Capítulo 091 — Pauta.
A porta pesada fechou com um som abafado e definitivo. O trinco encaixou e dois guardas ficaram do lado de fora, guardando o corredor sem conversa.
Ivoney já estava de pé quando o grupo terminou de entrar.
Lou-reen sentou à esquerda da mesa, mas não ergueu a cabeça. O olhar ficou preso na madeira, a mão descansando perto do joelho, fechada.
Koopus escolheu uma cadeira; sentou pesado, ombros baixos, o uniforme marcado de poeira. Grithin foi logo atrás e afundou no assento, cotovelos nos joelhos, olhar preso na mesa. Aamerta puxou a cadeira com um arrasto seco e sentou também, coluna reta, as mãos juntas sobre a madeira.
Hamita ficou perto demais da borda, mãos tensas, o olhar correndo pela sala como se ainda estivesse em combate.
Marco ficou um passo atrás de todos, por reflexo, e só sentou quando Ivoney apontou com o queixo para a cadeira vazia ao lado de Lou-reen. Kalamera sentou ao lado dele. As mangas largas dela caíam retas, sem volume, e a respiração vinha controlada demais.
— Tudo bem?
Ela não virou o corpo; só deslocou os olhos para ele.
— Vou me consertar.
Ivoney caminhou até a cabeceira sem pressa. O manto escuro caiu reto sobre as costas largas; o peito nu. Ele não gastou tempo com cerimônia.
— Marco.
O olhar ficou preso nele, duro, sem pressa.
— Você ficou aqui porque foi parte da solução. — o Imperador apontou com dois dedos. — Todos aqui viram isso.
Hamita apertou a mandíbula, uma linha dura no rosto, mas não contestou. Koopus nem piscou. Grithin levantou os olhos só o bastante para registrar a frase. Aamerta observou Marco do alto a baixo, como se a declaração tivesse sido uma lâmina passando perto.
Marco assentiu com um movimento pequeno. O corpo ainda carregava o peso do pátio, do grito da arena, do calor que tinha passado perto demais do limite.
Ivoney apoiou a mão na mesa.
— Pauta: a Forja foi golpe cirúrgico. Gorthen caiu. A Espada sumiu e voltou depois da queda de Serana. E eles atacaram a Arena à vista do Império inteiro.
A palma continuou apoiada, firme.
— E não foi um bando qualquer. — O olhar dele passou pelos cinco generais, parou em Lou-reen um instante, depois voltou pro centro. — Eles trouxeram guerreiros de elite. Gente capaz de encarar nossas maiores forças de frente… e sustentar. Como isso entrou aqui? Como isso parou dentro da nossa Arena?
Ninguém respondeu de primeira. Ivoney não esperou.
— Começamos pelo que é verificável. O que cada um enfrentou. Koopus.
O general levantou o olhar.
— Pátkos. Era rápido demais pros olhos acompanharem. Força absurda no punho. Quando eu acertei, foi como bater em rocha; meu machado não arranhou.
— Grithin.
— Löerg. Era muito bom no florete. Quando eu levei pro parque pra usar o terreno, ele começou a usar vento e me perfurou à distância.
— Aamerta.
Ela manteve a coluna reta. As mãos continuaram juntas sobre a mesa.
— Cedric. Começou medindo. Defendia no limite, sempre no mesmo ponto, como se esperasse meu erro. Quando eu tentei variar, ele abriu a segunda espada e fechou o espaço. Duas pontas na minha linha o tempo todo.
— Hamita.
Hamita inclinou a cadeira e pôs os pés sobre a mesa, sem pedir espaço.
— Auhra. Usava fogo branco nas mãos. O senhor viu. Nada demais. Ela bateu de frente com a muralha de Taeris.
O olhar de Ivoney parou em Lou-reen.
— Lou-reen.
Lou-reen ergueu a cabeça devagar. Os olhos não tinham brilho de vitória.
— Serana. Sombras viravam garras. Ela travou meu golpe no ar e respondeu no mesmo tempo, sem ceder um passo. Rápida demais.
O silêncio caiu na mesa por um instante, pesado.
Aamerta foi a primeira a quebrar.
— Eles sabiam. — a voz veio baixa, firme. — Não só eram fortes. Eles sabiam como a gente luta. Timing, ângulo, resposta. Como se já tivessem treinado em cima das nossas rotinas.
Lou-reen manteve o olhar na madeira mais um segundo antes de levantar de novo.
— Clyve ensinou pra eles.
— Imperador. O ferreiro Nareth me atacou no Distrito. E eu vi Hersperon. Ele apareceu com a Espada na mão e Nareth o chamou de “Mestre”. Mandou-o me largar como eu estava.
Kalamera deslocou o corpo na cadeira, só o suficiente para mostrar o ombro e a linha do pescoço.
— E falou o motivo: quem os contratou queria a Lou-reen fora de combate; por isso a Espada iria pra Multiplicadora que estava contra ela.
Koopus foi o primeiro a puxar o fio.
— Alguém bancou. — os dedos dele bateram uma vez na mesa, sem força. — Trazer cinco desse nível e enfiar dentro da Arena… isso custa. Equipamento, entrada, cobertura. Não foi improviso.
Grithin levantou o olhar, ainda com os cotovelos nos joelhos.
— E teve coordenação. — o foco dele ficou no meio da mesa. — Eles se separaram no tempo certo. Puxaram a gente pra longe do camarote e mantiveram pressão. Quem planejou sabia onde cada general ia estar.
Aamerta encostou o queixo na mão por um instante, olhos duros.
— E teve os roubos. — ela não apontou pra ninguém. — A Forja não sangrava assim sem alguém abrir passagem. A Arena não recebia cinco invasores sem alguém saber onde a vigilância falhava.
Hamita soltou uma risada sem humor, pés ainda na mesa.
— Então temos três coisas e nenhum nome. Ótimo.
Lou-reen mexeu o ombro, devagar.
— Quem quer que tenha contratado… não quis ganhar um duelo. Quis tirar a gente do tabuleiro. — a voz saiu baixa. — Me tirar.
O olhar do imperador passou por cada um, sem parar em ninguém tempo demais.
— Eu quero o formato da mão. — a voz não subiu. — Quem banca, quem abre e quem manda mover.
Aamerta assentiu uma vez, seca.
— E, se eles souberam da Espada… não foi sorte. Foi informação chegando no lugar certo.
Koopus encostou as costas na cadeira, pesado.
— Informação e acesso andam juntos.
Uma batida seca acertou a porta.
Cabeças viraram.
O soldado do lado de fora abriu e deu um passo para o lado, segurando a folha pesada com o ombro. A luz do corredor entrou em faixa.
Luminor apareceu apoiado no ombro de outro soldado. O rosto estava pálido demais, a roupa amassada, e a perna arrastava um pouco antes de achar o chão.
Ele olhou a mesa, um por um, e soltou a piada sem mudar o rosto.
— Relaxem. Eu só morri um pouco.

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