Capítulo 103 — Amanhã.
Os seis estavam ao redor da criatura. Lou-reen estava perto do peito aberto pela lâmina, a espada ainda na mão. Marco e Kalamera pegaram um lado, Venia outro. Os dois cocheiros seguravam as lanternas, luz tremendo na neve.
Lou-reen mediu o corpo de cima a baixo.
— Achei que era um troll, mas é mais rápido. E mais forte. E usou magia.
Kalamera manteve a distância, olhos trabalhando nas linhas do corpo.
— Trolls não usam magia.
Lou-reen virou a cabeça devagar, encarando o escuro ao redor. A lanterna varreu o barranco e a curva da estrada. A neve engoliu o alcance da luz e a linha do caminho virou mancha.
Marco olhou a criatura de novo. Humanoide, alta, forte demais. A pele grossa parecia apertada no próprio volume. Em alguns pontos, o “músculo” empurrava por baixo como se quisesse sair.
A voz da Nova acendeu na mente dele, sem pressa.
“Rastro muito forte de essência primordial. Muito acima do normal.”
Marco piscou, sem tirar o foco do corpo.
“É… o quê, então?”
“E daí que não parece natural. Parece saturado.”
Uma pausa.
“Pensa num foguete com o tanque cheio demais. A pressão sobe, o resto do sistema sofre.”
Marco engoliu seco.
“Você tá dizendo que isso explodiu por dentro?”
“Eu tô dizendo que tem coisa demais onde não devia ter. O porquê, eu ainda não tenho.”
O olhar dele correu pelas costas, pelos braços e pelo pescoço da criatura.
— E agora? O que a gente faz com isso… leva pra autópsia?
Venia virou o rosto na hora, sobrancelha levantada. Um dos cocheiros travou a lanterna no alto, luz tremendo. Kalamera ficou com os olhos no corpo. Lou-reen olhou pra Marco como se ele tivesse falado em outra língua.
— Levar pra… quê?
Marco abriu a mão e apontou pro corpo, depois fez um gesto no ar, como se desenhasse uma linha.
— É… abrir. Ver por dentro. Entender o que é… — a frase quebrou no meio. Ele olhou pros rostos ao redor e engoliu o resto.
Lou-reen guardou a pergunta com o olhar e já virou pro chão ao lado do cadáver.
— A gente marca o ponto. Kalamera: esfera de selenita aqui. Enterra e carrega com essência. Eu quero esse lugar gritando pra gente até amanhã. Com luz, eu vejo isso direito. Se der pra levar, a gente chama ajuda na vila.
***
A lareira tinha virado brasa. Dois pedaços de lenha carbonizados seguravam um resto de fogo. Chralazar fechou o ferrolho da porta e voltou pra mesa, girando a caneca sem beber. Halikah ficou diante do fogo, as botas sujas, as mãos abertas pra brasa.
— Três dias.
Ele levantou os olhos.
— Já falou isso.
— Vou falar até alguém trazer ela de volta.
Halikah encostou a unha no tampo e riscou uma linha invisível, repetindo o trajeto que tinha feito com Marlen.
Chralazar passou a mão no rosto.
— Você foi com a sargento. Vocês refizeram o caminho inteiro. Rua por rua.
Halikah sentou sem encostar as costas.
— A gente foi até o último lugar onde ela foi vista. Não tinha rastro. A neve apagou tudo.
— E?
— Ela perguntou de novo a roupa. Perguntou do lenço. Do cabelo. Eu falei tudo igual. — Halikah apertou a boca. — Ela olhava pra mim e pra rua como se eu tivesse guardado alguma coisa no bolso.
Chralazar ficou de pé e foi até a janela. Limpou um círculo no vidro e olhou a noite. Voltou.
Halikah bateu o calcanhar no chão.
— Ela rodou com a guarda. Rodou sozinha. Voltou aqui e ficou de pé no meio da sala. A mão dela ficou no cinto o tempo todo, procurando uma ordem que resolvesse.
Chralazar pegou o tição e mexeu na lenha, puxando a brasa pra cima. O vermelho subiu e caiu.
— Isso tá morrendo.
— Tá tudo morrendo, Chra.
Ele parou e olhou pra irmã.
— Não fala assim.
Chralazar largou o tição e estendeu a mão pra lareira, palma aberta. Os dedos tremeram. A essência veio e travou.
Algo duro se formou entre os dedos, opaco, com borda irregular, e caiu na pedra com um estalo. Ficou ali, frio, inútil.
Chralazar recolheu a mão e apertou o punho contra a perna.
Halikah levantou e se aproximou do fogo. Estendeu a mão com naturalidade. Um fio de essência entrou na brasa. A chama pegou numa ponta de lenha e abriu língua amarela.
A chama pegou e clareou o rosto do Chralazar. Os olhos dele seguiram a mão da Halikah, do punho até a ponta dos dedos, e ficaram ali um instante a mais do que deviam. A inveja veio seca, sem máscara. A mandíbula travou. Ele puxou o olhar pro chão e esfregou o polegar na própria palma, no ponto onde a essência tinha endurecido, como se desse pra apagar a cena no atrito.
Halikah voltou pra mesa e puxou a caneca dele. O aro de metal no fundo tinha a runa gravada. Ela encostou o polegar no traço e empurrou um fio de essência.
O sulco acendeu. O calor subiu devagar pelo metal.
Chralazar puxou a caneca de volta na hora.
— Não precisa.
— Precisa sim.
Os dedos dele ficaram perto da caneca, roubando calor.
— A mãe dela falou mais alguma coisa? — ele perguntou.
— Falou que mandou recado pra Yhe-for. — Halikah apoiou os braços na mesa. — A general tá a caminho.
Chralazar piscou.
— Certeza?
— Certeza. Ela falou o nome. — Halikah endireitou o tronco na hora, a voz subindo um grau. — Lou-reen.
O rosto dela acendeu. O fogo refletiu nos olhos.
— Se tem alguém que pode achar a Reinna, é ela.
Chralazar soltou um som baixo, mais cansaço do que riso.
— Você fala dela como se ela fosse uma lâmina. Entra e abre caminho só de existir.
— Ela é. — Halikah bateu a ponta do dedo na mesa. — Três dias e nada. — Ela vai chegar e resolver isso em um dia. Você vai ver.
— E você vai fazer o quê quando ela chegar?
Halikah segurou o olhar.
— Eu não vou atrapalhar.
— Então pronto.
Ele pegou a tampa da lamparina e apagou a chama. A luz ficou só na lareira, tremendo baixo.
— Dorme.
Halikah parou na porta do quarto.
— Quando ela entrar na vila… eu vou ver.
Chralazar mexeu na lenha com o tição, sem olhar pra trás.
— Você vê. Amanhã.

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