Índice de Capítulo

    Marco e Lou-reen voltaram pela rua principal de Velunthar com neve batendo de lado. Eles tinham refeito cada curva que Halikah apontara, do portão do colégio até a esquina onde a rua estreitava. A neve nova cobria tudo numa camada fina, lisa demais.

    Lou-reen encostou a luva no batente de uma casa. Neve grudada no metal, intacta. Ela puxou a mão de volta.

    — Nada.

    Marco levantou o olhar do chão e passou a varrer cerca, muro, janela baixa. Neve inteira, sem raspão, sem sinal de luta. Gente entrando e saindo, sal nos ombros, rostos vermelhos. Rotina de inverno engolindo o resto.

    Eles passaram pelo portão do QG. Dois soldados na entrada endireitaram a postura.

    — General.

    Lou-reen só avançou.

    O som de roda rangendo veio do pátio interno. Uma carroça grande parou torta perto do poço. A estrutura tinha barras extras de metal por cima do eixo. Placas presas nas laterais, para segurar o peso.

    Kalamera desceu do banco. As botas bateram na neve dura. Ela ficou com a mão na barra reforçada, conferindo o aperto. O tecido que cobria a carga estava amarrado por cordas grossas. Debaixo, um volume humanoide pesado, ombros largos, pernas rígidas.

    Lou-reen mudou de direção na hora.

    — Levem para o galpão de armas no fundo.

    Kalamera puxou a rédea e fez a carroça avançar devagar.

    Lá dentro, fileiras de suportes, caixas fechadas, uma bancada comprida sob uma janela estreita. A luz do dia entrava fraca, mas entrava.

    Kalamera guiou a carroça até o centro do chão de pedra. Parou com a lona virada para a bancada. Puxou o freio com o pé e prendeu a rédea num gancho de ferro.

    Lou-reen entrou atrás, passos firmes. Venia entrou junto, em silêncio. Marco entrou por último. Kalamera passou a mão na barra reforçada mais uma vez, só pra confirmar que nada cedeu no caminho.

    Lou-reen encostou a mão na lona.

    — Tirem.

    Dois soldados puxaram os nós e a corda cedeu. A lona saiu em dobras pesadas e caiu sobre a bancada.

    A luz da janela pegou o corpo de lado.

    Ele ocupava metade da carroça. Ombros largos demais, peito alto, braços grossos pendendo perto das tábuas. A pele escura tinha brilho opaco, como couro molhado. Em alguns pontos, a superfície parecia mais espessa, irregular, com volumes por baixo empurrando.

    Lou-reen subiu na roda e apoiou a bota na lateral da carroça. Ela inclinou o corpo, olhando de cima.

    O corte no peito era dela. Linha limpa onde a lâmina entrou. O rasgo aberto era o fim do serviço. O sangue tinha virado crosta escura.

    Marco ficou no chão, perto da frente, medindo com o olho a largura do torso e o tamanho das mãos. Ele passou a ponta da luva perto da pele, sem encostar, só pra ver se havia calor sobrando. Nada.

    Kalamera ficou do lado da carroça, mão na barra reforçada.

    — Ele é pesado demais. Eu tive que reforçar tudo pra não partir no caminho.

    Ela olhou o eixo, depois a lona no chão.

    — Se a estrada tivesse pior um pouco, a carroça ficava lá.

    Lou-reen assentiu uma vez, sem tirar os olhos do corpo.

    A porta do galpão abriu e fechou de novo, passos firmes no chão de pedra.

    — General.

    Lou-reen virou só o suficiente pra ver quem era.

    — Eu sou a tenente Hegoria Riaso. — A voz saiu limpa. — Me chamaram.

    Lou-reen apontou com o queixo.

    — Achei que fosse um troll.

    A tenente já estava perto, mão estendida, mas parou antes de tocar.

    — Posso?

    Lou-reen deu espaço.

    Hegoria apoiou os dedos na borda da carroça e inclinou o rosto para o peito aberto, como quem lê uma página.

    Marco manteve o olhar nela.

    “Eu tinha esquecido que existe gente assim aqui”, pensou. “A Essência da Restauração já resolve tanta coisa.”

    “A Restauração que você usa não é padrão”, a Nova respondeu. “A comum só fecha corte raso e apaga contusão leve. O resto fica na mão de curandeiro. Osso quebrado, doença, infecção.”

    Marco fechou a mão devagar. A lembrança da luz dourada fechando carne veio junto.

    “Então por que a minha…?”

    Nova não perdeu tempo. “Porque eu sei medicina. Eu sei anatomia. Eu guio a essência. Sem isso, você só estaria jogando energia e torcendo.”

    A tenente ajustou a posição das lentes com um dedo e voltou a olhar o corpo.

    A Nova completou, sem cerimônia.

    “E ela? No seu idioma, isso é uma doutora.”

    Hegoria aproximou o rosto do peito aberto e virou a cabeça, buscando ângulo. Ela apontou com um dedo, sem encostar na carne.

    — A lâmina entrou aqui. Fundo e direto. — O dedo desceu um pouco. — Perfuração no lugar certo. Direta no coração.

    Ela ergueu o olhar, uma vez.

    — Foi você?

    — Foi. — Lou-reen não mudou o tom.

    Hegoria voltou ao rasgo. Os olhos correram pela borda, pela profundidade, pela crosta. Depois desceram pela pele escura, parando em manchas mais claras, chamuscadas, e em pontos onde a carne parecia dura demais.

    Ela murmurou, baixo, mais pra si.

    — Aqui tentou abrir. E aqui. Pressão por dentro.

    Ela inclinou a cabeça e prendeu a respiração por um segundo, lendo o padrão com calma.

    — Forçou o corpo. Não queimou por fora. Estourou por dentro.

    Lou-reen ficou ao lado da roda.

    — Eu achei que fosse um troll. — Ela falou como relatório. — Não se movia como um. Força e velocidade fora da curva. E usou magia.

    Na palavra “magia”, Hegoria disparou na direção da Lou-reen. Ela agarrou o punho da general com as duas mãos, firme demais.

    — Que tipo de magia?

    Lou-reen travou por um instante. O olhar desceu para as mãos da tenente, depois voltou pro rosto atrás das lentes.

    — Tenente. Você pode me soltar?

    — Que tipo? — Hegoria não soltou.

    — …Fogo.

    Hegoria prendeu o ar.

    — Você viu de onde saiu?

    Lou-reen hesitou de novo, como se estivesse reencenando a estrada na cabeça.

    — Da mão. Bolas de fogo.

    — Bolas. Mais de uma?

    Lou-reen puxou a mão de leve, sem força, só pra marcar limite.

    — Em rajadas. Uma atrás da outra.

    Hegoria abriu a mão no ar, desenhando a sequência.

    — Rajadas.

    A mão dela foi até o caderno preso no cinto. Ela puxou, rabiscou duas linhas rápidas, voltou.

    — Qual o intervalo?

    Lou-reen ajeitou a luva, dedo por dedo.

    — Um… dois segundos.

    — Distância?

    — Vinte passos.

    Hegoria já abriu a boca de novo. Lou-reen ergueu a mão.

    — Chega de perguntas.

    Hegoria fechou o caderno com força demais e prendeu contra o peito.

    — Eu preciso registrar—

    — Você registra depois. — Lou-reen apontou com o queixo pro corpo. — Eu tenho gente sumida lá fora.

    Hegoria ficou dura por um instante. O olhar escorregou de volta pro peito aberto. Ela tentou segurar a própria pressa, falhou. Deu dois passos até a carroça e abaixou o rosto de novo.

    — Ele cansou? Perdeu controle em algum momento?

    — Não teve tempo de cansar. — A voz da Lou-reen saiu dura. — Eu acertei antes. Acabou ali.

    Hegoria ficou com a boca entreaberta, segurando a próxima pergunta. Os dedos apertaram o caderno e depois afrouxaram.

    — Isso não se sustenta como criatura natural. — A frase saiu baixa, sem teatro. — Parece coisa alterada. Feita por alguém.

    Ela ergueu o olhar devagar pra Lou-reen.

    — Alguém está criando armas.

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