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    Os seis estavam ao redor da criatura. Lou-reen estava perto do peito aberto pela lâmina, a espada ainda na mão. Marco e Kalamera pegaram um lado, Venia outro. Os dois cocheiros seguravam as lanternas, luz tremendo na neve.

    Lou-reen mediu o corpo de cima a baixo.

    — Achei que era um troll, mas é mais rápido. E mais forte. E usou magia.

    Kalamera manteve a distância, olhos trabalhando nas linhas do corpo.

    — Trolls não usam magia.

    Lou-reen virou a cabeça devagar, encarando o escuro ao redor. A lanterna varreu o barranco e a curva da estrada. A neve engoliu o alcance da luz e a linha do caminho virou mancha.

    Marco olhou a criatura de novo. Humanoide, alta, forte demais. A pele grossa parecia apertada no próprio volume. Em alguns pontos, o “músculo” empurrava por baixo como se quisesse sair.

    A voz da Nova acendeu na mente dele, sem pressa.

    “Rastro muito forte de essência primordial. Muito acima do normal.”

    Marco piscou, sem tirar o foco do corpo.

    “É… o quê, então?”

    “E daí que não parece natural. Parece saturado.”

    Uma pausa.

    “Pensa num foguete com o tanque cheio demais. A pressão sobe, o resto do sistema sofre.”

    Marco engoliu seco.

    “Você tá dizendo que isso explodiu por dentro?”

    “Eu tô dizendo que tem coisa demais onde não devia ter. O porquê, eu ainda não tenho.”

    O olhar dele correu pelas costas, pelos braços e pelo pescoço da criatura.

    — E agora? O que a gente faz com isso… leva pra autópsia?

    Venia virou o rosto na hora, sobrancelha levantada. Um dos cocheiros travou a lanterna no alto, luz tremendo. Kalamera ficou com os olhos no corpo. Lou-reen olhou pra Marco como se ele tivesse falado em outra língua.

    — Levar pra… quê?

    Marco abriu a mão e apontou pro corpo, depois fez um gesto no ar, como se desenhasse uma linha.

    — É… abrir. Ver por dentro. Entender o que é… — a frase quebrou no meio. Ele olhou pros rostos ao redor e engoliu o resto.

    Lou-reen guardou a pergunta com o olhar e já virou pro chão ao lado do cadáver.

    — A gente marca o ponto. Kalamera: esfera de selenita aqui. Enterra e carrega com essência. Eu quero esse lugar gritando pra gente até amanhã. Com luz, eu vejo isso direito. Se der pra levar, a gente chama ajuda na vila.

    ***

    A lareira tinha virado brasa. Dois pedaços de lenha carbonizados seguravam um resto de fogo. Chralazar fechou o ferrolho da porta e voltou pra mesa, girando a caneca sem beber. Halikah ficou diante do fogo, as botas sujas, as mãos abertas pra brasa.

    — Três dias.

    Ele levantou os olhos.

    — Já falou isso.

    — Vou falar até alguém trazer ela de volta.

    Halikah encostou a unha no tampo e riscou uma linha invisível, repetindo o trajeto que tinha feito com Marlen.

    Chralazar passou a mão no rosto.

    — Você foi com a sargento. Vocês refizeram o caminho inteiro. Rua por rua.

    Halikah sentou sem encostar as costas.

    — A gente foi até o último lugar onde ela foi vista. Não tinha rastro. A neve apagou tudo.

    — E?

    — Ela perguntou de novo a roupa. Perguntou do lenço. Do cabelo. Eu falei tudo igual. — Halikah apertou a boca. — Ela olhava pra mim e pra rua como se eu tivesse guardado alguma coisa no bolso.

    Chralazar ficou de pé e foi até a janela. Limpou um círculo no vidro e olhou a noite. Voltou.

    Halikah bateu o calcanhar no chão.

    — Ela rodou com a guarda. Rodou sozinha. Voltou aqui e ficou de pé no meio da sala. A mão dela ficou no cinto o tempo todo, procurando uma ordem que resolvesse.

    Chralazar pegou o tição e mexeu na lenha, puxando a brasa pra cima. O vermelho subiu e caiu.

    — Isso tá morrendo.

    — Tá tudo morrendo, Chra.

    Ele parou e olhou pra irmã.

    — Não fala assim.

    Chralazar largou o tição e estendeu a mão pra lareira, palma aberta. Os dedos tremeram. A essência veio e travou.

    Algo duro se formou entre os dedos, opaco, com borda irregular, e caiu na pedra com um estalo. Ficou ali, frio, inútil.

    Chralazar recolheu a mão e apertou o punho contra a perna.

    Halikah levantou e se aproximou do fogo. Estendeu a mão com naturalidade. Um fio de essência entrou na brasa. A chama pegou numa ponta de lenha e abriu língua amarela.

    A chama pegou e clareou o rosto do Chralazar. Os olhos dele seguiram a mão da Halikah, do punho até a ponta dos dedos, e ficaram ali um instante a mais do que deviam. A inveja veio seca, sem máscara. A mandíbula travou. Ele puxou o olhar pro chão e esfregou o polegar na própria palma, no ponto onde a essência tinha endurecido, como se desse pra apagar a cena no atrito.

    Halikah voltou pra mesa e puxou a caneca dele. O aro de metal no fundo tinha a runa gravada. Ela encostou o polegar no traço e empurrou um fio de essência.

    O sulco acendeu. O calor subiu devagar pelo metal.

    Chralazar puxou a caneca de volta na hora.

    — Não precisa.

    — Precisa sim.

    Os dedos dele ficaram perto da caneca, roubando calor.

    — A mãe dela falou mais alguma coisa? — ele perguntou.

    — Falou que mandou recado pra Yhe-for. — Halikah apoiou os braços na mesa. — A general tá a caminho.

    Chralazar piscou.

    — Certeza?

    — Certeza. Ela falou o nome. — Halikah endireitou o tronco na hora, a voz subindo um grau. — Lou-reen.

    O rosto dela acendeu. O fogo refletiu nos olhos.

    — Se tem alguém que pode achar a Reinna, é ela.

    Chralazar soltou um som baixo, mais cansaço do que riso.

    — Você fala dela como se ela fosse uma lâmina. Entra e abre caminho só de existir.

    — Ela é. — Halikah bateu a ponta do dedo na mesa. — Três dias e nada. — Ela vai chegar e resolver isso em um dia. Você vai ver.

    — E você vai fazer o quê quando ela chegar?

    Halikah segurou o olhar.

    — Eu não vou atrapalhar.

    — Então pronto.

    Ele pegou a tampa da lamparina e apagou a chama. A luz ficou só na lareira, tremendo baixo.

    — Dorme.

    Halikah parou na porta do quarto.

    — Quando ela entrar na vila… eu vou ver.

    Chralazar mexeu na lenha com o tição, sem olhar pra trás.

    — Você vê. Amanhã.

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