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    A consciência voltou em pedaços.

    Primeiro veio o gosto amargo, colado na língua, um metal ruim que não saía nem com saliva. Depois, o peso no peito, a dor nas costelas comendo o ar por dentro, e um atraso teimoso entre querer mexer e o corpo obedecer. Luminor piscou. As pálpebras arranharam, secas.

    Estava escuro.

    Um escuro com bordas: uma faixa de luz fraca vazava por baixo de uma porta.

    A última memória veio como lâmina. Jardins com a soldado. O brilho das Olimpíadas acima, longe, e o som de passos que não combinavam com festa. Cinco sombras, um golpe que entrou entre as costelas e a sensação imediata de que algo dentro dele tinha sido desligado. Veneno. O corpo cedendo antes de entender.

    Ele tentou inspirar fundo e pagou por isso. A dor abriu, puxou o abdômen para dentro, e a coordenação falhou num espasmo que fez os ombros baterem no que havia atrás.

    O som dele entregou o resto. Corrente. Um elo raspou no chão e cantou baixo. Luminor virou o pescoço um pouco e viu o brilho opaco do ferro preso ao próprio pulso. O ponto de fixação estava cravado na parede: uma argola grossa, enterrada na pedra, com marcas antigas de uso.

    — …ótimo.

    A voz saiu arranhada, quase nada.

    Ele puxou o pulso mais uma vez, devagar, só para confirmar o óbvio. O cadeado aguentou. A corrente não tinha folga suficiente para ele levantar sem se aproximar da parede. O braço tremia no fim do movimento, mais pelo veneno do que pela força da trava.

    O segundo fôlego veio junto com a percepção de que não estava sozinho.

    No canto oposto, encostada numa parede, estava a soldado. O corpo dela ficava meio de lado, pernas dobradas, um braço preso alto demais por outra corrente. A cabeça caía para frente, o queixo quase no peito. Ela respirava devagar. Debilitada, mas viva.

    Luminor ficou um tempo só olhando, sem deixar o corpo denunciar pressa. O veneno continuava ali, atrás dos olhos, deixando tudo com um atraso irritante.

    — Ei.

    Nada.

    Ele puxou a corrente mais um pouco e esticou o alcance. Não chegava.

    “Então é isso.”

    Ele testou o ambiente sem levantar a cabeça.

    Porta única. Madeira grossa com reforço de ferro, pelo contorno. Tranca interna? Não dava para ver dali, mas a luz vazando por baixo sugeria corredor iluminado por tochas ou lamparinas. A pedra do chão era lisa demais para ser depósito de tropa. Não tinha cheiro de cozinha, não tinha fumaça. Também não tinha marcas de bandeira, tecido, brasão. Nada que entregasse quem era o dono do lugar.

    Ele virou o rosto para a porta e ficou imóvel, buscando o eco das Olimpíadas: vozes, metal, qualquer vibração de gente demais e o que veio foi só a faixa de luz por baixo e o vazio de som do outro lado; se ainda estava na Fortaleza Ga-el, aquilo já tinha seguido sem ele, e não por minutos.

    O ponto de fixação da corrente era antigo. A argola tinha desgaste, como se aquilo já tivesse segurado gente outras vezes.

    “Uma sala feita para sumir com alguém.”

    Ele passou a língua pelos dentes. O gosto amargo confirmou o veneno. Havia sangue seco no canto da boca; a roupa no torso estava rígida, endurecida onde tinha manchado e secado. A costela doía como se alguém tivesse deixado uma cunha ali.

    E, mesmo assim, ele estava acordado.

    Ouviu passos.

    Luminor deixou os olhos fecharem de novo. Ajustou a respiração para parecer falha. Deixou o corpo “mole” contra a parede, a cabeça pendendo num ângulo pouco digno.

    A porta abriu só o suficiente para alguém passar sem fazer barulho demais. Dois guardas entraram armados.

    Vestiam o uniforme azul de Taeris, couro e placa no corte certo, mas a fala entregava outra coisa. O sotaque vinha de fora, pesado, arrastado, lembrando Malrath. Um deles parou colado na porta, meio virado para o corredor, mão no cabo da arma como se esperasse problema. O outro avançou dois passos, os olhos indo direto para Luminor.

    — Ainda nada.

    O da porta nem virou o rosto.

    — Tempo demais sem ordem. Tempo demais. Nenhuma troca. Nenhum recado.

    O que tinha vindo checar soltou um som baixo, sem riso.

    — Se era pra sumir com ele, era pra sumir direito.

    Ele se aproximou mais, cauteloso, e inclinou o tronco. O metal da arma bateu no cinto. A mão livre veio para o pulso de Luminor, do lado da corrente, para sentir o batimento.

    Luminor manteve a respiração falha. Deixou um tremor “fraco” no braço. Deixou o veneno ajudar.

    O guarda apertou os dedos no ponto certo, procurando ritmo.

    — Tá vivo.

    — Claro que tá vivo. Era a ordem.

    O da porta deu meio passo para dentro, mas não largou o corredor. Os olhos dele iam e voltavam para a fresta externa.

    — Não dá pra ficar aqui mais. Se alguém…

    — Ninguém vem. Isso aqui é…

    Ele cortou a própria frase.

    O guarda ajoelhado encostou um pouco mais. Os dedos subiram, conferindo respiração pelo peito, e a cabeça dele veio para perto demais.

    Luminor explodiu no espaço mínimo.

    O braço livre saiu primeiro, puxando a corrente para ganhar tração. O ombro rodou junto, usando o próprio limite do ferro como alavanca. A testa dele avançou e acertou o rosto do guarda com um impacto seco, sem “preparação”, sem anúncio. O homem tentou reagir, mas o corpo já estava desequilibrado, joelho no chão, cabeça jogada para trás.

    Luminor colou.

    A mão que estava presa pela corrente encaixou no pescoço do guarda e travou a garganta. O outro braço, o livre, arrancou a arma curta do cinto do homem num puxão direto.

    O guarda tentou gritar. Luminor enfiou a lâmina na garganta do guarda e o som morreu ali.

    O corpo do homem cedeu em segundos, peso inteiro indo para o lado. Luminor segurou só o suficiente para o impacto no chão não denunciar. Deixou o homem escorregar e bater a lateral do ombro na pedra, baixo.

    O da porta só entendeu quando ouviu o som errado.

    Ele recuou para o corredor, a arma já subindo.

    — Merda—

    Luminor foi atrás antes da palavra crescer.

    A corrente limitava. Ele usou isso. Jogou o corpo para a frente até o limite do metal, e, quando o ferro esticou e quis puxá-lo de volta, ele girou para o lado e deixou a corrente cortar o ar como chicote. O elo pegou no antebraço do guarda e desviou a arma

    O guarda recuou mais, tentando voltar para o corredor.

    Luminor entrou na linha dele e empurrou com o ombro. O homem bateu de costas na parede do lado de fora da porta, a própria entrada virando gargalo. Luminor cravou a mão no tecido do peito, travando-o ali, e a lâmina curta encontrou um espaço baixo, entre costela e couro, num golpe que não precisava ser bonito para funcionar.

    Luminor segurou até o corpo perder força. Depois soltou.

    A arma do segundo guarda caiu e ficou no corredor, apontada para ninguém.

    Por um instante, só existiu o som do próprio sangue batendo nos ouvidos e o gosto amargo do veneno tentando lembrar que ele ainda não tinha vencido nada.

    Ele se virou pro guarda ajoelhado e meteu a mão no cinto. Achou a argola, puxou, separou a peça no tato. Achou uma chave.

    Ele fechou os dedos em torno dela e foi até o cadeado do próprio pulso. A visão quis falhar por um segundo; ele forçou a mão a obedecer. A chave entrou. Girou. O clique pareceu alto demais no silêncio.

    A corrente caiu no chão com um som pesado.

    Luminor ficou de pé devagar, testando as pernas. A costela reclamou. O veneno atrasou um passo.

    O olhar foi para a soldado. Ela continuava no canto. Os olhos tinham aberto uma fresta, confusos. A boca dela se mexeu sem som.

    Luminor atravessou o cômodo com pressa controlada e ajoelhou perto dela, mantendo a lâmina na mão.

    — Fica acordada.

    A frase saiu baixa, prática.

    Ele encaixou a chave no cadeado do pulso dela. A mão dele tremeu no segundo giro; ele xingou por dentro e terminou o movimento com força demais. O cadeado cedeu.

    A corrente caiu e puxou o braço dela para baixo. Ela quase foi junto, mas conseguiu segurar com a outra mão, instável.

    — Consegue ficar de pé?

    Ela assentiu com um movimento mínimo. Tentou levantar e precisou de apoio na parede, depois no próprio joelho. Luminor ofereceu o antebraço. Ela agarrou, e o aperto veio fraco, mas real.

    Ele pegou a arma do guarda do corredor e empurrou a porta com o pé, só o suficiente para olhar antes de sair.

    O corredor estava vazio.

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