Capítulo 094 - Seis katares!
Capítulo 094 – Seis katares!
O treino havia terminado.
Os algozes deixaram o dojo árido com os corpos bastante pesados, a pele ainda quente do esforço.
Dispersaram-se pelos cantos daquele espaço de terra batida e paredes baixas.
Lavish Solanki observou cada um durante as sequências finais, ele estava contente, ninguém falhara.
Todos tinham cumprido exatamente o que fora exigido.
O algoz de pele negra e de cabeça raspada permaneceu em pé junto à borda do pátio. Muitos outros se sentavam ou se deitavam na sombra.
O sol do fim de tarde deixava o chão avermelhado e bastante áspero. Maut Ka Mandir conseguia ter diversos dojos de terra espalhados pelo seu templo, muitos deles em céu aberto.
Coubera a Lavish comandar aquele treino, rígido e bastante justo como sempre foi.
Ele não abrira a mão de nenhum tipo de exercício e, por fim, ele recebeu diversas respirações ofegantes e som de cantis sendo esvaziados.
Naquele momento, tudo mudou.
Os passos deixaram de fazer barulho, pois todos os algozes voltaram a sua atenção para a entrada desse dojo. A figura que surgiu nas sombras era reconhecida por todos. Por mais que estivesse com roupas simples e escuras.
A máscara de porcelana em forma de raposa, com desenhos delicados ao redor dos olhos, era suficiente para causar a quietude respeitosa.
O patriarca de Maut Ka Mandir entrava.
Mudamir atravessou o pátio com passos bastante furtivos e silenciosos.
Qualquer conversa paralela que podia existir cessou naquele momento. Ninguém precisava ser mandado calar, a presença do homem mascarado era o suficiente para impor respeito e silêncio.
Dalila estava entre os algozes cansados, sentada num banco de madeira gasta, de costas para a parede.
A pele caramelo brilhava de suor, os cabelos pretos médios com franja estavam praticamente colados em sua testa.
Ela ergueu o rosto e fitou o líder dos algozes.
“Lá vamos nós”, ela pensou.
Ela conhecia aquele ritual. Sempre que o patriarca surgia assim, sem aviso, após um treino duro… A notícia nunca era boa.
Era sempre uma ordem.
Uma missão.
E ela estava com ele mais cedo no castelo, ela sabe o que o Imperador exigia que os algozes seriam obrigados a cumprir.
Mudamir parara no centro do dojo, a voz saiu de trás da máscara, sem qualquer emoção.
— O treino de hoje está encerrado. Todos estão dispensados.
Os algozes se levantaram com cuidado, alguns ainda estavam doloridos, nenhum sequer questionou.
Eles recolheram cantis, armas de treino e começaram a sair em fila, em direção aos aposentos ou aos banhos.
O patriarca permaneceu imóvel.
— Lavish. Dalila. Megitsune. Fiquem — disse Mudamir.
Quando o último deles se afastou, apenas três figuras continuaram no dojo.
Lavish, que nunca se movera do seu posto.
Dalila, que permanecera sentada.
E uma terceira, que até então permanecera à sombra de um dos pilares, quase invisível.
Megitsune era baixa de estatura, mas o porte vinha junto de tamanha agilidade e controle. Seus traços eram inteiramente eikianos, maçãs do rosto altas e bem definidas, olhos amendoados de um tom escuro com uma pele lisa e clara.
Uma imagem típica das terras do reino de Eikõ, como Akihiro Ikeda. Ela tinha um cabelo negro e liso, estava preso em forma para não atrapalhar seu movimento.
Parte do seu rosto estava coberto por um tecido leve que deixava à vista apenas os seus olhos.
Apesar da sua pouca idade e do pouco tempo desde que passara nos testes para se tornar uma algoz, havia algo na forma como ela se movia e como observava o ambiente.
Ela revelava um potencial fora do comum. Depois de Lavish e da finada Niyati, Megistune era provavelmente a algoz mais poderosa das castas mais baixas de algoz. Isso com apenas dezessete anos.
Assim que os três pararam em sua frente, Mudamir não perdeu tempo.
— O imperador bárbaro encarregou os algozes de uma missão. Devemos procurar pela Torre de Crono e confirmar se o que Anusha escreveu antes de ser morto é verdade… Se a forma de tornar a torre visível é real ou uma armadilha.
Dalila trocara um rápido olhar com Lavish. Era exatamente isso que ela esperava. O algoz da pele negra cruzou os braços, seu rosto com cicatrizes endureceu.
— Com confirmar… Você quer dizer mandar alguém ao lugar apropriado para ser morto caso seja uma armadilha? — dissera o homem Solanki. — O bárbaro não está nos enviando em missão. Está nos enviando para o matadouro.
— Ayel não tem motivo para nos sacrificar assim… A ordem é clara. Verificar. Se for verdade, trazemos a confirmação, se for armadilha… Voltamos e reportamos. — Dissera Mudamir com a mesma entonação neutra.
— Voltar — repetiu Megitsune.
Sua voz era suave, mas firme.
— Se for uma armadilha, a ideia é que não voltemos. Quem monta uma armadilha quer corpos e não sobreviventes… O imperador ganha de dois jeitos: se der certo, ele tem a torre, se der errado, ele mata alguns algozes.
Ela finaliza.
— Ele pode ganhar de uma terceira forma. Mostra que somos úteis, que cumprimos ordens e que podemos ser perdoados. — Diz a jovem de pele caramelo.
— Perdão — Lavish cuspiu a palavra. — Nos colocam na linha de frente, nos mandam para um lugar que pode ser morte certa, e chamam isso de caminho para o perdão.
— Não chamam de caminho fácil — disse Mudamir. — O perdão não virá de graça. Esta missão é o preço. O Imperador oferece a chance. Cumpramos e o nome dos algozes volta a ter algum valor. Falhemos ou recusemos, e continuamos na mesma posição. Ou pior.
— Entendi… Então somos moedas de troca. — Dissera Megitsune. — Ele sequer confia em nós, mas precisa da gente para isso. E se formos, estamos aceitando que somos descartáveis.
— Se não formos… continuamos descartáveis e sem nenhuma chance de deixar de ser. Pelo menos dessa vez há uma oferta.
Dalila não concordava muito com o que ela mesma estava dizendo, mas sua vida estava em jogo. Ela prometeu a um homem que ela tem certeza que faria de tudo para manter a sua palavra, mesmo que isso fosse o fim dos algozes.
— Essa é uma missão perigosa em troca de um recomeço. Eu prefiro tentar. — Concluiu Dalila.
Lavish mantinha o seu olhar em Mudamir, o patriarca dos algozes não se alterou.
Claro que suas expressões eram um mistério, sua voz, no entanto, permanecia igual.
— A decisão já foi tomada pelo Imperador e por mim. A missão será cumprida. O que discuto agora com vocês é quem vai e como. Não sei se iremos ou não.
O algoz de pele negra soltou um som baixo, parecia um grunhido. Megistune permaneceu em silêncio, mas seus olhos estavam vidrados em Mudamir.
Dalila deixara escapar um suspiro, pois ela sabia que, no fundo, todos chegariam ao mesmo ponto.
Sua única questão era apenas quanto tempo levariam para aceitar.
— Está bem. Então vamos, mas não iremos cegos. O que exatamente Anusha escreveu? — indagou Lavish.
Mudamir recuou um passo. A luz do restante do dia alongava diversas sombras no dojo árido. Quando ele falara de novo, as palavras saíam da sua boca como se ele estivesse lendo um texto que já havia decorado.
— A Torre de Crono não é um lugar comum. Ela não existe no mundo físico da forma que outros edifícios existem. Ela está lá, mas escondida, protegida por magias antigas que a tornam invisível aos olhos normais. Mas há uma forma de revelá-la, de torná-la visível para aqueles que sabem como procurar.
Ele fez uma pausa breve. Nenhum dos três interrompeu.
— Para aqueles que desejarem alcançá-la, deve ser preciso ir até um riacho turvo no Bosque das Folhas Densas. Próximo a esse riacho, há uma pedra polida de cor azulada. Não é uma pedra comum… ela brilha com uma luz sutil, quase imperceptível, como se contivesse estrelas presas em seu interior.
— Essa pedra é a chave — continuou Mudamir — Ela é o ponto focal que permite que a magia funcione.
Megitsune ajeitou o manto que cobria seu rosto enquanto continuava escutando o texto decorado pelo homem mascarado.
— Você deve derramar sangue animal sobre essa pedra. Não precisa ser muito, apenas o suficiente para cobrir sua superfície, para ativar as propriedades mágicas que dormem dentro dela. O sangue deve ser fresco, ainda quente, ainda pulsando com a vida que acabou de ser tirada.
Eles entreolharam-se, os três pupilos, apenas a maior casta dos algozes havia lido essa carta, eles tentam esconder a surpresa do que Anusha entregou nessa carta.
— E quando a pedra estiver coberta — disse Mudamir — No momento em que o sangue começar a brilhar com uma luz azulada que parece vir de dentro da própria pedra, você deve pronunciar as palavras: “Aperire tempus.”
O patriarca fez outra pausa. A máscara de raposa manteve-se imóvel.
— Mas cuidado. Revelar a torre é apenas o primeiro passo. Entrar nela, enfrentar o que está dentro, isso é outra questão completamente diferente. Crono não está sozinho lá dentro.
O silêncio reinou por alguns instantes, Lavish, Dalila e Megitsune estavam digerindo as informações.
Riacho turvo.
Pedra azulada.
Sangue animal.
Idioma arcano.
E então, a torre se tornaria visível.
— Dada a periculosidade dessa missão… Apenas os melhores podem ir. Por isso, eu desejo que Lavish lidere e Megitsune e Dalila o acompanhem. Os três têm a combinação de experiência, força e discrição de que mais precisamos.
Lavish assentiu calmamente com a cabeça. O mesmo que Dalila fez.
Megitsune inclinou levemente o tronco, sinal de aceitação eikiana.
Nenhum deles questionou a escolha.
— Em relação ao que está na carta… Isso vai além da parte habitada do Bosque das Folhas Densas. A região que nos interessa não é a que está sob controle direto. Chiara, a Mãe Verde, domina o que é povoado e cultivado. Ela pode nos guiar até certo ponto. Depois disso, somos nós sozinhos na mata fechada.
Megitsune franziu a testa. Por trás do tecido que cobria parte do seu rosto, o incômodo continuava visível em seus olhos.
— Selva não é o terreno de um algoz, há muito onde se esconder, mas, para quem não nasceu na mata… Se locomover é muito difícil… Barulhos, galhos, animais e trilhas que não existem. Somos treinados para paredes, sombras e ruas. Não para a floresta densa…
— Concordo plenamente. Por isso a escolha de vocês três.
Cortou Mudamir, andando enquanto virava para a direção de Megitsune.
— Lavish tem experiência de campo e de liderança… Você tem uma agilidade e capacidade de se adaptar, já a Dalila, consigo perceber uma perspicácia e sangue frio. Se o terreno não é o nosso, tornamo-nos menos alvo e mais observadores. Menos passos pesados, mais paciência. Um algoz que se preze, usa o que tem.
— E se a mata não nos deixar passar? O riacho turvo, a pedra escondida… Pode levar dias só para encontrar o lugar certo.
Dalila tinha uma dúvida genuína, mas a voz do Lavish logo interrompeu sua linha de raciocínio.
— Então levaremos dias. Vamos ter água, cordas e lâminas para abrir o caminho e para o ritual… Vamos evitar confronto desnecessário. Nosso objetivo é a pedra e a confirmação dos rumores, apenas, não precisamos conquistar o bosque.
— Animais… Vamos precisar de sangue fresco para a pedra, vamos ter de caçar no caminho ou levar algo pequeno. E Crono, o que quer que esteja dentro da torre, não sabemos, apenas que ele não está sozinho… Precisamos estar prontos para recuar se for necessário.
— Na selva, o pior inimigo é a pressa — disse Mudamir. — Galhos quebram, folhas secas estalam. Quem corre se entrega. Espero que vocês pensem em mover-se como se fossem parte da mata: devagar, com pausas, ouvindo antes de dar o próximo passo.
— E se por acaso nos perdermos? — disse Dalila. — Sem a existência de trilha, sem sol através das copas em alguns trechos. Podemos dar voltas e voltas e cansarmos andando em círculos.
— Por isso, Chiara nos guia até onde pode. Depois, marcamos árvores, contamos passos, mantemos um rumo. Não é o nosso terreno, mas não somos leigos — disse Lavish. — Já estive em matas antes. Denso é pior que aberto, mas as regras são as mesmas: silêncio, observação, nunca baixar a guarda.
Por fim, a discussão cessou.
Megitsune acenou com a cabeça, a algoz de Eikõ não gostava da ideia da selva, mas aceitava o que fora dito. Dalila permaneceu calada, ela já estava mentalizando o que levaria em sua mochila.
— Recuar e voltar com a informação, atentem-se a isso. O Imperador quer apenas a confirmação da veracidade dos fatos, não que vocês derrotem o que possa estar lá dentro.
Esclareceu Mudamir, sério. — Podem viajar quando quiserem. Organizem-se, falem com Chiara, peguem o que precisarem. Só lembrem-se: o Imperador pode ser ansioso. Quanto antes partirem e voltarem com a resposta, melhor para todos.
— Entendido — disse Lavish.
Os algozes precisavam se preparar, uma pequena excursão além da mata aguardava todos eles.
Os três partiram para os seus dormitórios, procurando o que fosse útil para a viagem.
Roupas leves, farnéis, equipamentos.
Mudamir estava com as mãos atrás do corpo, olhando todos se afastarem por trás da sua máscara de porcelana.
Ele não queria demonstrar, mas se preocupava.
Torcia em silêncio para que os três voltassem.

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