Capítulos 032 — Ecos de experiências que já deram errado.
O refeitório militar de Ayas-Kin estava especialmente movimentado naquele dia. O cheiro forte de ensopado temperado e pão recém-assado pairava no ar enquanto soldados iam e vinham conversando em meio ao barulho constante de talheres batendo contra as travessas de metal.
Lou-reen, Venia e Jenff já estavam acomodados quando Marco chegou. Ele se sentou de frente para Lou-reen, os olhos brilhando com entusiasmo.
— E então? Como foi no departamento? — Lou-reen perguntou, rasgando um pedaço de pão sem muita pressa. — Conseguiu um engenheiro pra te ajudar?
— Consegui! — Marco respondeu prontamente. — Kalamera Wynrae. Ela é uma engenheira incrível, entende muito de metais e já começou a trabalhar comigo no projeto!
Lou-reen parou de mastigar por um instante, seu olhar se estreitou quase imperceptivelmente, e seus dedos afundaram um pouco mais no pedaço de pão.
Jenff soltou um pequeno riso e ergueu uma sobrancelha.
— Uma engenheira elfa, hein? — murmurou, mal escondendo a diversão na voz.
Marco ignorou o tom e continuou:
— Já começamos a estruturar tudo. Pegamos os materiais no depósito. Inclusive conseguimos berílio!
Lou-reen franziu a testa.
— Não faço ideia do que seja isso. — Ela girou o pulso no ar, desinteressada.
Venia ergueu os olhos por um breve instante, mas permaneceu calada.
— É um metal raro e muito leve, perfeito para o que eu preciso — Marco explicou, pegando um pedaço de pão e gesticulando com ele.
Lou-reen abriu a boca para dizer algo, mas hesitou.
— Espera… Você disse Wynrae?
Ela parecia ter esquecido do leve incômodo inicial, agora mais intrigada.
— Eu conheço esse nome. Eu tenho uma espada feita por um Wynrae.
Marco piscou, surpreso.
— Sério?
— E eles foram os primeiros a descobrir como colocar runas em espadas, dando-lhes poder — continuou Lou-reen, pensativa. — Era uma técnica rara e valiosa.
Marco se recostou na cadeira, impressionado. Como se já não bastasse Kalamera ser genial por si só, ela vinha de uma linhagem de inventores brilhantes.
Ele terminou o restante da comida às pressas e se levantou.
— Preciso voltar ao trabalho. Vejo vocês depois.
Lou-reen o observou se afastar com um olhar indecifrável. Quando ele desapareceu pelo corredor, Jenff murmurou, inclinando-se para mais perto:
— Espera… Wynrae? Não foi ele quem…
***
A pequena oficina de Kalamera era um caos organizado, repleto de ferramentas, peças de metal espalhadas e pergaminhos com esquemas técnicos rabiscados em traços apressados.
No canto, uma série de protótipos de braços mecânicos estavam dispostos em suportes improvisados. Alguns pareciam novos, com articulações bem lubrificadas e estruturas reforçadas, enquanto outros estavam claramente desgastados pelo tempo, com partes enferrujadas e placas metálicas desalinhadas. Havia modelos rudimentares, peças desmontadas e tentativas abandonadas, cada uma contando uma parte da história da engenheira.
Marco observava tudo com uma curiosidade crescente. O lugar era um reflexo da mente de Kalamera: criativo, meticuloso e sempre em movimento. Enquanto ele analisava um dos protótipos mais antigos, ela trabalhava na organização de sua bancada.
Seus dois braços superiores limpavam e separavam ferramentas, posicionando cada uma no lugar exato, enquanto os dois inferiores recolhiam pequenos parafusos e ajustavam um suporte de ferro sem que ela parecesse precisar pensar nisso. O movimento era tão natural que, por um instante, Marco teve a impressão de que aqueles braços tinham vontade própria.
— Seus braços de baixo… — ele começou, inclinando a cabeça. — Eles se movem de um jeito diferente. Como se fossem independentes.
Kalamera riu, sem desviar a atenção do que fazia.
— Já me disseram isso antes. Mas não, eles não têm vida própria.
— Então como funcionam? Algum tipo de encantamento?
Ela terminou de organizar as ferramentas e se virou para encará-lo, cruzando os braços superiores enquanto os inferiores ainda seguravam um pequeno maçarico e um alicate.
— Nada tão místico assim. Eu uso manipulação de essência, mais especificamente controle de metal. Esses braços não são apenas próteses; são extensões de mim.
Marco ergueu uma sobrancelha, intrigado.
— Você os sente? Como se fossem de verdade?
Kalamera hesitou um instante antes de responder.
— Sim e não. Eu não sinto dor neles, nem temperatura, mas quando me conecto ao metal, consigo “perceber” sua forma, seu peso e sua estrutura. É difícil explicar, mas é como se minha mente se expandisse para além do meu corpo. Com treino, aprendi a movê-los sem precisar pensar muito nisso.
Ela ergueu os dois braços inferiores e mexeu os dedos metálicos habilmente, girando-os em um movimento fluido e preciso.
— É como… mexer os dedos do pé. Você não precisa ficar o tempo todo consciente do que está fazendo, mas eles estão lá, prontos para responder.
Marco cruzou os braços, absorvendo a explicação.
— Isso explica muita coisa… e levanta mais perguntas.
Kalamera sorriu de lado, pegando um pedaço de berílio e batendo levemente nele com a ponta metálica dos dedos.
— Pois guarde algumas para depois. Ainda temos muito trabalho a fazer.
Ela segurou o bloco de metal e observou sua superfície irregular, o olhar se tornando distante por um breve momento antes de balançar a cabeça, afastando algum pensamento incômodo. Ela pousou o bloco sobre a bancada.
— Agora vamos ver o que dá para fazer com esse pequeno milagre.
Antes que pudessem começar, a porta se abriu. Jenff entrou primeiro. Atrás dele, o General Grithin Kazo.
Grithin cruzou a oficina, bateu a mão espalmada no bloco de berílio de doze quilos, escutou o som seco da massa contra a bancada.
— Então… mais um Wynrae querendo mexer com berílio, hum… — sussurrou, mais para si do que para a sala.
Então se voltou para Marco:
— O depósito inteiro à sua disposição e você pega justamente o metal mais raro que temos?
— Não é arma — Marco respondeu de pronto. — Óptica. Telescópio. Captação de calor, registro. Tudo documentado.
Grithin assentiu, curto:
— Cada grama entra e sai com a minha assinatura. Relatório de percurso no fim do dia. Nada de desvio, nada fora do projeto. Se eu pedir, quero do bloco à peça.
Virou-se para Kalamera, o tom seco:
— Sargento Wynrae, trabalhe limpo e documentado. Quero ver trabalho seu, não ecos de experiências que já deram errado. — Fez uma pausa breve. — É bom ver você bem. Mantenha-se assim.
***
O restante da tarde passou em meio ao barulho de metal sendo cortado, cálculos sendo rabiscados e peças tomando forma. Marco e Kalamera trabalharam sem parar, ajustando medidas com precisão milimétrica. O tempo voou enquanto a oficina ecoava com o som ritmado das ferramentas e o murmúrio concentrado de números e fórmulas.
Quando a noite finalmente caiu, Marco esticou as costas, sentindo o peso das horas de trabalho. Apesar da empolgação em ver o projeto ganhando forma, ele soltou um suspiro e se afastou da bancada.
— Acho que já deu por hoje. Preciso registrar a posição de algumas estrelas.
Kalamera, ainda focada em um dos componentes, ergueu uma sobrancelha.
— Registrar estrelas?
— É. Mal posso esperar para termos o telescópio digital funcionando e ele fazer isso sozinho.
Ela franziu o cenho.
— Digital?
Marco abriu a boca para explicar, mas só balançou a cabeça.
— Depois eu tento te explicar. Você vai continuar aqui?
— Por mais algumas horas — disse ela, já voltando sua atenção para o trabalho.
Marco sorriu, pegou suas anotações e saiu da oficina.
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