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    Para ser sincero, se o Instrutor Cooper soubesse que Abel veio correndo de cinquenta quilômetros de distância, provavelmente não teria ordenado que corresse mais quinze voltas. Para ele, aquilo era muito pouco; cada volta no campo de treinamento tinha cerca de quinhentos metros, uma distância que mal servia para aquecimento.

    Abel corria tranquilamente sob os olhares hostis dos outros quinze magos. Ele não acelerou, mantendo um ritmo comum, pois não queria se destacar nem ser punido por isso.

    Uma volta, duas, três… Na décima quinta volta, as sobrancelhas do Instrutor Cooper franziram. Ele não se importava com a fraqueza física dos magos em treinamento, pois todos eram assim, mas não tolerava alguém que parecesse estar provocando, e era exatamente assim que via Abel.

    Como um Grande Cavaleiro Comandante, Cooper percebia que o físico de Abel permitiria uma velocidade muito maior, mas o rapaz estava apenas “gastando tempo” com passos lentos. O pior era que, após quinze voltas, Abel não tinha sequer uma gota de suor, contrastando brutalmente com os outros quinze magos que, ao terminarem dezessete voltas, pareciam cães exaustos.

    Para o Instrutor Cooper, aquilo era um deboche contra os outros magos e um sinal de desprezo contra sua autoridade.

    “K3516, corra mais duas voltas! Você deve percorrer a mesma distância que todos os outros!” Gritou Cooper, apontando para Abel quando ele estava prestes a terminar a décima quinta volta.

    Abel lançou um olhar para o Instrutor Cooper, sem entender por que ele era tão hostil, mas continuou e completou as duas voltas finais.

    Quando Abel terminou, os magos que descansavam já haviam recuperado o fôlego. Ao comando de “Formar!” do Instrutor Cooper, os quinze magos se alinharam. Abel posicionou-se na extremidade direita; Cooper olhou e não disse nada, já que a altura de Abel tornava aquela posição adequada.

    “Não me importa qual é a origem de vocês, nem quão poderosos se tornarão no futuro. Agora, sob meu comando, vocês são soldados comuns e devem dominar as habilidades que um soldado exige. Não permitirei que ninguém passe no treinamento apenas por causa de suas conexões”, repreendeu Cooper em voz alta.

    Tanto Abel quanto os outros magos sabiam que aquilo era direcionado a ele. Afinal, entrar no campo de treinamento quebrando as regras exigia uma influência considerável.

    “Sim, Instrutor!” Responderam os quinze magos em uníssono.

    Abel ficou surpreso. Embora os magos tivessem se tornado militares ao receber o Cartão militar, transformar quinze deles em soldados que obedeciam a ordens em apenas dois meses mostrava que Cooper era muito competente.

    “K3516, não ouvi sua resposta! Sempre que eu falar, responda Sim, Instrutor ou Não, Instrutor!” Cooper caminhou rapidamente até Abel e gritou em seu rosto.

    “Sim, Instrutor!” Abel ignorou a provocação. Embora tivesse acabado de chegar, o layout da Cidade do Milagre deixava claro que era uma cidade de administração militar onde as ordens eram absolutas. Enquanto Cooper fosse seu superior, ele suportaria, desde que não passasse dos limites.

    “Muito bem. Agora o Instrutor Layard levará vocês para aprenderem sobre tratamento de ferimentos em campo de batalha!” Cooper assentou e deu a ordem para o grupo.

    O Instrutor Assistente Layard fez um gesto para Cooper antes de dar uma ordem aos magos: “À esquerda! Nosso destino é a Sala de Treinamento Um!”

    Abel seguiu no fim da fila e percebeu que apenas Layard os acompanhava, enquanto Cooper ia resolver outros assuntos. Não foi o único a notar; a tensão do grupo relaxou visivelmente.

    “K3516, aqui é o K3515. Olá! Não se preocupe com o que acabou de acontecer; nós só estávamos fingindo para o Instrutor Cooper. Ninguém está realmente bravo com você,” disse o jovem mago à frente de Abel, virando-se com um sorriso.

    Era um mago de cerca de trinta anos, com cabelos castanhos. Ele não parecia se importar em ser reconhecido, pois não usava máscara. Sua atitude agora era completamente diferente daquela no pátio.

    Faz sentido; ninguém que se torna mago é idiota. Quem seria louco de ofender um mago capaz de quebrar as regras para entrar no treinamento?

    “Olá. Acabei de chegar, precisarei muito da sua ajuda”, respondeu Abel educadamente.

    Dos quinze magos, a maioria usava máscaras. O Mago avançado Dunn mencionou que usar máscara era uma tradição: significava abandonar a identidade anterior para se tornar um protetor da humanidade. Muitos magos, especialmente os de linhagens antigas, seguiam esse costume.

    “K3516, seu físico é incrível. Estou aqui treinando há dois meses e mal consigo terminar a corrida”, comentou K3515 com admiração.

    O físico sempre foi o ponto fraco dos magos. Geralmente, quanto menos tempo se passava como Mago Aprendiz, menor era a erosão do corpo pela mana. Mas o cultivo de um mago nunca é rápido; ao longo dos anos, o físico acaba sofrendo danos e, mesmo com poções, mal se mantém no padrão de uma pessoa comum.

    “Acho que apenas nasci com um físico um pouco melhor”, respondeu Abel suavemente.

    “A propósito, percebi que todos temem o Instrutor Cooper, mas ninguém parece ter medo do Instrutor Layard”, perguntou Abel a K3515, observando Layard à frente.

    “O Instrutor Layard não é rigoroso. Se não cometermos erros, ele não nos pune. Mas o Instrutor Cooper parece ter ódio de todos os magos. Desde o primeiro dia, ele exige o impossível; se erramos, ele nos insulta ou nos bate. Ele realmente nos treina como se fôssemos recrutas rasos, muitos aqui já apanharam dele”, disse K3515 em voz baixa, olhando ao redor.

    “Ninguém reclama?” Perguntou Abel, estranhando.

    No Continente Sagrado, os magos eram a classe mais respeitada. Mesmo um aprendiz de nível baixo tinha status elevado na sociedade comum. Ver magos oficiais sendo agredidos por instrutores na Cidade do Milagre era algo inimaginável para ele.

    “Ninguém se envolve nisso. Somos como recrutas; quando os três meses de treinamento acabarem, tudo passa. Dizem que os magos antigos também passavam por isso”, respondeu K3515, balançando a cabeça.

    Ao anoitecer, o treinamento do dia terminou. Abel já conhecia a maioria dos colegas, do K3501 até ele, o K3516. Embora não soubesse os nomes, sua percepção indicava que todos ali eram magos de sexto nível.

    “K3516, venha jantar comigo!” Chamou K3515. Eles eram os mais amigáveis no grupo. Fosse por interesse ou por natureza amigável, Abel aceitou de bom grado ter alguém com quem conversar naquele lugar estranho.

    Após o fim do treino, a diferença para um quartel comum ficou clara. Os instrutores sumiram e os magos ficaram livres. Dos dezesseis magos, apenas dez apareceram para o jantar; os outros seis sumiram.

    “K3515, existem outros lugares para comer?” Perguntou Abel, curioso.

    “Alguns magos de grandes famílias não se acostumam com a comida daqui, então gastam pedras de mana para comprar mantimentos próprios”, explicou K3515.

    “Não há treino à noite?”

    “Como haveria? Somos magos, a noite é o momento mais importante para nossa meditação. Desde que voltemos ao alojamento no horário estipulado, o tempo após o treino é livre.”

    Abel percebeu então que magos tinham privilégios em qualquer lugar. Mesmo em um ambiente de gestão militar rígida e sendo apenas “recrutas”, certas prerrogativas nunca seriam retiradas.

    O jantar era gratuito, sem opções de escolha, mas não era tão ruim quanto K3515 sugerira. Era quase comparável ao que Abel comia na Torre Mágica de Morton: pão branco com muita manteiga (provavelmente para repor energias), água com mel, peixe defumado, um pequeno pedaço de carne bovina e uma porção de feijão. Abel pensou que, se todos na cidade comessem assim, o custo diário seria astronômico.

    Ao ouvir o pensamento de Abel, K3515 riu: “Isto é refeição para magos! Ouvi dizer que o cardápio dos soldados comuns é apenas pão preto com sopa de carne. O dos cavaleiros é um pouco melhor, apenas trocam o pão preto pelo branco.”

    Ao ouvir isso, apenas uma palavra veio à mente de Abel: “Privilégio”.

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