O refeitório militar de Ayas-Kin estava especialmente movimentado naquele dia. O cheiro forte de ensopado temperado e pão recém-assado pairava no ar enquanto soldados iam e vinham conversando em meio ao barulho constante de talheres batendo contra as travessas de metal.

    Lou-reen, Venia e Jenff já estavam acomodados quando Marco chegou. Ele se sentou de frente para Lou-reen, os olhos brilhando com entusiasmo.

    — E então? Como foi no departamento? — Lou-reen perguntou, rasgando um pedaço de pão sem muita pressa. — Conseguiu um engenheiro pra te ajudar?

    — Consegui! — Marco respondeu prontamente. — Kalamera Wynrae. Ela é uma engenheira incrível, entende muito de metais e já começou a trabalhar comigo no projeto!

    Lou-reen parou de mastigar por um instante, seu olhar se estreitou quase imperceptivelmente, e seus dedos afundaram um pouco mais no pedaço de pão.

    Jenff soltou um pequeno riso e ergueu uma sobrancelha.

    — Uma engenheira elfa, hein? — murmurou, mal escondendo a diversão na voz.

    Marco ignorou o tom e continuou:

    — Já começamos a estruturar tudo. Pegamos os materiais no depósito. Inclusive conseguimos berílio!

    Lou-reen franziu a testa.

    — Não faço ideia do que seja isso. — Ela girou o pulso no ar, desinteressada.

    Venia ergueu os olhos por um breve instante, mas permaneceu calada.

    — É um metal raro e muito leve, perfeito para o que eu preciso — Marco explicou, pegando um pedaço de pão e gesticulando com ele.

    Lou-reen abriu a boca para dizer algo, mas hesitou.

    — Espera… Você disse Wynrae?

    Ela parecia ter esquecido do leve incômodo inicial, agora mais intrigada.

    — Eu conheço esse nome. Eu tenho uma espada feita por um Wynrae.

    Marco piscou, surpreso.

    — Sério?

    — E eles foram os primeiros a descobrir como colocar runas em espadas, dando-lhes poder — continuou Lou-reen, pensativa. — Era uma técnica rara e valiosa.

    Marco se recostou na cadeira, impressionado. Como se já não bastasse Kalamera ser genial por si só, ela vinha de uma linhagem de inventores brilhantes.

    Ele terminou o restante da comida às pressas e se levantou.

    — Preciso voltar ao trabalho. Vejo vocês depois.

    Lou-reen o observou se afastar com um olhar indecifrável. Quando ele desapareceu pelo corredor, Jenff murmurou, inclinando-se para mais perto:

    — Espera… Wynrae? Não foi ele quem…

    ***

    A pequena oficina de Kalamera era um caos organizado, repleto de ferramentas, peças de metal espalhadas e pergaminhos com esquemas técnicos rabiscados em traços apressados.

    No canto, uma série de protótipos de braços mecânicos estavam dispostos em suportes improvisados. Alguns pareciam novos, com articulações bem lubrificadas e estruturas reforçadas, enquanto outros estavam claramente desgastados pelo tempo, com partes enferrujadas e placas metálicas desalinhadas. Havia modelos rudimentares, peças desmontadas e tentativas abandonadas, cada uma contando uma parte da história da engenheira.

    Marco observava tudo com uma curiosidade crescente. O lugar era um reflexo da mente de Kalamera: criativo, meticuloso e sempre em movimento. Enquanto ele analisava um dos protótipos mais antigos, ela trabalhava na organização de sua bancada.

    Seus dois braços superiores limpavam e separavam ferramentas, posicionando cada uma no lugar exato, enquanto os dois inferiores recolhiam pequenos parafusos e ajustavam um suporte de ferro sem que ela parecesse precisar pensar nisso. O movimento era tão natural que, por um instante, Marco teve a impressão de que aqueles braços tinham vontade própria.

    — Seus braços de baixo… — ele começou, inclinando a cabeça. — Eles se movem de um jeito diferente. Como se fossem independentes.

    Kalamera riu, sem desviar a atenção do que fazia.

    — Já me disseram isso antes. Mas não, eles não têm vida própria.

    — Então como funcionam? Algum tipo de encantamento?

    Ela terminou de organizar as ferramentas e se virou para encará-lo, cruzando os braços superiores enquanto os inferiores ainda seguravam um pequeno maçarico e um alicate.

    — Nada tão místico assim. Eu uso manipulação de essência, mais especificamente controle de metal. Esses braços não são apenas próteses; são extensões de mim.

    Marco ergueu uma sobrancelha, intrigado.

    — Você os sente? Como se fossem de verdade?

    Kalamera hesitou um instante antes de responder.

    — Sim e não. Eu não sinto dor neles, nem temperatura, mas quando me conecto ao metal, consigo “perceber” sua forma, seu peso e sua estrutura. É difícil explicar, mas é como se minha mente se expandisse para além do meu corpo. Com treino, aprendi a movê-los sem precisar pensar muito nisso.

    Ela ergueu os dois braços inferiores e mexeu os dedos metálicos habilmente, girando-os em um movimento fluido e preciso.

    — É como… mexer os dedos do pé. Você não precisa ficar o tempo todo consciente do que está fazendo, mas eles estão lá, prontos para responder.

    Marco cruzou os braços, absorvendo a explicação.

    — Isso explica muita coisa… e levanta mais perguntas.

    Kalamera sorriu de lado, pegando um pedaço de berílio e batendo levemente nele com a ponta metálica dos dedos.

    — Pois guarde algumas para depois. Ainda temos muito trabalho a fazer.

    Ela segurou o bloco de metal e observou sua superfície irregular, o olhar se tornando distante por um breve momento antes de balançar a cabeça, afastando algum pensamento incômodo. Ela pousou o bloco sobre a bancada.

    — Agora vamos ver o que dá para fazer com esse pequeno milagre.

    Antes que pudessem começar, a porta se abriu. Jenff entrou primeiro. Atrás dele, o General Grithin Kazo.

    Grithin cruzou a oficina, bateu a mão espalmada no bloco de berílio de doze quilos, escutou o som seco da massa contra a bancada.

    — Então… mais um Wynrae querendo mexer com berílio, hum… — sussurrou, mais para si do que para a sala.

    Então se voltou para Marco:

    — O depósito inteiro à sua disposição e você pega justamente o metal mais raro que temos?

    — Não é arma — Marco respondeu de pronto. — Óptica. Telescópio. Captação de calor, registro. Tudo documentado.

    Grithin assentiu, curto:

    — Cada grama entra e sai com a minha assinatura. Relatório de percurso no fim do dia. Nada de desvio, nada fora do projeto. Se eu pedir, quero do bloco à peça.

    Virou-se para Kalamera, o tom seco:

    — Sargento Wynrae, trabalhe limpo e documentado. Quero ver trabalho seu, não ecos de experiências que já deram errado. — Fez uma pausa breve. — É bom ver você bem. Mantenha-se assim.

    ***

    O restante da tarde passou em meio ao barulho de metal sendo cortado, cálculos sendo rabiscados e peças tomando forma. Marco e Kalamera trabalharam sem parar, ajustando medidas com precisão milimétrica. O tempo voou enquanto a oficina ecoava com o som ritmado das ferramentas e o murmúrio concentrado de números e fórmulas.

    Quando a noite finalmente caiu, Marco esticou as costas, sentindo o peso das horas de trabalho. Apesar da empolgação em ver o projeto ganhando forma, ele soltou um suspiro e se afastou da bancada.

    — Acho que já deu por hoje. Preciso registrar a posição de algumas estrelas.

    Kalamera, ainda focada em um dos componentes, ergueu uma sobrancelha.

    — Registrar estrelas?

    — É. Mal posso esperar para termos o telescópio digital funcionando e ele fazer isso sozinho.

    Ela franziu o cenho.

    — Digital?

    Marco abriu a boca para explicar, mas só balançou a cabeça.

    — Depois eu tento te explicar. Você vai continuar aqui?

    — Por mais algumas horas — disse ela, já voltando sua atenção para o trabalho.

    Marco sorriu, pegou suas anotações e saiu da oficina.

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