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    Luminor deu dois passos dentro da sala e a perna falhou no terceiro, mais por teimosia do corpo do que por falta de força. O soldado segurou firme e guiou até uma cadeira livre perto da ponta da mesa. Luminor puxou o assento com a sola da bota e caiu nele, costas batendo no encosto com um som seco.

    Aamerta inclinou o queixo.

    — Onde você esteve desde ontem?

    Koopus não levantou a voz, só jogou a pergunta por cima da mesa, sem enfeite.

    — Sumiu no meio do ataque. Apareceu agora.

    Grithin falou por último, baixo, como quem conferia uma lista.

    — Quem te encontrou?

    Luminor levantou a mão, pedindo um segundo, e apoiou o cotovelo na mesa. Os dedos tremiam pouco, o suficiente pra entregar que o veneno ainda tava no sangue. Ele olhou pra cada um, sem pressa, e a boca puxou um canto.

    — Quase morreram, né?

    Ninguém respondeu.

    Ele continuou, do mesmo jeito, como se a sala tivesse acabado de voltar de um treino leve.

    — Pelo visto não foi de saudade de mim.

    O soldado atrás dele deu um passo, desconfortável. Luminor fez um gesto de “tá tudo certo” sem nem olhar.

    — Agora… — ele bateu dois dedos na borda da mesa, mais fraco do que queria. — Alguém me dá água antes que eu apague de novo?

    O soldado puxou um cantil do cinto e estendeu. Luminor pegou com a mão trêmula, bebeu um gole, e devolveu sem agradecer. A língua passou pelos lábios, limpando o gosto.

    Luminor apoiou o antebraço na mesa, inclinando o tronco um pouco. A voz saiu mais baixa, sem piada.

    — Ontem à noite eu fui atacado. No escuro. — ele passou a mão pelo lado do tronco por cima do tecido, medindo o ponto onde o corpo ainda reclamava. — Eu já estava envenenado desde a festa. O golpe veio depois, só pra garantir que eu caísse de vez. Apaguei antes de terminar de cair.

    Luminor engoliu seco, a garganta ainda sentindo o gosto.

    — Eu acordei acorrentado. — o canto da boca tentou subir e não conseguiu. — Não era bem o tipo de gente que eu costumava deixar me prender.

    Ele levantou o rosto. O olhar parou em Ivoney, firme pela primeira vez desde que entrou.

    — Kaertien.

    O nome caiu e ninguém falou por um instante. Luminor não esperou reação.

    — Eu o reconheci. Ele estava lá no ataque. Falando com os caras que me prenderam. Mandante.

    A mesa ficou imóvel. Até Hamita tirou os pés do ar e encostou no chão sem fazer barulho. Lou-reen não piscou. Koopus parou de respirar por um segundo.

    Aamerta ficou rígida, a postura de ferro, só o olhar mudando.

    Ivoney não mexeu um músculo. O peito dele subia e descia lento, olhos fixos em Luminor.

    — Por quê? O que ele ganharia com isso?

    Koopus empurrou a cadeira um palmo pra frente, o peso do corpo indo junto.

    — Então manda buscar ele agora. Traz pra cá.

    Marco cortou.

    — Não dá.

    Os olhos viraram nele. Marco manteve a voz no mesmo nível.

    — Eu vi Kaertien depois que eu saí do camarote. Ele estava no chão. A garganta tinha sido cortada. Ele agonizava.

    Marco passou o olhar pela mesa, como quem encaixava a cena na ordem certa.

    — Tinha um coronel lá. Von Smet. Ele estava no meio da confusão, perto do corpo. Ele chegou antes de mim, com os gêmeos. E então foi embora.

    Ivoney deixou o silêncio ficar um segundo e falou baixo, pesado.

    — Então o mandante morreu. Que conveniente.

    Ele virou o rosto para a mesa, sem paciência para luto.

    — Se Kaertien não responde, quem responde são os que ainda respiram. Vamos interrogar os prisioneiros ainda hoje.

    Aamerta não acompanhou o fluxo pros calabouços. O olhar dela ficou em Marco. Ela bateu a ponta do dedo na mesa, uma vez, chamando o assunto sem pedir licença.

    — Antes. O que nós vimos na Arena.

    Marco não respondeu na hora. O pescoço dele ficou rígido.

    Aamerta manteve o olhar em Marco.

    — Aquilo era a presença do Clyve Zhakar, o Portador da Ruína. — a voz não subiu. — O Cetro te possuiu? O que foi aquilo?

    Marco falou sem levantar a cabeça, como se escolher a palavra errada fosse pior do que ficar quieto.

    — Memória. — ele ergueu os olhos, direto. — Coisa do Clyve presa no Cetro. Eu senti. Eu vi. Mas era eu que estava no controle.

    Aamerta não se satisfez.

    — Por enquanto.

    Ela inclinou o tronco um pouco, só o bastante pra pressionar.

    — Se isso sai de você… cai na mão errada… a gente acabou de ver o que cinco mercenários bem pagos conseguem fazer com informação. Imagina o Clyve de volta em campo.

    Ivoney entrou no meio antes que virasse discussão em cima de Marco.

    — Isso já foi decidido quando Clyve caiu. — a voz veio plana, fechando a linha. — Marco está sob proteção da Lou-reen. Está desde o primeiro dia.

    Aamerta não desviou.

    — Ela o protege. — os olhos voltaram pra Lou-reen. — Mas protege ele do que ele carrega? Nos protege?

    Lou-reen não mexeu a mão do joelho. O olhar ficou firme, seco, direto no meio da mesa.

    Aamerta terminou sem floreio, jogando a pergunta onde doía.

    — E se aquilo vira contra Taeris da próxima vez?

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