupla dele trabalhar de verdade, sem tempo de se organizar.
Cedric tentou trocar alcance por velocidade. A espada da direita dele entrou em corte horizontal; Hamita respondeu com uma travada alta, girou o punho e bateu a lâmina dele pra baixo. A segunda espada dela já vinha descendo, e Cedric precisou recuar mais um passo pra não levar o corte no ombro.
Hamita riu no meio do barulho.
Pátkos já tinha voltado.
Ele surgiu do lado oposto, avançando com raiva, cascalho grudado no uniforme, o corpo inteiro pesado demais pra ignorar. Löerg rondava por fora, florete alto de novo, esperando o primeiro erro. Cedric reajustou a base e tentou fechar junto.
Hamita não escolheu um.
Ela bateu o pé no chão.
A arena inteira respondeu com um estalo grosso. A placa rachada cedeu em pedaços menores, rocha quebrando em lascas e blocos, e a areia afundou de uma vez. O desequilíbrio pegou os três no mesmo instante: Cedric perdeu meio passo, Löerg precisou abrir a perna pra não cair, e Pátkos, no avanço, sentiu o chão fugir sob o peso.
Hamita abriu a boca, a voz saindo firme, quase didática.
— Manipulação de Rochas…
O ar mudou.
A poeira que ainda estava suspensa hesitou, como se tivesse encontrado uma parede invisível. O som da arena pareceu ficou distante, engolido como se alguém tivesse abafado com pano. As lâminas ficaram pesadas na mão.
Os quatro travaram.
Uma pressão sombria ocupou tudo, como algo enorme respirando em cima da fortaleza.
Chamas negras explodiram no topo de uma torre e engoliram o contorno como se a pedra tivesse virado combustível. O calor chegou atrasado, numa onda que varreu a arena e queimou o ar por um instante. O som veio por baixo, grosso, como uma placa de aço do tamanho de uma casa batendo no chão.
Löerg virou o rosto pro céu primeiro.
A expressão dele esticou num sorriso que parecia errado naquele lugar.
Cedric e Pátkos seguiram o olhar.
— Mestre…
Pátkos mostrou os dentes, a voz vindo mais baixa, satisfeita.
— Ele voltou.
Hamita ainda sorria. Não tirou os olhos deles.
— Ótimo. Mais um pra eu esmagar.
Os três voltaram pra ela na mesma hora.
Löerg foi o primeiro a se mexer. A ponta do florete desceu e cortou o espaço à frente, reta, direta, marcando caminho pro resto. Cedric entrou pelo flanco, duas lâminas preparando o corte cruzado. Pátkos veio por trás da poeira, pesado, com o corpo inteiro indo junto.
Hamita girou os pulsos e o chão respondeu.
Dezenas de estacas de rocha levantaram de uma vez entre as rachaduras, grossas, irregulares, subindo na frente dos pés e na linha dos golpes. Pedra raspou pedra, cascalho voou. O ataque dos Multiplicadores travou em ângulos ruins: Löerg precisou puxar a estocada pra não enfiar o florete numa ponta de pedra; Cedric bateu uma lâmina numa estaca e perdeu a sequência; Pátkos pisou num bloco que cedeu e o peso dele derrapou meio passo.
Hamita aproveitou a brecha.
Ela baixou o corpo e avançou, sorriso aberto, duas lâminas à frente, abrindo caminho entre as estacas.
O ar rasgou atrás dela.
Duas lanças de trevas vieram de fora da arena e acertaram as costas de Hamita no mesmo instante. O corpo dela tropeçou pra frente, um passo errado, a ponta de uma espada arranhando pedra pra não cair. Ela cravou a bota, segurou o equilíbrio no limite, e virou o rosto por cima do ombro, procurando origem. A raiva subiu no rosto dela antes da dor.
Ela gritou, a voz estourando na arena:
— Seu ladrão desgraçadoooo!

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