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    Capítulo 089 – ‎Quando os desejos cedem!



    A missa do sacerdote Celérius já havia começado há pelo menos meia hora quando Lilian decidira se retirar discretamente. Ela caminhava pelos corredores laterais do Templo dos Divinos com as mãos dadas à frente do seu torso.

    Afastara-se do grande salão central, ainda era possível escutar o eco das palavras sagradas. Ela sentiu que precisava de um pouco de ar, buscou então um respiro longe da solenidade da cerimônia.

    Nos fundos do majestoso templo abrigava-se um extenso jardim, muito belo e cuidadosamente mantido.

    Na grande realidade, era como se o templo tivesse sido construído no meio de um jardim de se perder de vista, a ponto de que todos os arredores do local sagrado tinham um pedaço dessa beleza natural.

    Flores de diversas cores espalhavam-se pelos canteiros, com árvores frondosas que sempre ofereciam sombra pelos caminhos empedrejados.

    Existia nesse pedaço dos fundos um pequeno campo aberto antes de virem os muros das edificações próximas. Esse campo, volta e meia, usava-se como ambiente de treino.

    Fora ali que a jovem clériga encontrou a cena que a fez parar e observar com mais atenção: havia dois combatentes que se enfrentavam com espadas cegas, movendo-se com cuidado sobre a relva.

    Lilian reconheceu imediatamente a paladina Mariane, aqueles cabelos castanhos e longos balançavam com seus fios lisos a cada pequeno movimento. Como sempre, a paladina estava armadurada. Empunhava sua espada bastarda de treino com confiança.

    Do outro lado, estava Aaron, o invocador de Althavair.

    Ele estava bem diferente, cheio de escoriações, havia marcas vermelhas espalhadas pelos braços e pelo seu rosto.

    O suor escorria rapidamente na testa do nortenho, molhava seus cabelos loiros e repicados.

    O corpo franzino de Aaron tremia levemente, cada pequeno movimento parecia custar um esforço gigantesco.

    — Mantenha os pés firmes no chão! — instruía a paladina.

    Ela sim, continuava em perfeito estado, sua respiração era controlada e os seus movimentos fluíam com bastante naturalidade. O corpo robusto daquela mulher demonstrava força e resistência, enquanto o corpo do lutador transparecia que ele lutava apenas para manter-se de pé.

    Lilian moveu-se silenciosamente enquanto se aproximava. Ela decidiu se posicionar próxima à borda do campo de treinamento, estava bastante atenta e fitava com atenção a batalha, notando como a paladina estava dominando completamente aquele combate.

    Com um golpe.

    Aaron mal conseguia se defender enquanto os movimentos da mulher enorme ditavam todo o seu controle e a sua precisão.

    — Não fique cambaleando… A base é fundamental, Aaron.

    Ele tentava seguir a orientação, genuinamente.

    Mas suas pernas trêmulas dificultavam o equilíbrio. Ele segurava a espada com ambas as mãos, seus dedos chegavam a esbranquiçar de tanto que ele apertava.

    — Hey, tudo bem segurar com firmeza, mas não exagera na força. — Continuava Mariane, ela demonstrava a postura correta para o homem. — Deixe os seus pulsos flexíveis, de forma que você consiga mover a lâmina com bastante agilidade.

    O invocador era provavelmente o menos combatente de todo o Esquadrão do Centro da Praça. Por muito tempo, ele pensou que apenas teve a sorte de ter sido convocado pelo imperador justamente por cair na frente do rei Goblin e sobreviver.

    O mana branco… A arte da invocação é bastante egoísta e injusta.

    Ele sabia daquilo como ninguém, e o fato de ele já ter se aberto com a Mariane algumas vezes a fez ter a vontade de ensiná-lo a manejar melhor. Por isso, fazem meses que eles se encontram nos fundos do templo para melhorar as suas aptidões como guerreiros.

    Antes que ele pudesse engalfinhar novamente no combate de treino, Aaron percebera a presença de Lilian.

    Os olhos do invocador encontraram os da clériga e imediatamente ele ficara mais tímido, seu rosto corou um pouco, ele quase perdera o equilíbrio.

    A atenção que ele deveria dedicar ao seu treinamento se dividiu, a paladina rapidamente aproveitou para dar um golpe controlado que o fez recuar vários passos.

    — Foque no combate, Aaron — alertou a paladina, notando a distração do jovem.

    Porém, Aaron não conseguia mais se concentrar completamente. A presença de Lilian o deixava bastante nervoso, ele sentia os olhos dela observando cada movimento que vinha dele, cada erro.

    Sua timidez era uma característica marcante, acabou intensificando.

    Lilian, por sua vez, observava toda a cena com um tamanho interesse.

    A clériga corpulenta se sentou em um banco próximo ao campo, feito de pedra. Deixou seus cabelos médios e cacheados bem presos enquanto assistia.

    — Você consegue, Aaron. — Ela encorajou, com sua voz simpática. — Tente reagir ao próximo ataque.

    O invocador fitou-a rapidamente, seu coração havia acelerado um pouco, ele não esperava aquela torcida, isso o deixou ainda mais envergonhado.

    Ele estava acostumado a interagir apenas com a Mariane, sempre foi assim, desde que ele chegou no reino, desde depois do combate contra os goblins.

    De qualquer forma, ele respirou fundo e se posicionou mais uma vez. Tentava seguir fortemente as instruções da sua colega de clero.

    A paladina atacou novamente, e desta vez Aaron conseguiu bloquear o golpe. O impacto fez com que as mãos do invocador loiro doerem, mas ele manteve a espada na posição.

    Escapara um sorriso pequeno no rosto do homem, ele olhou para Lilian rapidamente, como quem buscasse aprovação.

    — Muito bem — elogiou Mariane — Mas não fique parado esperando o ataque, experimente se mover e criar oportunidades.

    O homem consentiu, mas toda a confiança que ele havia conseguido pelo sucesso anterior rapidamente esvaiu-se, conforme Mariane aumentava a intensidade.

    A paladina passou a atacar com mais velocidade, tanta que o invocador mal conseguia acompanhar.

    Cada golpe que ele tinha a sorte de bloquear o fazia recuar cada vez mais. Cada um dos seus movimentos defensivos era bastante desajeitado e impreciso, o seu suor continuava a escorrer e as escoriações multiplicavam-se lentamente.

    Aaron respirava ofegante, seus músculos doíam de tanto esforço. Ele não conseguiria por muito tempo.

    — Pega leve, por favor!

    — Você precisa se esforçar mais! Em uma batalha real, nenhum inimigo vai pegar leve com você, você precisa estar preparado.

    Lilian carregava uma expressão de preocupação em seu rosto, ela observava o sofrimento do invocador, como cada golpe o deixava cada vez mais desanimado e mais cansado.

    Cansado.

    Aaron queria se sentir mais útil, mas seu corpo não o fazia um bom combatente, e sua experiência o impedia de prosseguir como um bom invocador, uma falha, independente de qual perspectiva encarava.

    Ele estava cansado.

    — Tente atacar, Aaron… Não fique apenas na defensiva.

    Disse Lilian, de súbito, puxando a atenção do homem de volta para a realidade.

    O invocador a encarou novamente, aquela sugestão o fez tentar. Ele avançou rapidamente com a espada, mas o movimento foi bastante previsível, Mariane desviou com bastante facilidade.

    Então, ela contra-atacou, fazendo com que Aaron perdesse completamente o seu eixo e caísse de joelhos.

    — Levante! Um guerreiro não pode desistir.

    — Eu não sou um guerreiro… — Aaron se levantou com dificuldade e com os joelhos doendo, respondendo à paladina que ordenou que se erguesse.

    — Todos que participam da guerra são guerreiros, independentemente de como vai ser a sua participação na batalha. Eu, por exemplo, sou uma guerreira de Deus.

    Mariane sempre foi uma amiga compreensiva e calorosa, mas Aaron já havia percebido como a sua personalidade transmutava quando entravam no campo de treinamento. O profissionalismo dos aventureiros.

    O combate continuou por mais alguns minutos, com o invocador tentando aplicar as dicas que vieram da paladina, mas sua falta de experiência e confiança volta e meia o traía.

    Cada tentativa de ataque era facilmente neutralizada pela mulher.

    Ao perceber que eles já haviam atingido o limite, Mariane cedeu com a cabeça e proferiu o fim do treinamento para aquele dia.

    Antes mesmo que ela pudesse terminar de falar, o homem de Althavair já havia deixado seu corpo cair para trás, caindo, ali no meio da grama devido à exaustão, deixou a espada escapar das suas mãos.

    Aaron estava deitado, ofegante, olhando para o céu. Completamente derrotado, estava coberto de suor e ferimentos.

    A frustração estava estampada em seu rosto, com um pouco de resignação. Ele sabia que não conseguiria ser um bom guerreiro, e aquela derrota apenas confirmava todas as suas inseguranças.

    Mariane se aproximou dele, ela abaixou ao seu lado. Colocou sua espada cega no chão e o encarou com uma expressão doce e bastante justa.

    — Você está bem melhor do que três meses atrás, não sabe disso? Embora ainda precise melhorar… Muito.

    Aaron olhou para ela, tentando processar aquelas palavras. Ele queria acreditar que estava melhorando, mas a derrota esmagadora que havia acabado de sofrer dificultava aceitar qualquer elogio.

    Mesmo assim, ele concordou levemente com a cabeça, reconhecendo que a paladina estava tentando ajudá-lo.

    Foi aí que Lilian começara a se aproximar, caminhava cuidadosamente sob a grama. A clériga robusta se ajoelhou ao lado de Aaron, observando as escoriações que cobriam o seu corpo.

    Não demorou para que ela fizesse uma imposição de mãos, voltadas para o peitoral do homem, e começasse a canalizar o seu mana branco.

    — Deixe-me curar essas feridas — disse ela, a voz doce e atenciosa.

    Havia uma preocupação genuína em seus olhos, e ela não hesitou em oferecer ajuda.

    O invocador a encarou levemente assustado, a princípio, ele sentira seu coração acelerar mais uma vez. Aquela proximidade da clériga o deixava nervoso.

    Com as mãos estendidas sobre o corpo do althavense, a clériga fechou os olhos por um momento. Fora quando o clarão começou a emanar das suas palmas.

    A luz sagrada se espalhou, envolvendo as escoriações de Aaron em um brilho suave e reconfortante.

    O invocador sentiu uma sensação estranha enquanto a magia de cura trabalhava. Era uma sensação de calor e paz.

    As feridas começaram a se fechar, e a dor começou a desaparecer gradualmente.

    Aaron observou Lilian enquanto ela trabalhava, e foi então que seus olhos se encontraram. A clériga havia aberto os olhos e estava olhando diretamente para ele.

    Naquele momento, algo mudou entre os dois.

    O coração de Aaron acelerou descontroladamente. Ele sentiu um calor subir pelo rosto e percebeu estar corando.

    Mas não era apenas ele. Lilian também estava com o rosto completamente corado, e seus olhos se arregalaram quando percebeu estar sendo observada.

    A tensão entre os dois era palpável. Havia algo no ar, algo que ambos sentiam, mas não conseguiam nomear.

    Os olhares se cruzaram por alguns segundos que pareceram uma eternidade, e então Lilian se afastou bruscamente.

    — Preciso ir — disse ela, a voz trêmula. — Tenho que… verificar os preparativos para o próximo ritual. Sim, é isso.

    Era, definitivamente, uma desculpa esfarrapada, e até ela mesma sabia disso. Mas não havia conseguido pensar em nada melhor para aquele momento.

    Lilian se levantou rapidamente, quase perdendo o seu equilíbrio no processo. Ela se afastou do campo de treinamento, caminhando de volta para o templo sem sequer olhar para trás.

    Isso deixou o nortenho bem confuso, ele observava a clériga se afastar sem poder entender o que havia acontecido.

    O invocador se sentou na grama, ainda sentindo os efeitos da cura, que aceleravam seu processo de cicatrização. Ele fitou Mariane, que ainda estava lá; ele carregava uma expressão questionadora.

    — O que aconteceu? — perguntou ele, genuinamente confuso. — Fiz algo errado?

    Mariane observou o jovem por um momento e então sentou-se ao lado dele na grama. A paladina era bastante sensata e havia percebido exatamente o que havia ocorrido.

    Ela olhou na direção que Lilian havia seguido e então voltou o olhar para Aaron.

    — Você não fez nada errado — respondeu ela, a voz séria, mas gentil. — Mas preciso ter uma conversinha na qual devo alertar você.

    Aaron olhou para a mulher, esperando a explicação.

    — Senti bem forte essa tensão sexual entre vocês dois e isso é um problema.

    Direta.

    O homem ficou ainda mais confuso.

    — Nós apenas nos olhamos, nós…

    Ele percebeu que seu sangue descera… E, como havia pensamentos nebulosos, por muita parte lascivos, imaginava aquele corpo farto em cima dele.

    “Clérigas são celibatárias… Por isso, tentei me desviar desse mal, mas agora, com esse golpe vindo de Mariane… Como… Como posso deixar de lado?”

    — Então… Sei que é difícil, já que você é um homem, mas… Você precisa ter cuidado — completou Mariane. — Não apenas por ela, mas por você também. Esses sentimentos podem ser perigosos para ambos.

    O invocador olhou para a linha do horizonte, tentando encontrar Lilian com os olhos. Mas ela já havia desaparecido, voltando para o interior do templo.

    Aaron ficou ali, sentado na grama verde, tentando processar tudo que havia acontecido.

    A cura ainda estava ativa em seu corpo, e ele sentia o calor da magia sagrada. Mas agora havia outro tipo de calor.

    Algo que ele não conseguia aceitar completamente. Era confuso, era novo, e era também proibido.

    Mariane permaneceu ao lado dele em silêncio, dando-lhe um tempo para processar. A paladina sabia que aquela era uma situação delicada, e que Aaron precisava de tempo para entender.

    Ela observou o jovem, notando como ele continuava procurando Lilian no horizonte, mesmo sabendo que não a encontraria.

    O jardim do templo estava silencioso agora, apenas com o som distante da missa que ainda ocorria no salão principal. O campo de treinamento estava vazio, exceto pelos dois que permaneciam sentados na grama.

    Desejo.


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