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    Capítulo 086 – ‎Um gole, um golpe!

    Como um manto escuro, a noite descia por todo o reino de Sihêon, mas esse véu não conseguia escurecer as paredes internas da Melusina Dançante.

    Victoria Belomonte caminhava pelas ruas mais próximas à grande praça central, os seus passos leves e delicados ecoavam suavemente sobre as pedras úmidas. Nesse horário, quase não havia mais transeuntes.

    O ar frio da noite fazia com que a sua pele pálida estivesse mais alva. Os cabelos pretos e cacheados da mestre dos venenos balançavam com o vento, formavam pequenos cachos que se enroscavam no pescoço e ombros.

    A jovem do clã dos vinhos sentia o cansaço do dia a dia. Desde que ela estava em período integral no Covil do Escorpião, ela finalmente estava sentindo o pesar da rotina. Belle não deixava as coisas mais fáceis, nem mais simples.

    Mas ao menos a sensação de ser apenas mais uma, e não uma nobre no Covil, fez com que Victoria se sentisse bem, acima de tudo.

    Algo naquela noite chamava a dama para a taverna.

    Ela se aproximara das largas portas de carvalho enegrecido do Melusina, entalhadas detalhadamente com os desenhos de pequenas fadas que pareciam dançar. Mesmo do lado de fora, a jovem conseguia escutar a algazarra que se desenrolava no interior.

    Entre vozes risonhas e conversas bêbadas de entusiasmo movidas a cerveja, preenchiam seus ouvidos, criava uma cena de descontração completamente divergente da serenidade das ruas vazias.

    Ao abrir a porta, a onda de calor a atingiu, seu rosto foi banhado pela luz dos candelabros que pendiam do teto, também havia diversas tochas sob as paredes, nos fundos, uma enorme lareira ocupava um desses cantos, com as suas labaredas crepitando.

    A multidão que buscava o Melusina como ponto de distração era bastante mista, exatamente como Victoria esperou que fosse, ainda mais depois que o imperador bárbaro prometeu pagar todas as contas, atuais e futuras. Isso fez com que a clientela da taverna triplicasse.

    E lá estavam, cavaleiros com suas armaduras parcialmente removidas que sentavam-se ao lado de mercadores, conversando alegremente e compartilhando histórias de cidades, reinos distantes. Aldeões rindo e bebericando enquanto papeavam com aventureiros de guilda, criados do castelo ou de outros estabelecimentos.

    Não tardou para os bardos iniciarem uma melodia bastante contagiante, era o que fazia com que os mais animados dançassem. Victoria observava bem, o ritmo era bastante agitado e alegre, quase frenético.

    Ela encarou diversos bêbados cambaleando entre as mesas.

    “E a noite acabou de começar… Já estão assim?”

    Porém, as mesas já estavam todas lotadas. Ela passou um tempo procurando um lugar para ficar, mas não havia, a princípio: quase todas as mesas eram compostas por grupos de três ou mais pessoas. Ela percorreu o resto da taverna com os olhos. Fora quando seus olhos encontraram uma figura familiar sentada, sozinha, em uma das mesas mais próximas à lareira.

    O guerreiro da pele de ébano, Claude Hob estava ali, sua cabeça raspada estava refletindo a luz dourada das chamas.

    O que mais chamou a atenção de Victoria foi o fato de que ele estava sorrindo.

    Não era um sorriso discreto ou contido, mas sim um sorriso genuíno e aberto que iluminava o seu semblante completamente sério. Era uma forma que a jovem Belomonte não estava acostumada a ver.

    Ao redor do guerreiro, diversas canecas vazias se acumulavam sobre a mesa de madeira escurecida.

    “Ele está aqui há um tempo…”

    Pensou a dama.

    A garota sentiu uma certa curiosidade, até porque o careca raramente frequentava tavernas sozinho, ele sempre esteve colado com o seu melhor amigo, Kord, ou com a sua superior, Yelena.

    Mas, devido aos tempos remotos da Yelena estar ocupada demais com os serviços da coroa, como também estava passando mais tempo com Ayel, Victoria até se sentiu mais tranquila de não estar vendo a loira.

    Ela caminhou em sua direção, seus passos delicados praticamente não podiam ser escutados no meio da balbúrdia do Melusina. Mas os olhos sérios do guerreiro a alcançaram, e o sorriso em seus lábios ligeiramente ampliou.

    — Victoria… — Ele disse, com sua voz grave e calma. — Que surpresa encontrá-la aqui nessa noite.

    — Claude. — respondeu, modulando a sua voz para que ela pudesse ser escutada acima da música.

    Ela puxou uma cadeira de madeira pesada e sentou-se à mesa, acomodando as suas roupas.

    O guerreiro da pele de ébano olhou para as canecas vazias ao seu redor e o brilho retornou aos seus olhos.

    Ele inclinou-se ligeiramente para frente, apoiou os seus cotovelos sobre a mesa.

    — Eu estava com Elise. — Ele explicou. — Mas ela precisou voltar logo para a casa… O seu pai ficaria bastante preocupado se ela demorasse muito.

    Victoria sorrira de volta, ela gostava de ver Claude contente e aquele tom de voz carinhoso que ele lançou ao mencionar a sua amada era algo que ela nunca havia presenciado antes.

    A amizade dos dois havia crescido gradualmente, especialmente depois da mestra dos venenos se fazer mais presente no castelo. Claude sempre fora um bom ouvinte, ele era paciente e atento. Já ela, sempre se mostrou interessada nas histórias e preocupações do guerreiro.

    Existia uma confiança mútua entre ambos, parecia uma compreensão que não foi necessária definir por palavras, ela apenas existia.

    — Fico extremamente feliz em saber que você está bem, Claude.

    Ela observou como o guerreiro relaxava ainda mais em sua cadeira, como se o simples fato de poder falar sobre a vida do padeiro o enchesse de alegria.

    — Mas e você, minha amiga dos venenos? O que te trouxe aqui esta noite?

    — Apenas o cansaço do dia… Às vezes é bom estar em um lugar onde a vida parece mais simples, por mais que seja apenas por algumas horas…

    Victoria encolhera seus ombros delicadamente.

    O guerreiro concordou com um aceno lento de cabeça, e por um momento os dois continuaram em silêncio, observando o movimento ao redor.

    A música continuava alta, e cada vez mais pessoas juntavam-se à dança no centro do salão.

    A garota notou como alguns casais se agarravam, riam enquanto tentavam seguir o ritmo. Havia algo muito mágico na atmosfera da taverna, que trazia uma felicidade que, por mais que temporária, fosse o suficiente.

    — Como vocês se conheceram? — indagou Victoria, de repente, por conta da sua curiosidade que esteve maior que a sua timidez habitual.

    Claude sorriu novamente.

    — Foi no início do verão passado… Eu costumava comprar pão na padaria aqui ao lado da praça, Elise trabalha lá, auxiliando o pai… O início era bem simples, eu comprava meu pão e saía. Mas depois, ela acabava deixando alguns pequenos recados com os pães.

    Ela inclinou-se ligeiramente para frente, seus cabelos balançaram com o movimento.

    — Recados? Victoria arqueou uma sobrancelha, estava bastante interessada.

    — Ah… Sim. — Ele confirmou com a cabeça. — Pequenos pedaços de pergaminho com mensagens pequenas… Às vezes, eram apenas desejando um bom dia, outras vezes perguntava como estava minha ronda da guarda real, era uma caligrafia muito delicada. Sempre guardei esses recados.

    — E como foi… — A Victoria hesitou, estava escolhendo suas palavras com cuidado. — Como foi conseguir permissão do pai dela?

    O sorriso do guerreiro se tornou um pouco mais amargo, embora não tenha desaparecido completamente. Ele olhou para as canecas vazias na sua frente por um momento.

    — Difícil… O padeiro não via com bons olhos a ideia de que a sua filha se envolvesse com um guerreiro. Ele dizia que esse ‘tipo’ de gente pede para morrer, que a vida de um soldado é curta e violenta, que ela não deveria se apaixonar por alguém assim.

    A mestra dos venenos sentiu uma pontada de tristeza ao ouvir aquelas palavras, mas também com uma certa admiração pelo guerreiro que estava disposto a enfrentar esses obstáculos.

    Ela não deixou de pensar também no imperador, fez uma breve comparação entre como um guerreiro de Sihêon via o amor e a visão de relacionamento que Ayel tinha.

    Não que ela desejasse que o bárbaro mudasse, até porque ela sabia como essa dinâmica funcionaria desde o começo, defendeu inclusive, na frente da sua família, o que resultou na sua discreta expulsão.

    “Será que ele já falou assim de mim para alguém?”

    “Os olhos do ruivo brilham quando diz meu nome?”

    Victoria Belomonte pensou inúmeras vezes, nesses poucos segundos em que ela absorvia o que o guerreiro da pele de ébano dizia.

    — Mas fico feliz que você não tenha desistido. — Disse ela.

    — Não… Não desisti, continuei visitando a padaria, sempre fui respeitoso, sempre educado. Comecei a conversar com o padeiro sobre assuntos que não envolviam sua filha… Falei sobre o tempo, falei sobre as colheitas, sobre a vida na cidade… Lentamente, ele começou a me ver não apenas como um guerreiro, mas como um homem.

    Claude voltara com o seu sorriso, ainda mais forte.

    — E quando finalmente pedi permissão para levar Elise para um passeio, ele relutantemente concordou.

    — E agora? — A moça continuava curiosa.

    Enquanto conversavam, dessa forma mais íntima, por um momento, parecia que a taverna tinha silenciado, o som forte dos alaúdes e o canto dos bardos não estavam alcançando a dupla, os amigos estavam se sentindo mais próximos, onde Victoria estava cada vez mais feliz ao saber da história, e Claude, cada vez mais feliz por estar contando.

    — Agora ele ainda não está completamente à vontade com essa ideia… Mas ele permite que eu a veja, desde que ela volte para casa antes que a noite fique muito avançada. E isso já é mais do que eu esperava conseguir.

    — Fofos.

    — Eu teria levado ela até em casa, acompanhado ela por sua segurança, mas ela insistiu que seria melhor o padeiro não ver nós dois andando de mãos dadas… ainda.

    — Se é isso que o faz feliz, Claude, então que seja. Você merece essa felicidade. — Ela sorriu.

    Fora nesse momento em que dois criados da taverna surgiram, carregando bandejas vazias e panos para limpeza. Eles se aproximaram da mesa com movimentos ágeis.

    Um deles era um homem jovem com cabelos castanhos e desgrenhados, com um avental manchado. Assim que recolheu as canecas de Claude, ele as empilhou com destreza e se afastou.

    O outro, mais velho, passou um pano úmido sobre a superfície da mesa.

    — Mais alguma coisa para os senhores? — O criado mais velho perguntou.

    Os amigos entreolharam, o guerreiro de ébano já estava bebendo e a mestre dos venenos desejava beber.

    — Talvez seja o momento para mais uma rodada. —Disse Claude.


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