Capítulo 106 — Eu gosto de estar preparada.
Lou-reen ficou de frente pra mesa, a mão na guarda da espada. Olho firme na doutora.
— Como assim armas?
Hegoria manteve a postura perto da bancada. Ela olhou o corpo de cima a baixo, sem pressa.
— Isso não nasceu assim. Alguém pegou uma base… e forçou o corpo a segurar uma carga de essência muito acima do normal. — A ponta do dedo parou a um palmo do tórax aberto. — E além de técnica, ele soltou magia. Fogo, controle. Isso exige estrutura por dentro.
Lou-reen estreitou o olhar.
— Como?
Hegoria deixou o olhar escorregar até a bancada encostada na parede. Martelo, punção, talhadeira, um frasco de óleo, pano sujo de fuligem. Ela voltou pro corpo.
— Eu preciso abrir pra descobrir.
Marco ficou do lado oposto da mesa, o frio mordendo a nuca por baixo da gola. Ele fez o queixo levantar um pouco.
— Foi isso que eu perguntei ontem. Autópsia.
Kalamera virou a cabeça na hora. Quatro mãos pararam ao mesmo tempo, duas com luva, duas escondidas sob tecido.
Lou-reen encarou Marco.
— Autópsia?
— Abrir e examinar por dentro. — Marco marcou o ar com dois dedos, como se seguisse uma linha. — Cortar camadas. Ver músculo, osso, órgãos. Procurar alteração: tecido endurecido, deformação, ponto saturado de essência.
Hegoria ergueu os olhos pro Marco por um instante, como se aquilo tivesse sido útil. Ela virou pra Lou-reen e pediu, seca:
— General. Eu posso fazer?
Lou-reen não piscou.
— Pode. — Ela levantou um dedo. — Mas eu vou ser a primeira a saber do que você achar. Nada sai daqui sem passar por mim.
Hegoria assentiu, sem trocar o tom.
Lou-reen olhou o corpo outra vez.
— Até o fim do dia. — A voz dela bateu na madeira e ficou. — Eu não quero isso aqui impregnando o galpão.
Ela virou o ombro e pegou um soldado na lateral do campo de visão.
— Cava uma cova. Agora. Afastada. Antes de escurecer, esse corpo desce.
— Sim, general.
O soldado saiu na hora, botas raspando pedra.
Lou-reen apontou pra porta e travou o olhar em Venia.
— Você fica aqui. — A mão dela marcou o espaço ao lado do batente. — Olho nela e na porta. Ninguém entra sem ordem.
Venia endireitou o corpo, caderno contra o peito. Ela ficou no ponto exato onde via a mesa, a bancada e as mãos da doutora.
— Entendido.
Lou-reen segurou o olhar em Hegoria mais um instante. Depois virou e foi pra saída, levando Marco e Kalamera junto. Venia ficou no galpão com o soldado da entrada, a luz das lanternas marcando a mesa e o corpo no centro.
Do lado de fora, os três pararam na neve batendo de lado. O galpão ficou atrás, luz vazando pela fresta da porta.
Marco olhou a rua e depois pro escuro além das casas.
— Se alguém pegou alguma criatura pra fazer isso, eles precisam de um lugar pra mexer nela. Não é coisa que se faz no meio da estrada.
Lou-reen assentiu uma vez.
— Tem razão. A gente precisa descobrir onde é.
Kalamera varreu as casas com o olhar, a neve apagando o fim da rua.
— Isso tem a ver com os desaparecimentos?
Marco olhou de novo pro caminho, tentando imaginar alguém andando ali, numa noite dessas, e dando de cara com uma coisa grande demais pra ser confundida com homem.
— Talvez alguém tenha esbarrado sem querer… e foi silenciado.
Kalamera não demorou.
— É possível. Mas onde seria? Como alguém cria algo assim?
Marco deu de ombros.
— Com muita essência, pelo visto.
Kalamera virou um pouco o rosto pra Lou-reen.
— Vocês não conseguem sentir de novo? A mesma… coisa?
Lou-reen abriu o braço, pegando a vila inteira no gesto.
— Aqui tem essência demais. Diferente da estrada. Aqui eu sinto tudo ao mesmo tempo. Não dá pra saber o que é o quê.
Marco fez um gesto pequeno com a mão enluvada, como se puxasse algo do ar.
— Se a gente tivesse um radar…
Lou-reen e Kalamera olharam pra ele no mesmo tempo.
— Um quê? — Kalamera.
— Você manda um pulso. — Ele abriu a mão, fechou. — Ele bate no que está à frente e volta. O retorno diz onde está, a que distância, se está se mexendo. É eco, só que em vez de som, você usa um sinal.
Lou-reen franziu a testa.
— E você quer fazer isso com essência?
— Seria o jeito daqui, sim.
Kalamera ficou um segundo parada, encarando Marco como se já estivesse montando peças na cabeça.
— Pra isso funcionar, a gente precisa de referência. Sintonia. — Ela bateu o dedo na luva. — Senão, qualquer variação vira leitura. Ruído.
Marco apontou pra porta do galpão, sem olhar pra trás.
— Usa um resquício do corpo. Ele estava impregnado. Se a gente capturar isso, vira assinatura pra calibrar o aparelho.
Lou-reen virou metade do rosto.
— Eu mandei enterrar até anoitecer. — Ela apontou com o queixo pro galpão. — Se vocês querem um resquício, é agora. E esse “radar” tem que existir antes disso.
Marco assentiu.
— Entendido.
Kalamera já estava virando o corpo.
— Eu vou precisar de selenita. Ela retém essência. A gente encosta num ponto saturado, ela grava. A estrutura pode ser metal comum. Runas simples pra emitir e captar retorno. Não vai ser alcance longo. Vai ser curto, mas dá pra varrer rua por rua se estiver calibrado.
Lou-reen levantou o queixo, sentindo a neve bater no capuz.
— Vocês dois pra oficina. — A voz saiu seca. — Eu vou rodar a vila com alguns soldados. Se eu sentir qualquer coisa fora do normal, eu corto o caminho e aviso.
Marco já ajeitou a bolsa no quadril. Kalamera puxou o ar, mão firme na luva. Lou-reen apontou pro fim da rua, onde os becos começavam a apertar entre as casas.
— Se esse lugar existe, eu vou sentir.
Dentro do galpão, Hegoria esperou um instante depois que a general tinha saído, então virou a cabeça pro guarda.
— Traga a mala. Está do lado de fora.
O soldado hesitou só o tempo de respirar e saiu.
Venia não mexeu um passo.
— Você trouxe isso como se já soubesse o que ia encontrar.
Hegoria deixou um riso escapar, baixo, sem pressa. Quando a mala entrou, pesada, ela encaixou a mão no fecho.
— Eu gosto de estar preparada.

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