Capítulo 104 — Ela tem os olhos diferentes.
A manhã em Velunthar ainda estava cinza. O sol vinha fraco por trás das nuvens, e o vento do mar empurrava neve de lado, misturando sal no frio.
Marco e Lou-reen corriam pela faixa de chão firme que contornava as casas baixas, uma rotina que eles mantinham desde que Marco caíra em Taeris. No começo, o corpo dele só aguentava o que um astronauta aguentava: fôlego, resistência, teimosia. Agora ele já sustentava ritmo de soldado do Império. Passada firme, postura certa, a respiração no tempo. Quase dava pra dizer que ele acompanhava.
Quase.
Às vezes, Lou-reen disparava e Marco ficava pra trás no mesmo instante. A diferença aparecia seca, como uma parede invisível. O rosto dela continuava o mesmo, a respiração seguia limpa. Só a passada alongava e o chão começava a passar rápido demais.
Ele acionava o Acelerar. A essência apertava as pernas por dentro e a força vinha junto, imediata. O apoio ficava mais curto, o impulso mais forte. A mente acelerava e o mundo perdia velocidade: flocos suspensos, chão chegando em partes. Ele via o ponto do próximo passo antes do pé sair do anterior.
Nunca era o bastante. Lou-reen estava sempre à frente. A distância diminuía um pouco, só o suficiente pra enganar e ela alongava mais um passo e o espaço voltava.
Velunthar era uma vila costeira pequena, apertada entre o mar e a terra dura, com um muro baixo contornando parte das casas. Telhados baixos, fumaça fina saindo de chaminés, ruas curtas que terminavam rápido. O vento do mar batia de lado e jogava neve pela vila, riscando tudo em branco por um segundo e sumindo no chão escuro.
Eles passaram por duas esquinas e já estavam no chão de terra batida entre as primeiras casas. Lou-reen encurtou a passada e Marco soltou o Acelerar aos poucos, deixando a essência recuar das pernas. O corpo protestou na transição, um peso voltando pros músculos, a pulsação ainda alta.
Ela olhou de lado, sem diminuir.
— Você segurou melhor hoje. Na curva do muro… e no gelo. Não perdeu o ritmo.
Marco manteve o passo, ombros ainda quentes.
— Ainda arde quando eu solto. — ele disse. — Se eu deixo a cabeça escorregar um segundo, o Acelerar quebra. Mas eu tô segurando mais tempo.
Ele olhou pro espaço entre os dois e depois pra bota dela tocando o chão.
— Você ficou mais rápida também.
— Fiquei.
Ela continuou andando, sem olhar pro lado.
— Não é porque eu virei general que eu paro de treinar. Principalmente depois de…
A frase morreu no frio. Lou-reen seguiu mais dois passos e apertou o maxilar. O olhar dela ficou preso num ponto vazio da rua, longe demais pra ser um alvo.
Ele percebeu que ela ainda estava abatida pelas Olimpíadas, mesmo tentando não deixar aparecer nas últimas semanas. O corpo dela entregava isso. A passada vinha milimetricamente limpa, batida após batida, como se ela não aceitasse errar mais nada.
Eles viraram mais uma rua e pararam diante do colégio.
O prédio ocupava um quarteirão inteiro, pedra grossa, portas reforçadas, janelas estreitas. Bandeiras do Império presas nas colunas da entrada. O olhar de Marco correu pela fachada.
— O que você vai fazer pra resolver os sumiços?
Lou-reen não virou o rosto. O vento do mar puxou a neve pelo pátio e riscou as bandeiras nas colunas.
— Sinceramente? Ainda não sei. — a voz saiu baixa. — Não tem padrão nas vítimas. E não deixaram rastros.
Marco viu primeiro. Uma figura pequena vindo pela rua que levava ao pátio do colégio, correndo no frio como se não sentisse. Atrás, um rapaz mais velho acompanhava com passada longa, tentando alcançar sem virar perseguição.
Os dois tinham o mesmo traço no rosto e no cabelo, a mesma linha de mandíbula.
A garota vinha de uniforme comum do colégio, capa batendo no vento do mar, neve grudando no tecido e se soltando em flocos. Uma espada curta pendia na cintura, bainha batendo na coxa a cada passo. O rapaz vinha com roupa comum, casaco simples, mãos vazias.
Marco registrou na hora: civil.
Ela apontou direto pra eles, olhos travados em Lou-reen, e acelerou no último trecho. O rapaz chegou junto e segurou o antebraço dela antes que ela encostasse.
— Vai com calma.
A garota puxou o braço uma vez, mais impaciência do que força. O olhar não saiu da general.
Ela tomou fôlego, endireitou a postura como se lembrasse que estava diante de um símbolo do Império.
— General Lou-reen… — a voz saiu rápida, quase tropeçando. — Meu nome é Halikah Facyne.
O rapaz soltou a manga devagar e ficou ao lado, ombros alinhados, mãos vazias.
— E esse é o meu irmão. Chralazar.
Halikah deu mais um passo.
— É verdade que você enfrentou um Leão-de-Qsia?
Lou-reen piscou uma vez. O olhar escapou pro pátio, pras bandeiras batendo no vento. Quando voltou, a voz saiu mais baixa.
— É.
Halikah apertou a capa no peito com as duas mãos e o sorriso veio aberto, sem freio. O corpo dela quase pulou no lugar, como se a resposta tivesse virado energia.
Marco olhou pro irmão. Mãos vazias, sem bainha, sem placa, sem marca do Exército. Ele ficou meio passo atrás da Halikah, atento, como se estivesse pronto pra segurar de novo.
Lou-reen cortou o assunto com um movimento de mão, direto.
— A última desaparecida. Reinna. O que você sabe?
Halikah piscou uma vez. O sorriso sumiu. Ela endireitou as costas e puxou a capa pro lugar, como foi ensinada no colégio. O olhar ficou firme em Lou-reen, pronta pra responder do jeito certo.
— Ela é minha melhor amiga. A gente estudou junto desde… sempre. — a frase veio quebrada, e ela forçou a próxima. — Ela tem os olhos diferentes. Um claro… outro mais escuro. Você reconhece na hora.
Halikah deu um passo pro lado, ajeitando a capa.
— Faz três dias. Eu fui com ela até a rua da casa dela. A gente se despediu ali. — a voz apertou no fim. — Ela não chegou em casa.
Lou-reen ficou um segundo olhando pra menina, a mão dela descansando no cabo da espada.
— Fica por perto do colégio. — a voz veio baixa, firme. — Se lembrar de qualquer coisa, você me procura. E você… — o olhar caiu em Chralazar. — mantém ela inteira.
Chralazar assentiu, sem teatralidade.
— Sim, senhora.
Lou-reen já virou o corpo pra rua.
— Marco. Vamos. A gente começa pelo caminho da casa dela.
Entre duas casas e o muro baixo, a neve formava uma dobra limpa, intocada. Uma figura estava ali, encolhida na sombra, cabelo prateado escapando do capuz em fios finos. Os olhos acompanharam Lou-reen e Marco cruzando a rua, depois a garota no pátio, depois o homem sem espada.

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