Capítulo 107 — Você não tem cara de soldado.
Marco empurrou a porta da forja do Exército e entrou com Kalamera logo atrás.
O calor bateu seco no rosto, rasgando de uma vez o frio da neve que tinha grudado no casaco do lado de fora. Um cheiro pesado de carvão, óleo queimado e metal quente. O lugar era pequeno: uma fornalha, duas bancadas, ferramenta gasta pendurada na parede, ferro bruto empilhado num canto.
Nada daquilo lembrava o Distrito das Forjas.
Não tinha o barulho constante de dezenas de martelos se respondendo de um galpão pro outro. Não tinha o brilho largo das calhas de fogo cortando a pedra. Não tinha braço mecânico, trilho de carga, equipe correndo entre bancada e forno, nem o peso de uma oficina feita pra produzir pro Império inteiro sem parar.
Aquilo era uma forja de fronteira. Apertada, funcional. Feita pra manter espada, armadura e ferragem de carruagem vivas no inverno.
Kalamera varreu tudo com os olhos.
— Vai servir.
Um ferreiro mais velho saiu da bancada do fundo. Ombros largos, barba grisalha queimada nas pontas, avental escuro marcado de fuligem antiga. Veio andando sem pressa, mas com cara de quem mandava ali.
Marco virou pra ele.
— Preciso montar uma ferramenta. Urgente. — apontou pra Kalamera. — Ela vai fazer a montagem. Só precisa de—
O homem o cortou no meio.
— Ah, não. Mais gente querendo ferramenta estranha na minha oficina, não. — o olhar passou pelos dois e voltou pra bancada. — Aqui é forja do Exército. Aqui era pra sair arma e armadura.
A vista dele desceu pras próteses de Kalamera.
— Isso aí é consequência de quem não sabe mexer com fogo. — ergueu o queixo pra ela. — Você não encosta na minha forja.
Marco segurou o olhar dele.
— É uma ordem da General Lou-reen.
O ferreiro deixou o olhar correr por Marco inteiro, sem pressa, como quem tentava entender o que ele fazia numa forja do Exército, e a desconfiança no rosto dele só aumentou.
— Você não tem cara de soldado. — o tom saiu seco. — E eu não vou abrir minha forja porque um estranho entrou aqui dizendo nome de uma general.
Marco abriu a boca para responder, mas travou.
Kalamera soltou o ar pelo nariz e passou por ele, como quem aceitava que não tinha outro jeito.
— Eu sou Kalamera Wynrae. Vim com a General Lou-reen.
Ela ergueu uma das mãos de metal entre os dois, sem desviar os olhos do ferreiro.
— Sabe de que clã é esse nome, não sabe? As runas que você grava nas suas armas começaram nas mãos de um Wynrae. E eu preciso da sua forja pra servir o Império.
O ferreiro a olhou de novo.
Dessa vez o olho parou nas próteses, subiu pro cabelo verde, desceu pro rosto dela. A testa fechou. Ele deu meio passo à frente.
— Espera.
Os olhos apertaram mais.
— Então é você.
A voz saiu menos áspera, atravessada por reconhecimento.
— A filha do Hersperon. A menina que ele pôs na própria bancada.
A mão dele fechou no avental.
— Traidor desgraçado.
Kalamera manteve o olhar firme.
— Eu não sou meu pai.
O ferreiro ficou em silêncio por um instante, a mão ainda presa no avental afrouxou devagar.
— Do que vocês precisam?
Marco respondeu na hora.
— Selenita bruta pra cortar um disco. Um metal leve, que dê pra abrir e moldar sem quebrar, pra servir de base e encaixe. Cobre em fio ou em lâmina fina. E eu vou precisar de uma bancada livre, ferramenta de precisão e espaço pra montar tudo aqui.
Marco correu o olho pela oficina, contando nos dedos.
— E um disco de vidro do mesmo tamanho, mas isso a gente fecha depois que desenhar.
Ele apontou pra bancada.
— A ferramenta vai acender quando encontrar a assinatura certa e mostrar a direção.
O ferreiro ficou olhando pra Marco por um segundo a mais, testa fechada, sem ter entendido metade do que acabou de ouvir.
Então virou de lado e apontou com o queixo.
— Cobre ali. Chapa leve naquela pilha. Ferramenta fina na parede da esquerda. A bancada do fundo fica pra vocês.
Ele puxou o avental uma vez no peito.
— Vou no depósito buscar selenita. O vidro eu vejo com o vidraceiro. Se quiserem isso mesmo, decidam logo o tamanho.
Os dois foram até a bancada do fundo.
Kalamera puxou um pedaço de carvão de cima da madeira marcada e pegou uma folha de pergaminho. Marco ficou do lado, acompanhando o movimento das quatro mãos. Uma segurou o carvão, outra firmou o pergaminho na bancada, enquanto as duas de baixo tiravam as ferramentas soltas do caminho.
Ela riscou um círculo rápido no pergaminho. Marco olhou e franziu a testa.
— Grande demais.
Kalamera encostou a ponta do carvão no desenho e foi marcando pontos ao redor do círculo.
— Tem peça demais aí dentro. Peça que precisa de ajuste fino, encaixe, folga certa. Menor que isso, eu não fecho direito aqui.
Ele pegou o carvão da mão dela e desenhou outro círculo ao lado, menor.
— Tem que caber na mão.
Kalamera baixou os olhos pros instrumentos espalhados na parede, pras pontas grossas, pras tenazes pesadas, pros formões gastos. Depois voltou pro risco na madeira.
— Com as ferramentas desse lugar, menor que isso, eu não vou conseguir encaixar por dentro.
Marco apontou pro círculo menor.
— Se ficar grande demais, atrapalha. A gente vai levar isso na rua, no frio, correndo atrás de sinal.
Ela tomou o carvão de volta e abriu um terceiro círculo, no meio dos dois.
— Se ficar pequeno demais, eu não encaixo selenita, metal e leitura sem esmagar tudo.
Marco cruzou os braços e encarou os três riscos.
— Eu não vou sair por Velunthar carregando uma bandeja.
Kalamera apagou parte do traço com a lateral da mão metálica. Refez a linha um pouco mais contida. Parou. Marco se inclinou, pegou o carvão outra vez e fechou um pouco mais.
Ela olhou o desenho final.
Depois bateu a ponta do carvão no centro.
— Desse tamanho.
Marco mediu com os olhos. Estava do tamanho de um prato. Ele fez uma careta, mas assentiu.
Ele pegou o pergaminho e foi até o ferreiro.
— Precisa ser desse tamanho.
O homem tomou a folha da mão dele, baixou o olho pro círculo, mediu com os dedos e fez um ruído baixo pelo nariz.
— Certo.
Dobrou o pergaminho uma vez e enfiou no avental.
— Vou buscar a selenita e já passo no vidraceiro.
Ele saiu sem falar mais nada.
Kalamera já tinha virado pra pilha de metal. As mãos de cima puxaram a chapa leve e o cobre. As de baixo limparam a bancada do fundo, abrindo espaço pro que vinha.
Marco voltou junto e começou a abrir espaço. Empurrou uma tenaz pro canto, tirou duas ferramentas soltas do meio da madeira, puxou um pano velho e limpou a fuligem espalhada.
Quando se abaixou pra ver o que tinha numa caixa de descarte ao lado da bancada, os dedos bateram numa peça fina demais pra ser arma.
Ele puxou.
A lâmina era estreita e delicada, com a ponta quebrada.
“Parece um bisturi”.
A voz da Nova entrou na mente dele.
“Um bisturi? Em Taeris? Eles nem sabem o que é uma autópsia.”
Marco largou a peça de volta na caixa e ergueu o olhar pra bancada.
— Você acha que a gente termina a tempo?
Kalamera já estava de frente pra fornalha. Uma das mãos puxou os óculos escuros do bolso do casaco e encaixou no rosto. Outra ajustou a chapa na borda da bancada. As de baixo foram direto pras ferramentas.
Ela mexeu no fogo.
A chama subiu na hora, ganhando corpo dentro da fornalha.
— Vai dar.
— Vai. Eu dou conta.

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