Capítulo 105 — Alguém está criando armas.
Marco e Lou-reen voltaram pela rua principal de Velunthar com neve batendo de lado. Eles tinham refeito cada curva que Halikah apontara, do portão do colégio até a esquina onde a rua estreitava. A neve nova cobria tudo numa camada fina, lisa demais.
Lou-reen encostou a luva no batente de uma casa. Neve grudada no metal, intacta. Ela puxou a mão de volta.
— Nada.
Marco levantou o olhar do chão e passou a varrer cerca, muro, janela baixa. Neve inteira, sem raspão, sem sinal de luta. Gente entrando e saindo, sal nos ombros, rostos vermelhos. Rotina de inverno engolindo o resto.
Eles passaram pelo portão do QG. Dois soldados na entrada endireitaram a postura.
— General.
Lou-reen só avançou.
O som de roda rangendo veio do pátio interno. Uma carroça grande parou torta perto do poço. A estrutura tinha barras extras de metal por cima do eixo. Placas presas nas laterais, para segurar o peso.
Kalamera desceu do banco. As botas bateram na neve dura. Ela ficou com a mão na barra reforçada, conferindo o aperto. O tecido que cobria a carga estava amarrado por cordas grossas. Debaixo, um volume humanoide pesado, ombros largos, pernas rígidas.
Lou-reen mudou de direção na hora.
— Levem para o galpão de armas no fundo.
Kalamera puxou a rédea e fez a carroça avançar devagar.
Lá dentro, fileiras de suportes, caixas fechadas, uma bancada comprida sob uma janela estreita. A luz do dia entrava fraca, mas entrava.
Kalamera guiou a carroça até o centro do chão de pedra. Parou com a lona virada para a bancada. Puxou o freio com o pé e prendeu a rédea num gancho de ferro.
Lou-reen entrou atrás, passos firmes. Venia entrou junto, em silêncio. Marco entrou por último. Kalamera passou a mão na barra reforçada mais uma vez, só pra confirmar que nada cedeu no caminho.
Lou-reen encostou a mão na lona.
— Tirem.
Dois soldados puxaram os nós e a corda cedeu. A lona saiu em dobras pesadas e caiu sobre a bancada.
A luz da janela pegou o corpo de lado.
Ele ocupava metade da carroça. Ombros largos demais, peito alto, braços grossos pendendo perto das tábuas. A pele escura tinha brilho opaco, como couro molhado. Em alguns pontos, a superfície parecia mais espessa, irregular, com volumes por baixo empurrando.
Lou-reen subiu na roda e apoiou a bota na lateral da carroça. Ela inclinou o corpo, olhando de cima.
O corte no peito era dela. Linha limpa onde a lâmina entrou. O rasgo aberto era o fim do serviço. O sangue tinha virado crosta escura.
Marco ficou no chão, perto da frente, medindo com o olho a largura do torso e o tamanho das mãos. Ele passou a ponta da luva perto da pele, sem encostar, só pra ver se havia calor sobrando. Nada.
Kalamera ficou do lado da carroça, mão na barra reforçada.
— Ele é pesado demais. Eu tive que reforçar tudo pra não partir no caminho.
Ela olhou o eixo, depois a lona no chão.
— Se a estrada tivesse pior um pouco, a carroça ficava lá.
Lou-reen assentiu uma vez, sem tirar os olhos do corpo.
A porta do galpão abriu e fechou de novo, passos firmes no chão de pedra.
— General.
Lou-reen virou só o suficiente pra ver quem era.
— Eu sou a tenente Hegoria Riaso. — A voz saiu limpa. — Me chamaram.
Lou-reen apontou com o queixo.
— Achei que fosse um troll.
A tenente já estava perto, mão estendida, mas parou antes de tocar.
— Posso?
Lou-reen deu espaço.
Hegoria apoiou os dedos na borda da carroça e inclinou o rosto para o peito aberto, como quem lê uma página.
Marco manteve o olhar nela.
“Eu tinha esquecido que existe gente assim aqui”, pensou. “A Essência da Restauração já resolve tanta coisa.”
“A Restauração que você usa não é padrão”, a Nova respondeu. “A comum só fecha corte raso e apaga contusão leve. O resto fica na mão de curandeiro. Osso quebrado, doença, infecção.”
Marco fechou a mão devagar. A lembrança da luz dourada fechando carne veio junto.
“Então por que a minha…?”
Nova não perdeu tempo. “Porque eu sei medicina. Eu sei anatomia. Eu guio a essência. Sem isso, você só estaria jogando energia e torcendo.”
A tenente ajustou a posição das lentes com um dedo e voltou a olhar o corpo.
A Nova completou, sem cerimônia.
“E ela? No seu idioma, isso é uma doutora.”
Hegoria aproximou o rosto do peito aberto e virou a cabeça, buscando ângulo. Ela apontou com um dedo, sem encostar na carne.
— A lâmina entrou aqui. Fundo e direto. — O dedo desceu um pouco. — Perfuração no lugar certo. Direta no coração.
Ela ergueu o olhar, uma vez.
— Foi você?
— Foi. — Lou-reen não mudou o tom.
Hegoria voltou ao rasgo. Os olhos correram pela borda, pela profundidade, pela crosta. Depois desceram pela pele escura, parando em manchas mais claras, chamuscadas, e em pontos onde a carne parecia dura demais.
Ela murmurou, baixo, mais pra si.
— Aqui tentou abrir. E aqui. Pressão por dentro.
Ela inclinou a cabeça e prendeu a respiração por um segundo, lendo o padrão com calma.
— Forçou o corpo. Não queimou por fora. Estourou por dentro.
Lou-reen ficou ao lado da roda.
— Eu achei que fosse um troll. — Ela falou como relatório. — Não se movia como um. Força e velocidade fora da curva. E usou magia.
Na palavra “magia”, Hegoria disparou na direção da Lou-reen. Ela agarrou o punho da general com as duas mãos, firme demais.
— Que tipo de magia?
Lou-reen travou por um instante. O olhar desceu para as mãos da tenente, depois voltou pro rosto atrás das lentes.
— Tenente. Você pode me soltar?
— Que tipo? — Hegoria não soltou.
— …Fogo.
Hegoria prendeu o ar.
— Você viu de onde saiu?
Lou-reen hesitou de novo, como se estivesse reencenando a estrada na cabeça.
— Da mão. Bolas de fogo.
— Bolas. Mais de uma?
Lou-reen puxou a mão de leve, sem força, só pra marcar limite.
— Em rajadas. Uma atrás da outra.
Hegoria abriu a mão no ar, desenhando a sequência.
— Rajadas.
A mão dela foi até o caderno preso no cinto. Ela puxou, rabiscou duas linhas rápidas, voltou.
— Qual o intervalo?
Lou-reen ajeitou a luva, dedo por dedo.
— Um… dois segundos.
— Distância?
— Vinte passos.
Hegoria já abriu a boca de novo. Lou-reen ergueu a mão.
— Chega de perguntas.
Hegoria fechou o caderno com força demais e prendeu contra o peito.
— Eu preciso registrar—
— Você registra depois. — Lou-reen apontou com o queixo pro corpo. — Eu tenho gente sumida lá fora.
Hegoria ficou dura por um instante. O olhar escorregou de volta pro peito aberto. Ela tentou segurar a própria pressa, falhou. Deu dois passos até a carroça e abaixou o rosto de novo.
— Ele cansou? Perdeu controle em algum momento?
— Não teve tempo de cansar. — A voz da Lou-reen saiu dura. — Eu acertei antes. Acabou ali.
Hegoria ficou com a boca entreaberta, segurando a próxima pergunta. Os dedos apertaram o caderno e depois afrouxaram.
— Isso não se sustenta como criatura natural. — A frase saiu baixa, sem teatro. — Parece coisa alterada. Feita por alguém.
Ela ergueu o olhar devagar pra Lou-reen.
— Alguém está criando armas.

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