Capítulo 101 — Tá vindo na nossa direção.
“Voltar ao espaço. Excelente plano. Só tem um detalhe: vocês estão alguns séculos atrasados.”
A voz da Nova acendeu na mente do Marco, limpa, como sempre.
A carruagem já estava na estrada, longe demais da estação pra dar meia-volta na noite pesada. O vento batia na lona e a neve começava a cair de lado, fina, insistente, grudando na madeira e sumindo no barro gelado. As rodas pegavam buraco escondido e jogavam o banco pra cima; o corpo de todo mundo ainda estava no mesmo ritmo do trem, só que agora sem trilho pra suavizar nada.
Marco encaixou o ombro no canto do banco e segurou o solavanco com a perna. A bolsa tiracolo ficou pesada no quadril, o Cetro quieto por enquanto. Ele respondeu sem abrir a boca.
“Se falta tecnologia… eu vou ter que construir. Uma peça por vez. Já tô pensando em como resolver isso”.
A estrada piorava a cada curva. O barro tinha virado uma pasta escura por baixo da neve nova, e as rodas entravam e saíam de sulcos que não existiam de dia. A madeira rangia no encaixe dos eixos. A lanterna pendurada no gancho tremia sem parar, jogando sombras nas mãos e no teto baixo. Cada patinada virava um baque, e o banco devolvia no corpo o trabalho que a estrada estava fazendo lá fora.
Lou-reen mantinha o olhar na janela de couro, atento ao escuro, medindo cada coisa que passava. O frio deixava a pele do rosto mais dura, mas não mexia na postura. Venia mantinha a pasta no colo e um papel preso por baixo do polegar. A pena corria, parava, corria de novo, sempre no mesmo ângulo, aproveitando os segundos em que a lanterna estabilizava.
Kalamera tinha duas pecinhas de metal no dedo, encaixava uma na outra, separava, encaixava de novo. Testava o controle no silêncio, puxando essência só o suficiente pra sentir resposta. O metal obedecia com aquela precisão que parecia simples quando saía das mãos dela.
A carruagem deu dois solavancos seguidos, patinou, e parou de vez.
O cocheiro resmungou algo do lado de fora, e a voz veio abafada pela lona.
— General… a de trás atolou.
Lou-reen virou o rosto, só o necessário.
— A de equipamento.
Marco levantou o olhar um pouco, ainda preso no impacto do freio. Lou-reen encarou ele por um instante.
— Você precisava mesmo trazer isso tudo? Eu falei “só o essencial”.
Marco apontou com o queixo pra bolsa e para as caixas imaginárias atrás, irritado e cansado ao mesmo tempo.
— Eram só dois telescópios. E umas peças sobressalentes. Não dá pra viajar sem reposição.
Kalamera interrompeu o encaixe das pecinhas e ergueu o queixo.
— A culpa é minha. A maior parte das caixas são minhas. Ferramenta, metal, moldes. Se eu não trouxer, eu não conserto nada.
Lou-reen assentiu, aceitando sem discussão. O olhar dela não amoleceu, mas ficou mais limpo.
— E você tem consertado. Minhas peças de batalha voltaram a funcionar como devem. Obrigada.
Kalamera baixou os olhos, recolheu as pecinhas na palma e guardou.
— Não é nada. Eu que devo. Se você não tivesse me convocado… eu tinha ficado parada depois que o Grithin me expulsou. Você me colocou de volta no caminho. Pra ajudar o Marco. Pra ajudar você.
A lanterna tremeu de novo. Lá fora, o vento bateu na lona como se quisesse arrancar a carruagem inteira do chão. Lou-reen deslocou o peso no banco, já pronta pra levantar. Venia segurou o papel com mais força pra não borrar as anotações. Kalamera ficou com a mão pousada na bolsa de peças, só esperando o próximo comando.
A Nova entrou de novo na mente do Marco.
“Frequência de essência à frente acima do esperado. Recomendação: extrema cautela.”
Os dedos dele fecharam mais dentro da luva.
O sinal veio por baixo da pele em uma pressão baixa, distante, fora do ritmo do vento e do balanço da carruagem. Marco virou os olhos pra janela. O escuro parecia o mesmo, mas havia essência em uso pesado à frente. Algo puxava e moldava em volume, sustentando o esforço.
“Isso tá escalando”, Nova completou. “E tá vindo na nossa direção.”
O estômago do Marco apertou. O Cetro seguia quieto na bolsa, e isso piorava tudo. A conta veio rápida: carruagem parada, neve engrossando, gente presa num ponto fixo.
Ele passou a língua nos dentes, seco, e encarou a Lou-reen.
— Lou-reen. Tem alguma coisa usando essência demais ali na frente. E tá vindo pra cá. Rápido.
Ela virou o rosto na hora, olhar duro, como se o som tivesse acendido um alvo no escuro.
— Como você sabe?
Marco não tirou os olhos da janela.
— Eu sinto. Tá… forte. E tá se movendo.
Venia parou a pena no meio do traço. O papel ficou suspenso no colo, esperando a próxima palavra. As quatro mãos de Kalamera ficaram quietas, a atenção presa no espaço entre o Marco e a general.
Lou-reen mediu o rosto dele, um segundo a mais do que deveria.
Ela fechou os olhos.
A carruagem estava parada, mas não estava quieta. O vento batia na lona, a madeira gemia nos encaixes, e os cavalos do lado de fora puxavam e recuavam, fazendo o assoalho vibrar em pequenas pancadas.
As vozes dos dois cocheiros vinham abafadas, um de cada lado do barro, contando força e xingando baixo enquanto tentavam desatolar a carruagem de trás.
Lou-reen puxou essência pra si, pouco, só pra afiar a percepção.
O sinal veio: uma tensão puxando lá na frente. Uso pesado, sustentado, e se aproximando pela estrada. Lou-reen abriu os olhos.
— Certo.
O corpo dela inclinou pra frente. A mão foi pro punho da espada. Venia continuou escrevendo, o papel firme no colo, levantando o olhar de vez em quando pra acompanhar cada mudança de postura, cada palavra, como se estivesse registrando o mundo no mesmo instante em que ele acontecia. Kalamera prendeu a bolsa de peças contra a coxa, quatro mãos travando tudo.
Lou-reen deu um passo e chutou a porta.
Ar gelado invadiu junto com neve fina, espalhando no banco e no chão. Lou-reen saltou pra fora e afundou a bota no barro duro, já indo na direção do que puxava essência na estrada.

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