Índice de Capítulo

    Serana se mexeu.

    O corpo tentou levantar e falhou no primeiro impulso, pesado demais, queimado demais. O braço direito pendia ao lado do tronco, carbonizado, a pele repuxada em placas escuras onde o Bracelete tinha aquecido por dentro. Os dedos daquela mão não fechavam; tremiam no limite de cair fora do próprio peso.

    O braço esquerdo subiu.

    Sombras escorreram pelo antebraço e se solidificaram na ponta da mão, formando garras densas, opacas. A atenção de Serana estava em Marco.

    Ele permanecia no chão, sem armadura, sem capacete, o tecido da roupa encharcado grudado no peito e nos braços. O Cetro estava preso à mão direita frouxa, o cabo encostado na pedra. A cabeça dele caía um pouco para o lado, boca semiaberta, respiração irregular.

    Hamita sentiu o deslocamento antes de ver.

    Ela encostou Lou-reen numa pedra caída, num ângulo protegido pela massa de uma arquibancada quebrada. O braço dela passou por baixo das costas da general e depois saiu devagar, como se tirar apoio rápido fosse outra agressão.

    A palma de Hamita ficou um instante na clavícula de Lou-reen.

    — Não se mexe.

    Lou-reen tentou erguer a mão e falhou no meio do caminho. O olhar dela ficou preso em Serana, seco, teimoso.

    Hamita virou o corpo e entrou na linha.

    Serana veio baixa, sem cerimônia. As garras do braço esquerdo miraram o pescoço de Marco, o ponto mais vulnerável agora que não havia estrutura para oferecer resistência.

    Hamita interceptou.

    O antebraço dela bateu na linha do ataque, osso contra sombra endurecida. O choque vibrou pelo braço, uma dor querendo subir até o ombro. Hamita segurou e empurrou, tirando Serana de perto do Marco.

    Serana não recuou. Ela girou no chão e tentou de novo, insistente, como se a general na frente dela fosse só um obstáculo a mais.

    Hamita desceu com o peso junto, joelho flexionado, mão aberta, a outra já buscando o pulso esquerdo de Serana para negar a garra. O contato foi pegajoso; a sombra não tinha textura de metal, mas resistia como metal.

    Serana respondeu com o ombro. Ela bateu o corpo contra Hamita, tentando deslocar e abrir espaço para o pescoço de Marco.

    Hamita fincou o pé na pedra e segurou o deslocamento. A mão dela foi ao rosto de Serana em golpe de mão aberta. A cabeça de Serana saiu da linha e voltou no mesmo instante, dentes expostos, olhos fixos no chão onde Marco estava.

    O sacrifício dela estava em andamento.

    Cedric empurrou o chão e levantou no meio da poeira, a coluna gritando. Ele arrancou caminho entre os escombros. A espada de uma mão desceu na diagonal para abrir entulho; a outra lâmina ficou pronta para punir quem tentasse encostar. Ele correu pela lateral da arena onde a destruição tinha criado uma boca de saída entre pedras e vigas.

    Löerg cortou para o lado oposto, florete baixo, passos leves, procurando a passagem estreita que ninguém escolheria por instinto.

    Aamerta viu os dois indo.

    Ela deslocou um pé para fechar o caminho de Cedric primeiro, porque era o mais pesado e o que mais quebrava terreno. O corpo dela começou a avançar.

    Pátkos se arrastou e se jogou no espaço como barreira viva. A mão dele foi no tornozelo de Aamerta para travar o passo e abrir o corredor por um segundo.

    Aamerta desceu o ombro no peito dele.

    O impacto estourou seco e colou Pátkos no chão. Poeira subiu e grudou no suor do rosto dele. Pátkos tentou responder com o recurso que tinha usado antes, corpo buscando aquele sumiço que virava reposicionamento.

    A perna estourada não obedecia.

    O joelho dobrou errado. A tentativa morreu ali e devolveu dor crua. O rosto de Pátkos contraiu, e ele engoliu o som, mandíbula travada.

    Grithin avançou dois passos.

    Ele estava ferido, mas estava consciente, e isso fazia diferença. A lâmina dele veio em linha, ponta próxima da garganta de Pátkos, desenhando uma fronteira.

    O pé de Grithin parou no quadril do Multiplicador.

    — Fica.

    Pátkos tentou virar o tronco para usar o braço como alavanca. Aamerta prendeu o punho dele e torceu para fora. Os dedos abriram no reflexo. A mão bateu no chão com raiva e poeira.

    Grithin ajustou a ponta da lâmina um dedo para acompanhar a garganta.

    Pátkos encarou os dois e tentou levantar de novo, usando só a perna boa. O corpo subiu um palmo e caiu quando a perna quebrada arrastou e roubou o equilíbrio.

    No centro da arena, Hamita ainda estava grudada em Serana.

    Ela tentou enfiar a garra por baixo do braço de Hamita, buscando o espaço pequeno entre o cotovelo e a costela.

    Hamita baixou junto. O joelho dela desceu no esterno de Serana e fixou o tronco no chão. A mão direita segurou o pulso da garra. A esquerda foi ao queixo, empurrando o rosto de Serana para longe de Marco.

    O Bracelete chiou, e o calor no pulso carbonizado de Serana subiu como febre interna. A fumaça fina engrossou.

    Serana respirou com raiva e olhou para Marco pelo canto do olho.

    — Você abriu a porta — a frase saiu arranhada, cuspindo poeira, e o olhar dela puxou para a lateral, para onde Cedric e Löerg tinham ido.

    Hamita não olhou para a fuga.

    Grithin viu Cedric e Löerg sumirem nas laterais e soltou o ar de um jeito controlado, sem desespero. Ele não tinha corpo para correr atrás.

    Aamerta manteve Pátkos travado e levantou o rosto por um instante para medir o centro. Hamita estava com Serana presa. Marco estava no chão, exposto.

    Lou-reen continuava encostada na pedra caída, olhos abertos, corpo falhando.

    O que restava de “vitória” na arena era isso.

    Cedric e Löerg alcançaram a passagem.

    Era uma boca irregular na estrutura da arquibancada, um rasgo onde pedra tinha cedido e deixado um corredor improvisado. O chão ali era inclinado e cheio de cascalho. Cedric desceu primeiro, forçando as botas a não escorregarem. Löerg veio atrás, leve, olhando para os lados, florete pronto para qualquer mão aparecer do escuro.

    Os dois aceleraram.

    E pararam.

    Um corpo ocupava a saída.

    O Imperador Ivoney Olaraeth estava no meio do caminho, sem camisa, manto pendendo de um ombro, detalhes laranja e dourados. O cabelo e a barba brancos marcavam a idade, mas o corpo não vinha com fraqueza. Peito largo, ombros cheios, braços grossos, músculos definidos mesmo sob poeira e luz dura. A postura era simples, pés plantados, mãos soltas, como se ele não precisasse se preparar para algo que já tinha decidido.

    Cedric apertou as duas espadas e ergueu as lâminas.

    Löerg levantou o florete um pouco, ponta alinhando no pescoço.

    Ivoney olhou para os dois como se estivesse avaliando uma falha mecânica.

    — Já vão, senhores?

    Cedric avançou primeiro.

    As duas espadas vieram em tesoura: uma subindo para ombro, outra descendo para costela. Ivoney entrou no golpe. O antebraço interceptou a lâmina de cima e segurou o choque sem que o metal entrasse na carne. A outra mão bateu no pulso que trazia a lâmina de baixo.

    A espada de baixo caiu com som de metal batendo pedra e rodando.

    Cedric tentou recuperar com a outra.

    Ivoney segurou o punho dele e torceu para o lado. A mão abriu antes da vontade. A segunda espada caiu, quicou e parou no cascalho.

    Löerg atacou a garganta.

    Ivoney inclinou o pescoço e segurou a lâmina pelo lado com a mão aberta. O metal vibrou, preso. Löerg puxou com tudo que tinha, mas o florete não saiu.

    Ivoney deu um passo à frente e bateu o ombro no peito de Löerg.

    Löerg bateu as costas na pedra e escorregou, o ar fugindo. O florete escapou dos dedos e caiu.

    Cedric tentou socar.

    Ivoney colocou o pé no peito dele e travou o corpo no chão.

    A voz do Imperador desceu no espaço sem esforço.

    — A festa ainda vai começar.

    Cedric rangeu os dentes, tentando levantar mesmo assim, mas o peito dele não atravessava o peso do pé.

    Löerg tentou recuperar o florete com a mão, e uma lâmina apareceu no ângulo, apontada para os dedos dele. Um soldado ocupava a lateral. Outro fechou a retaguarda.

    Löerg parou.

    Na arena, Hamita puxou Serana de pé pelo braço, ainda com o ombro travado. Serana vinha cambaleando, o Bracelete chiando, a boca insistindo num riso que não encontrava força.

    Aamerta puxou Pátkos. Ele mancava arrastando a perna estourada, cada tração roubando um pouco do rosto dele.

    Grithin veio ao lado, respirando duro, o corpo inteiro no limite, o olhar ainda técnico.

    Eles chegaram na saída improvisada e viram Cedric no chão, Löerg na parede, o Imperador no centro.

    A batalha tinha acabado.

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