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    Lou-reen avançou em silêncio, a atenção presa no ar gelado da rua.

    Marlen vinha um passo atrás, capa fechada até o pescoço, espada na cintura. Do outro lado, um soldado da guarnição local acompanhava em silêncio, lança curta nas costas, mantendo o olho nas esquinas.

    A essência primordial corria por Velunthar inteira, espalhada em camadas finas entre casa, oficina, soldado e lareira. Lou-reen deixou o fundo passar e foi atrás do desvio: algum pico brusco, pressão parada, fluxo empurrado forte demais numa direção só.

    A criatura da estrada carregava esse peso no corpo.

    Se tivessem criado aquilo dentro da vila, algum ponto ainda haveria de pulsar com a mesma marca.

    Marlen rompeu o silêncio sem desviar o olhar da rua à frente.

    — A neve cobriu tudo. O que a gente está procurando?

    Lou-reen virou a próxima esquina com a atenção ainda presa no ar da vila.

    — Uma coisa atacou a gente na estrada ontem à noite.

    Marlen olhou de lado na hora.

    — Que coisa?

    — Ainda não sabemos o que era. Mas tinha essência demais naquele corpo.

    Marlen franziu a testa.

    — Essência demais?

    — Concentração alta demais, fluxo pesado. Movimento onde não devia ter.

    Marlen segurou o passo por meio segundo.

    — Você acha que estão fazendo isso em Velunthar? E que isso tem a ver com os desaparecimentos?

    — Ainda não sei se tem. — Lou-reen manteve os olhos na rua à frente. — Mas, se aquele bicho saiu daqui, existe um lugar onde alguém mexeu com essência nesse nível.

    O vento empurrou neve entre as casas.

    — E, se os desaparecidos tropeçaram nesse lugar sem querer… — Marlen começou.

    — …viraram problema pra quem estava escondendo aquilo. — Lou-reen fechou a frase. — E foram silenciados.

    O frio apertou a rua por um instante.

    — Quem fez aquilo não parou no primeiro. — Lou-reen seguiu no mesmo ritmo. — Ninguém força um corpo daquele jeito uma vez só e some. Se estão fazendo mais, algum ponto da vila ainda vai carregar a marca.

    Marlen apertou a capa no peito e voltou a olhar a rua.

    — E é isso que a gente vai achar.

    — É isso que eu vou achar.

    Mais adiante, um passo menor começou a repetir o ritmo da patrulha por trás.

    Lou-reen percebeu sem se virar de imediato. Era um passo leve demais para soldado, mas firme demais para gente andando à toa na neve. Quando olhou por cima do ombro, viu Halikah.

    A garota vinha alguns metros atrás, encolhida dentro do casaco, neve prendendo no cabelo escuro e na barra da roupa. Mantinha as mãos perto do corpo por causa do frio, enquanto acompanhava cada detalhe da general: a passada firme, a postura reta, o jeito de cortar as esquinas sem perder ritmo e as pequenas mudanças no corpo sempre que a atenção dela se voltava para o ar da rua.

    Halikah viu que tinha sido notada e endireitou a coluna na hora.

    Mesmo assim, continuou andando atrás delas.

    Marlen virou o rosto primeiro.

    — Volta pra casa.

    Halikah freou por um instante, neve rangendo sob a bota. O olhar foi em Marlen, depois correu para Lou-reen.

    — Eu não vou atrapalhar.

    — Vai. — Marlen cortou. — Isso aqui não é passeio.

    Halikah apertou os dedos dentro das mangas, segurou o frio e o resto junto, e deu mais um passo.

    — Eu quero ser útil.

    Lou-reen não parou. Manteve o ritmo, os olhos na rua, a atenção espalhada pelo ar da vila.

    — Quer ser útil? — perguntou, seca.

    Halikah assentiu na hora.

    — Então sente essa rua.

    Halikah piscou.

    — Sentir o quê?

    — A essência primordial. — Lou-reen manteve os olhos na frente. — Como estão usando.

    A garota travou só meio segundo. Então puxou a atenção para o ar da rua, ainda sem entender direito o que a general queria medir ali.

    — Estão puxando em todas as casas… — Halikah murmurou, mais para si do que para elas. — Lareira, coisa comum.

    Lou-reen não respondeu.

    Halikah estreitou o olhar para a fileira de casas à esquerda.

    — Os Belvaren estão puxando mais. Estão com duas lareiras acesas.

    Lou-reen virou o rosto para ela.

    O olhar demorou um instante a mais do que antes, medindo a garota como se tentasse decidir se aquilo tinha vindo da leitura dela do fluxo da rua ou de informação que ela já tinha da vila.

    Halikah percebeu a encarada, engoliu seco, e continuou com a atenção presa nas casas.

    — Na dos Darev… duas pessoas. — Ela apontou mais adiante, sem erguer muito a mão. — Não estão só puxando pra se aquecer. Estão treinando.

    Marlen franziu a testa.

    — Treinando?

    Halikah assentiu, ainda concentrada.

    — Dá pra sentir. A essência entra… e muda. Vai pro corpo. Braço, perna, tronco. Eles estão se fortalecendo.

    Lou-reen parou.

    O vento passou entre as casas e puxou neve pelo chão. A general fechou mais a atenção no trecho indicado.

    Lou-reen já tinha percebido que havia uso de essência ali, misturado ao resto da rua como mais um consumo comum entre casa e lareira. Depois que Halikah apontou o treino, o desenho mudou dentro da percepção dela. O fluxo deixou de ser só presença e se revelou no que estava virando: essência puxada para dentro do corpo e convertida em força física.

    Lou-reen olhou de novo para Halikah.

    — E você percebeu isso pelo fluxo?

    Halikah travou só um segundo.

    — Percebi.

    Lou-reen sustentou o olhar nela por mais um instante, depois voltou para a rua.

    — Certo, você vem comigo, mas fica do meu lado. Não corre na frente, não age sozinha e não tenta me provar nada

    Halikah bateu continência na hora.

    — Sim, general.

    A patrulha seguiu.

    Lou-reen manteve a atenção aberta na vila inteira, deixando a percepção correr por rua, telhado, casa, oficina e beco, atrás de qualquer pico mais pesado, qualquer concentração parada, qualquer uso grande demais para passar por normal.

    Halikah seguiu ao lado da general, o olhar indo de casa em casa enquanto punha em voz baixa o que sentia.

    — Aqui é só lareira e água esquentando.

    Lou-reen só assentiu.

    Mais alguns passos.

    — Nessa, tem panela no fogo e alguém puxando essência nas mãos. Deve estar lavando roupa com água quente.

    Outro aceno.

    Halikah estreitou o olhar para a casa seguinte.

    — Ali no fundo, um homem está reforçando as pernas. Pouca coisa. Deve ter voltado do porto agora.

    Lou-reen seguiu no mesmo ritmo, deixando a garota continuar.

    — Naquela, duas pessoas estão dividindo a mesma lareira. E na do lado, uma criança está puxando errado. A essência sobe, quebra e some.

    A rua foi afinando até terminar num trecho mais aberto, com menos casa, menos movimento e mais vento correndo solto entre a neve. Uma construção ficava mais afastada das outras, sozinha no fim.

    Halikah desacelerou meio passo.

    A atenção dela prendeu de uma vez na casa do fim.

    — Lá não.

    Lou-reen virou o rosto só o suficiente para pegar o tom.

    Halikah estreitou os olhos, como se tentasse separar um fio no meio de vários.

    — Estão puxando demais.

    O vento passou batendo na lateral da construção. Neve riscou o chão entre as botas.

    — Demais como? — Marlen perguntou, já tensa.

    Halikah não olhou para ela.

    — Isso não é lareira nem treino. — A voz saiu mais baixa. — Estão forçando em alguma coisa.

    Lou-reen parou. A essência vinha abafada, escondida por baixo do resto, mas estava ali com a mesma pressão errada que ela sentira no corpo da criatura caída na estrada, mais fraca, mais contida, e ainda assim da mesma natureza.

    O corpo dela mudou no mesmo instante.

    — Halikah, pra trás.

    A garota recuou na hora.

    Lou-reen ergueu a mão sem tirar os olhos da casa e fez um sinal curto para Marlen contornar pelo lado. A sargento saiu na neve no mesmo instante. O soldado da guarnição avançou junto com a general, ajustando a lança nas costas e levando a mão para a espada.

    Lou-reen firmou os olhos na entrada.

    — Eu vou entrar.

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