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    — Calendário… o que é isso?

    Marco ficou olhando os dois por um instante, o dedo ainda em cima da curva mais baixa. O tique do pêndulo preenchia o espaço entre as palavras.

    Ele apontou com o queixo para o relógio.

    — Isso aí separa o dia em partes. Antes, vocês falavam “quando o sol tá alto”, “quando escurecer”, “quando der”. Agora vocês falam uma hora. E a mesma hora serve pra todo mundo.

    O soldado olhou o pêndulo como se ainda fosse um animal que podia morder.

    — Serve.

    Kalamera não tirou as mãos da bancada.

    — E o calendário faz isso com…?

    Marco assentiu.

    — Com o ano e com as estações. Ele dá nome e número pra um ciclo que já existe.

    O soldado franziu a testa.

    — Mas a gente já vive isso. Frio vem, passa, plantam, colhem, voltam os ventos, volta o frio. Sempre foi assim.

    Marco virou o caderno um pouco, só o suficiente pra encaixar o desenho no campo de visão deles.

    — Vocês vivem. Só que vivem atrasados.

    — Atrasados?

    — Vocês reconhecem a mudança depois que ela chega. — o dedo dele bateu numa marca no meio da curva. — A neve cai e vocês chamam de “inverno”. O sol fica alto por mais tempo e vocês chamam de “verão”. O vento vira e vocês chamam de “época”. Sempre depois.

    Kalamera soltou um som baixo, quase um acordo.

    O soldado cruzou os braços.

    — E como isso ajuda? O frio vem do mesmo jeito. Eu posso prever o golpe, mas ainda assim vou ter que aguentar ele.

    Marco apoiou o caderno na bancada, firme.

    — Ajuda porque você para de ser surpreendido pelo mesmo golpe todo ano.

    “Você tá tentando explicar estratégia pra quem foi treinado pra obedecer.” A Nova entrou, seca. “Boa sorte.”

    Marco ignorou.

    — Olha pra você. — Apontou a tábua de medidas do soldado. — Por que você marca número todo dia?

    O soldado olhou pra tábua, sem drama.

    — Porque me mandaram. O coronel falou pra eu ficar aqui e anotar o que você pedisse. Eu anoto.

    Marco assentiu, uma vez.

    — Pra comparar. Pra prever. — Marco tocou na coluna de marcas. — Se a medida caiu, você sabe que algo cedeu. Se subiu, você sabe que algo esticou. Você não espera quebrar.

    O soldado ficou quieto, a resistência dele mudando de lugar. Ele olhou de novo pro caderno, como se tentasse achar onde a ferramenta mordia.

    — Tá. Mas como você divide esse ciclo? Como você sabe onde começa e termina?

    Marco apontou pra cima, sem teatralidade.

    — A lua. Ela muda num ritmo que qualquer pessoa consegue ver. Ela fecha um ciclo. Se você usa isso como marca, você cria blocos. Ciclos. Você começa a dizer “na segunda lua depois do solstício”, e a frase vira concreta.

    Kalamera soltou o ar pela ponta do nariz.

    — Você tá transformando céu em tabela.

    — Eu tô transformando céu em referência. — Marco virou outra página e mostrou as colunas. — Eu marco amanhecer, marco altura, marco intervalo. Não é magia. É repetição.

    O soldado tocou o próprio queixo.

    — E se o céu fecha por dias? Se a neve cobre tudo? Como você marca?

    Marco apontou para o soldado, direto.

    — Com disciplina. Você perde uma noite, você não perde o padrão. Você marca quando dá, e ajusta com média. A curva não some.

    Kalamera mexeu os dedos, como se já estivesse pensando na rotina.

    — E você quer esperar um ciclo inteiro.

    Marco assentiu.

    — Um ano inteiro. Eu não vou chegar no Imperador com “talvez”. Eu vou chegar com “aqui está”.

    Ele tocou a marca mais baixa.

    — Se o padrão se repetir, daqui a cinquenta ou sessenta amanheceres isso começa a subir.

    O soldado encarou a marca como se encarasse um inimigo pequeno demais pra ser visto.

    — Você tá dizendo que dá pra saber quando o frio vai recuar.

    — Dá pra estimar. — Marco não entregou certeza falsa. — E estimativa já vale mais do que não saber.

    ***

    O sino do Colégio Militar de Velunthar ecoou pela praça central, marcando o fim da última aula. O frio já tinha tomado conta. O chão estava úmido e gelado, a respiração virava fumaça.

    As portas pesadas abriram e a turma saiu em ondas, sem a linha perfeita do treino. Ainda tinha rigidez nos ombros, mas o passo já era de gente indo embora.

    Halikah Facyne veio no meio, uniforme azul-escuro sem uma dobra fora do lugar. A boina estava firme, a mochila alta, a postura de quem já tinha virado referência e sabia disso.

    — Último dia.

    Halikah puxou a alça da mochila e olhou pro portão.

    — Sobrevivemos. Sem medalha por isso, infelizmente.

    Elssien abriu os braços, o tecido do casaco estalando no movimento.

    — Último dia daqui. Agora é só esperar chamarem nosso nome.

    Reinna deu um toque com o cotovelo no braço da Halikah. Ela tinha o olho direito verde e o esquerdo castanho-escuro.

    — Eles vão chamar você primeiro. — o queixo dela apontou pras fitas e medalhas no peito de Halikah. — Melhor da turma três invernos seguidos. Não finge que não sabe.

    Halikah virou o rosto, uma sombra de riso no canto da boca, mais por reflexo do que por vaidade.

    — Eu só fiz o que mandaram.

    Elssien soltou um som seco.

    — Mentira. Você fez mais. Você fez parecer fácil.

    Reinna puxou a gola do casaco, tentando esconder o arrepio.

    Elssien puxou a boina e soltou o cabelo no vento gelado, como se desobedecer a um detalhe fosse a única vitória do dia.

    — Tá. Mas pelo menos a gente vai sair daqui. — Ela olhou para as duas, animando de novo. — E trocar instrutor velho por tenente novo. Eu aceito.

    Reinna balançou a cabeça.

    — Novo, mas gritando igual.

    Halikah deu de ombros.

    — Grito eu já conheço. Eu quero é treino que presta.

    Reinna deu uma risada curta demais pra virar graça, mas suficiente pra quebrar o peso. Elssien apontou pra rua que descia pro lado de fora do perímetro, onde as casas ficavam mais baixas.

    — Hoje é nosso último dia aqui. A gente tem que fazer alguma coisa que não envolva marcha.

    Reinna levantou uma sobrancelha.

    — Você tá sugerindo o quê?

    Elssien deu um passo pra trás e abriu um sorriso grande, teimoso.

    — Mar.

    Halikah travou um segundo, como se confirmasse que era possível.

    — Tá frio.

    — Melhor. — Reinna ajeitou o casaco e inclinou o rosto. — Se a gente encostar o pé na água e sobreviver, a Academia não assusta.

    Elssien bateu palmas uma vez.

    — Então fechou. Amanhã de manhã.

    Halikah apontou com o queixo, concordando.

    — Sem faltar.

    Reinna respondeu no mesmo nível.

    — Sem faltar.

    Elssien já estava andando de lado, como se liderasse uma tropa invisível.

    — Eu quero ver a cara de vocês quando o vento bater de frente. Vocês vão implorar pra voltar pro dormitório.

    Reinna empurrou ela com o ombro.

    — Eu imploro é pra você calar a boca.

    Enquanto isso, do outro lado da rua, uma sombra ficou parada na transversal, protegida por barris velhos e madeira empilhada.

    Uma garota magra, cabelo longo prateado como névoa sob lua, observava sem mudar o peso do corpo. O frio não parecia tocar nela. O olhar brilhava com uma luz vazia.

    As risadas diminuíram e viraram som distante quando as meninas dobraram a esquina e sumiram. A figura prateada recuou um passo para trás, engolida pela sombra entre os barris.

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