Capítulo 094 — Autorizada a começar.
A sala estava escura porque eles mantinham assim. Nenhuma tocha, nenhuma brasa. Só a janela alta, deixando entrar ar frio. Lá fora, a Fortaleza Ga-el seguia de pé, na mesma noite do ataque. Lanternas varriam as muralhas, ninguém patrulhava sozinho.
No centro da sala, duas sombras aguardavam.
Uma estava sentada. O manto cobria o tronco e escondia as mãos. A postura não mudava. A outra permanecia em pé ao lado, meio passo atrás, corpo alinhado, cabeça virada para a janela.
O barulho da fortaleza chegava fraco através da pedra.
A janela rangeu uma vez.
Uma terceira sombra entrou por ali, rápida e limpa, e desceu para o chão sem barulho. Ela avançou dois passos e se ajoelhou diante dos dois, capuz baixo, coluna reta. Não levantou o rosto.
O sentado mexeu um dedo no braço da cadeira, uma vez.
— Fala.
A voz veio feminina, controlada.
— Os Multiplicadores estão sendo interrogados. Todos confirmam que Kaertien foi o mandante. Ainda não sabem o motivo.
O sentado esperou o fim da frase, como se contasse o tempo entre as palavras.
— Bom. Que continuem assim.
O homem em pé seguiu olhando a janela.
— O que mais?
A mensageira não mexeu os joelhos. A cabeça subiu só o suficiente para mostrar o contorno da boca sob o capuz.
— A general seguirá protegendo o assassino do Clyve. O cetro ainda está ligado a ele.
O homem sentado respondeu sem levantar a voz.
— Não temos muito o que fazer quanto a isso.
Ele virou o rosto para a janela.
— Asora não pretendia nos entregar ele de qualquer forma.
A mensageira estalou a língua.
— Clyve confiou demais em alguém de fora. Alguém que ele conheceu no inverno passado.
O homem sentado ignorou o comentário. Virou o rosto para a sombra atrás dele.
— Onde está Hersperon?
A sombra em pé falou sem sair da posição.
— A caminho da Malrath, com o assistente. Vão forjar mais peças.
A mensageira esperou. O sentado virou o rosto para ela.
— Velunthar está autorizada a começar.
A sombra em pé chegou um palmo mais perto da cadeira.
— Tem certeza? Se começarem os testes de verdade lá, o Império vai perceber que alguém está agindo.
Ele segurou a frase seguinte por um segundo.
— Pessoas demais vão morrer.
O sentado não respondeu de imediato. Ele ficou parado, como se estivesse verificando o peso do custo e comparando com o ganho.
Por fim, falou baixo.
— Que percebam.
O homem em pé baixou o queixo um pouco, registrando a urgência.
O sentado virou a cabeça para a mensageira.
— Avise Velunthar. Diga a ela para começar os testes de verdade. Que comecem ainda esta noite.
A mensageira inclinou a cabeça uma vez. Ela subiu do chão sem ruído, virou para a janela e cruzou a sala no mesmo ritmo.
O homem em pé voltou à janela antes dela, só para conferir o lado de fora. Lanternas ainda se moviam nas muralhas. Duas sombras passaram na passarela, juntas, armas na mão. Depois o corredor acima ficou vazio por um momento.
A mensageira alcançou o parapeito, apoiou uma mão na pedra e saiu pela abertura com o corpo inteiro em um movimento só. O capuz sumiu no escuro do lado de fora.
O vento entrou mais forte por um instante e depois diminuiu.
***
A madrugada em Velunthar tinha pouco barulho. O vento passava entre as árvores baixas e batia nas casas de pedra sem força para apagar as tochas dos postes. A chama já estava fraca, mais vermelha do que amarela, e a luz não alcançava o meio da rua.
O soldado Lior caminhava com a capa fechada até o peito. Trinta e poucos anos, veterano de fronteira. A postura seguia reta por hábito, mesmo com o corpo pedindo pra ir para a cama. Ele conhecia patrulha noturna de verdade: trilha, lama, bicho, gente desesperada. Aquilo ali era interior. Velunthar costumava ser o tipo de lugar em que o maior problema era um bêbado caindo na valeta.
Só que naquela manhã a notícia chegou cedo pelo canal do Exército: inimigos tinham invadido Ga-el e as Olimpíadas foram interrompidas.
Velunthar ficava longe demais de Ga-el para alguém achar que um inimigo iria aparecer ali naquela mesma noite. Essa era a lógica que deixava a vila respirando.
Mesmo assim, a ordem veio.: patrulha noturna reforçada. Era vigilância, caso alguém tentasse usar o interior como caminho.
Lior não gostava de ordens que vinham assim, com buraco no meio. Ele preferia um alvo claro: bandido, fera, deserção. Ali ele tinha só rumor e preocupação.
Ele passou pela rua principal, conferindo portões. Olhou trancas, observou janelas fechadas, anotou mentalmente onde havia luz acesa além do normal.
Quando chegou na praça central, ele reduziu o passo. A praça tinha o poço, um banco de madeira torto, uma árvore velha com raízes levantando a pedra. Era o lugar mais aberto da vila, o mais fácil de enxergar… e o mais fácil de se sentir exposto. Ele deu a volta, devagar, olhando as ruas que desembocavam ali.
A história de Ga-el batia na nuca dele como um aviso. Se alguém teve coragem de entrar na fortaleza do Império, não era impossível alguém testar o interior, só porque era mais fraco.
Mais uma volta, mais um giro em torno do poço. Ele ouviu o próprio passo no chão de terra batida e o estalo seco de um graveto longe, perto da linha da floresta. Ignorou.
Depois veio outro som.
Um estalo leve. Próximo, atrás dele.
O corpo reagiu antes de pensar. Lior virou, mão na espada, puxando a lâmina pela metade.
— Fique onde está! — a voz saiu grave, sem enfeite. — Identifique-se.
No meio daquela penumbra, um vulto pequeno estava parado. Pequeno demais para ser um homem adulto. O cabelo era longo, e a lua pegou um brilho pálido ali, rápido, como metal.
Uma garota.
Ela não parecia com ameaça, e isso irritou Lior. A vila tinha crianças, tinha adolescentes. Mas ninguém andava na rua naquela hora, não com o Império em alerta e boatos correndo.
Ela avançou.
Lior puxou a espada inteira e cortou na diagonal para manter distância. A lâmina passou no vazio. A garota já tinha saído do arco antes do aço terminar o trajeto.
Ela avançou de novo, o punho dela brilhando de azul. Lior não entendeu o que era aquilo. Ele só viu a luz acender e, no mesmo instante, sentiu o impacto.
O punho acertou perto do ombro e o braço dele perdeu força por um segundo. A espada desceu um palmo. Ele recuou, tentando abrir espaço, e a garota acompanhou, sem perder distância.
Os dedos apertaram o cabo por reflexo, mas a força não voltou no tempo certo. A garota já tinha entrado de novo. O punho azul bateu mais perto do bíceps e o músculo endureceu como pedra; a mão abriu um dedo, depois outro, contra a vontade dele.
Ele tentou usar o corpo para empurrar e criar distância, mas ela ficou colada, fechando o espaço antes da espada ganhar arco.
Ela desceu o ataque para a perna. O punho acertou a coxa por fora, acima do joelho, e o joelho cedeu no mesmo instante. Lior tentou transferir o peso para a outra perna e recebeu outro golpe na panturrilha; o tornozelo travou e a base sumiu.
A espada escapou da mão dormente e caiu com a ponta para baixo, fincando no chão com um som seco. Lior tombou ao lado, tentando buscar a adaga no cinto, mas os dedos não fechavam. A garota se abaixou e encostou dois dedos no pescoço dele.
Lior perdeu a consciência.
Quando os primeiros moradores saíram pela manhã e acharam a estrada, viram a espada fincada na terra, perto da praça. Não havia sangue no chão, não havia arrasto de corpo. Só marcas de botas e, mais adiante, pegadas menores seguindo para fora da vila, em direção à linha das árvores.

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