Capítulo 096 — Solstício de inverno.
Marco subiu os últimos degraus com a perna pesada, ombro ardendo onde a manopla tinha batido. A nuca ainda lembrava a última correção da Lou-reen. Ele abriu a porta do observatório e o ar de dentro veio diferente do pátio.
O relógio de pêndulo marcava o tempo com a mesma indiferença de sempre. Tique. Toque. Tique. Toque.
Kalamera estava inclinada sobre o telescópio principal, as luvas escuras sujas de pó fino. Uma placa pequena de metal estava fora do lugar, apoiada numa bancada. Ela girou um parafuso, testou a resistência com a ponta do dedo e voltou ao alinhamento como se aquilo fosse uma conversa.
Num canto, um soldado registrava medidas numa tábua, carvão riscando linhas curtas e números retos. Ele olhou o mostrador do pêndulo, voltou ao papel, anotou mais um ponto. Nem levantou a cabeça até Marco fechar a porta.
Kalamera ergueu o queixo.
— Voltou.
Marco passou a mão pelo antebraço, como se limpasse poeira.
— Voltei.
— Ela quebrou você hoje?
— Ela me treinou.
O soldado finalmente olhou. Os olhos dele fizeram um percurso rápido: do corpo de Marco até o ombro, depois até o rosto. Parou no jeito como ele sustentava o peso do braço.
— Com licença… — a voz veio baixa, respeitosa, mas o espanto escapou — você treina com a General Lou-reen mesmo?
Marco não respondeu de imediato. Kalamera soltou um som pelo nariz e voltou ao telescópio.
— Se ele não treinasse, ela o quebrava de outro jeito.
O soldado apertou o carvão entre os dedos.
— Eu a vi no pátio uma vez. Só de longe.
Ele baixou o tom.
— A mais jovem General da história. O talento dela é… absurdo.
Marco soltou o cinto das proteções e largou a peça de couro sobre uma cadeira.
— Bom. Ela não quer conversa.
“E você também não quer. Você quer sobreviver.” A Nova entrou na cabeça dele com aquela calma irritante. “Parabéns por escolher o método mais doloroso.”
Kalamera terminou o ajuste, travou a placa no lugar e pressionou o tubo do telescópio com cuidado. A estrutura respondeu sem tremer.
— Pronto. — Ela se afastou um passo. — Eu queria mais tempo. Pra preparar isso aqui… e a parte de fora. Se o frio pegar de vez, metal contrai, junta abre, lente embaça. Se tiver gelo acumulando, a gente vai perder noites inteiras só limpando.
Ela olhou para a janela alta, onde o vidro já tinha uma névoa fina por dentro.
— Vai nevar em breve.
Marco respondeu na hora:
— Eu já imaginava.
Kalamera virou o rosto.
— Como? Você não é daqui.
— Eu medi.
Ele puxou do bolso interno um caderno gasto, capa marcada por manchas antigas. Abriu numa página dobrada e apoiou na bancada, afastando do metal frio com o antebraço.
Kalamera olhou, automática, procurando algum desenho de peça nova.
— O que é isso?
— Minha contagem.
O soldado inclinou o corpo, sem dar um passo. Só o suficiente para ver. Marco passou o dedo por uma coluna de marcas.
— Centésimo quinquagésimo primeiro amanhecer.
Kalamera ficou com o olhar preso nas marcas, como se tentasse entender por que alguém escreveria aquilo.
— Você conta… amanhecer?
— Eu conto o que não muda. — Ele virou mais uma página. — Amanhecer. Altura do Sol. Tempo entre marcas.
O soldado abriu a boca, fechou, abriu de novo. Apertou o carvão entre os dedos e baixou o tom.
— Lá embaixo eles riem disso. Dizem que olhar para o céu não ganha guerra.
Marco não se ofendeu. Ele tinha ouvido isso antes, de outros, com mais desprezo e menos curiosidade.
— Eu sei.
Ele puxou o caderno mais para o centro e virou para uma sequência de desenhos simples: um arco, linhas de referência, números pequenos ao lado, e pontos marcados como degraus.
— Eu acompanhei o Sol todos os dias desde que cheguei aqui. Mesmo quando teve nuvem, mesmo quando eu estava morto de cansaço.
Kalamera aproximou o rosto, o suficiente para ver a diferença entre um arco e outro.
— Isso mudou.
Marco assentiu.
— Mudou. Essa é a elevação de Lauris.
Ele apontou para o ponto mais alto da curva. O dedo parou ali, firme.
— Aqui foi a virada. O ponto mais alto que ele chegou desde que eu comecei a medir.
O soldado tentou entender pela forma.
— Virada…
— Solstício. — Marco não explicou o termo. — Ele para de subir e começa a descer.
Kalamera manteve o olhar preso no papel.
— E foi quando?
Marco bateu a unha na margem, onde a contagem estava anotada.
— Vigésimo sétimo amanhecer. Foi o ponto mais alto desde que eu comecei a medir.
Ele deslizou o dedo pela sequência, descendo devagar pelos pontos.
— Aqui o calor pegou de vez. Aqui ficou estável. E aqui… — ele avançou mais — aqui ele começou a cair de verdade.
Kalamera acompanhou o movimento do dedo como se acompanhasse uma lâmina no esmeril.
— Aqui foi época de colheita.
O soldado assentiu na hora, reconhecendo.
— Eu lembro do movimento na estrada.
Marco continuou, sem levantar o rosto.
— E aqui foram as Olimpíadas.
A palavra ficou pendurada no ar por um segundo a mais do que deveria.
Marco sentiu o arrepio subir pela nuca. As ruas de Ga-el cheias, o som da arena, o corte seco no meio da festa. O ataque.
Kalamera ficou parada também, as mãos fora do telescópio, apoiadas na bancada.
— Eu lembro — ela falou baixo.
Marco passou o dedo por cima da marca das Olimpíadas e seguiu.
Ele virou a página de novo. A curva ali estava mais baixa, quase colada na linha de referência.
— Quatro amanheceres atrás foi o mais baixo.
O soldado estreitou os olhos.
— O mais baixo… de todos?
— De todos que eu medi. — Marco fechou a mão em volta do caderno, sem fechar o caderno. — Isso significa que o inverno chegou.
Kalamera olhou para o telescópio, depois para a janela. O vidro já estava opaco nas bordas.
— E o fim? Quantos amanheceres até o inverno ir embora?
Marco olhou o caderno uma última vez, como se confirmasse o próprio trabalho, e levantou o olhar para o lado de fora.
— Entre cinquenta e sessenta amanheceres. Eu preciso fechar o ciclo inteiro pra ter certeza. Quando eu tiver um ano completo, eu finalizo o calendário.
O soldado e Kalamera repetiram o termo, quase ao mesmo tempo.
— Calendário… o que é isso?

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