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    Siegfried acordou sem ar e sentiu o seu peito apertar quando respirou fundo. Seus pulmões incharam até quase explodirem e a dor o fez soltar o ar; então sufocou e voltou a respirar fundo.

    Mesmo com os olhos abertos, tudo o que via era escuridão e algumas formas feitas de sombras dentro de sombras.

    Havia sido acorrentado ao teto pelos pulsos, com os pés pendendo longe do chão.

    Podia sentir o metal esfolando a sua pele e o peso do seu corpo ameaçando rasgar os seus braços. O ombro esquerdo latejava como se fosse saltar para fora a qualquer instante. Os cortes da batalha haviam sido costurados, mas de forma pobre; assim que se moveu, os pontos se romperam e ele voltou a sangrar.

    Por um bom tempo, a única companhia que teve foram os guinchos dos ratos que corriam para beber da poça de sangue que se formava aos seus pés.

    Quando já estava se acostumando com os seus amiguinhos, uma porta rangeu, trazendo uma luz fraca ao calabouço e afugentando os ratos. Podia ouvir as botas de metal descendo as escadas de pedra e o eco que elas faziam.

    — Dormiu bem, assassino?

    — …

    — Do que estou falando?! É claro que dormiu, olha pra você. Matou meu escudeiro, partiu meus homens ao meio, quase arrancou minha cabeça. Você está ótimo… Pra um homem morto.

    O metal enferrujado rangeu quando o cavaleiro destrancou as grades da cela e se aproximou com a lamparina em mãos; era apenas uma vela, fraca demais para iluminar a sala, mas forte o bastante para queimar os olhos do mercenário e forçá-lo a desviar o rosto.

    O homem parou bem na sua frente. Apesar de Siegfried estar pendurado a quase trinta centímetros do chão, o cavaleiro ainda o olhava de cima.

    E parecia… Feliz.

    — E que bela história seria essa. Aposto que os seus netos iam adorar. O intrépido mercenário que invadiu as ruínas do Forte dos Demônios e desafiou Gaelor, o Cavaleiro Negro.

    O cheiro de carne queimada fez o seu nariz coçar e ele conseguiu abrir os olhos por tempo o bastante para notar a pele escurecida no pescoço do seu carcereiro, meio escondida atrás do gorjal da armadura. Havia feito um bom trabalho cauterizando a ferida, certamente muito melhor do que os pontos que o rapaz recebeu, ainda assim, um sacerdote teria feito melhor.

    — Mas eu quero ouvir uma história diferente…

    O cavaleiro agarrou seu cabelo e puxou a sua cabeça para trás, até que não tivesse outra escolha senão olhar diretamente em seus olhos.

    — Agora, fale-me da sua missão!

    O interrogatório durou uma eternidade, ou talvez um piscar de olhos. A sua noção de tempo ficou um pouco distorcida depois que teve as unhas da mão arrancadas uma a uma e suas costas foram marcadas a ferro quente.

    Quando terminou, já havia perdido todas as forças e se deixou cair em sono profundo, enquanto o cavaleiro desaparecia com a única fonte de luz.

    Acordou novamente quando as suas correntes se soltaram, mas não fazia ideia de quanto tempo havia se passado.

    A sua cabeça atingiu o chão quando caiu e o seu corpo começou a tremer, em parte pelo frio, em parte pela dor.

    O cavaleiro nada disse, se virou e caminhou até às escadas, mas desta vez não fechou as grades.

    Siegfried sentiu seus músculos rígidos e os ossos estalarem com cada pequeno movimento, como cacos de vidro sendo esmagados dentro de uma sacola de pano. Respirou pela boca e, depois de um tempo, os seus pulmões deixaram de doer.

    Aos poucos a sensibilidade voltou ao corpo e ele sentiu os ratos comendo o couro das suas botas. Os mais ousados atacavam suas pernas, mas ele estava fraco demais para impedi-los.

    Não tinha como saber quanto tempo levou para se pôr de pé, mas o fez com muita dificuldade.

    Suas pernas estavam dormentes e ele precisou se apoiar nas paredes para andar. Quando chegou até as escadas, parou para recuperar o fôlego e acabou dormindo sentado; o que foi uma soneca muito doce, se comparada a que teve pendurado naquelas correntes.

    Acordou ao ouvir os relinchos de cavalos e terminou de subir.

    Deu por si em uma despensa vazia; alguns grãos e restos de comida no chão estavam servindo de banquete para baratas e outras pragas, mas o resto já tinha sido levado.

    A sala dava para o corredor onde havia matado o escudeiro. O piso de madeira ainda estava sujo de sangue; ninguém fez questão de limpar. Ao menos tinham levado o cadáver do pobre rapaz.

    Sem ter para onde ir, seguiu em frente.

    Lá fora, já era de manhã. A tempestade havia passado e o céu estava límpido. Viu um bando de corvos voando para algum lugar e ouviu a floresta despertar, conforme os animais saiam de seus esconderijos e os mortos-vivos levantavam o acampamento.

    Como os esqueletos não precisavam de mais do que as armas e armaduras que carregavam consigo o tempo inteiro, tudo o que havia para ser transportado pertencia ao comandante; o que se resumia a uma única carroça com suprimentos e suas montarias.

    Viu um andaluz branco para a viagem, um cavalo de guerra grande e imponente, mas que não tinha serventia alguma fora do campo de batalha, e uma mula para puxar a carroça. Notou também que havia um garrano, este carregava apenas uma coisa: um cadáver embrulhado em pano negro e uma sacola com o que devia ser a cabeça do escudeiro.

    O mercenário descansou o olhar sobre o cadáver por um longo momento, até que o cavaleiro surgiu do nada:

    — Admirando o seu trabalho?

    — …

    — Foi um belo corte. Limpo — disse, virando o rosto para o escudeiro morto. — Mas conheço um velho orgulhoso que não vai ficar nada feliz com isso.

    — Por que você tá rindo? — A voz do mercenário saiu rouca e ele sentiu a sua garganta arder.

    — Porque é um belo dia. — Então se virou. — Guardas!

    Não foi preciso mais palavras, antes que desse por si, Siegfried estava cercado por cinco soldados esqueletos. Quando tentou se libertar, percebeu que os seus números aumentavam e, diante da resistência, foi derrubado.

    O chão estava enlameado pela chuva da noite passada e isso amorteceu a queda, mas não melhorou o sabor quando o seu rosto afundou e a lama entrou na sua boca e no seu nariz.

    Quando os soldados esqueletos o puseram de pé novamente, já estava com as mãos amarradas atrás das costas e tinha uma corda em volta do seu pescoço.

    A viagem durou três dias.

    Tinham amarrado a ponta da corda que prendia o mercenário pelo pescoço ao cavalo do comandante, e apesar de o animal manter um passo calmo, Siegfried teve problemas em acompanhá-lo.

    Logo no primeiro dia, o rapaz caiu no chão duas vezes e foi arrastado pelo pescoço. Da primeira vez, pensou que iria morrer e se desesperou um pouco, mas conseguiu se levantar; agora com a pele em carne viva onde a corda o enforcou. Quando caiu novamente, bem mais tarde, com o sol em seu auge, já sabia o que fazer, por isso levantou-se mais rápido.

    O cavaleiro não lhe deu atenção em nenhuma das ocasiões.

    Durante o dia, as únicas pausas que faziam eram para dar água e alimentar os cavalos. À Siegfried não era permitido água, comida ou mesmo o calor de uma fogueira. No segundo dia, quando pararam à margem de um rio, finalmente perdeu a paciência e reclamou.

    O cavaleiro se limitou a sorrir e disse:

    — Não se preocupe, mesmo que morra, ainda me terá utilidade. Agora ande!

    Já estava meio morto quando chegaram à vila que ficava ao pé de uma colina; as casas eram pequenas, com alguns comércios aqui e ali, e ruas estreitas, exceto pela estrada principal — a única por onde se podia passar com uma carroça. Um lugar humilde, mas populoso, capaz de abrigar quinhentos plebeus facilmente, embora não de forma confortável.

    No centro de tudo, ficava o templo de Elyon, a construção mais suntuosa; erguida em pedra branca, com uma bela porta dupla de madeira, duas aldrabas de cobre esculpidas na forma de cabeças de dragão e vitrais feitos com pedaços de vidros coloridos que ilustravam a conquista e o reinado de Elyon, o Único.

    Como era costume, a noite foi tomada por camponeses que voltavam do trabalho e se dirigiam ao templo, mas pararam para saudar o retorno de seu senhor e espiar o seu mais novo cativo.

    O grande salão do cavaleiro ficava no topo da colina, logo atrás do vilarejo. Depois de três dias inteiros de caminhada, subir aquele aclive foi a coisa mais dolorosa que Siegfried havia feito em muito tempo; teria sido esfaqueado cem vezes e de bom grado, se isso o poupasse da caminhada.

    Quando pararam em frente aos portões do forte de madeira, as suas pernas desistiram e o cavalo o arrastou por mais alguns poucos metros, antes de finalmente parar, agora atrás dos muros, mas o rapaz não tinha mais forças para se levantar.

    — Vossa graça — disse um capitão qualquer. — É bom vê-lo em segurança. Como foi a caçada?

    — Divertida. Temia ter de reviver minha juventude até o fim dos tempos, mas o garoto aqui se saiu bem e agora eu tenho uma nova história para lhe contar. Hahaha.

    — Estou ansioso para ouvir.

    — Onde está o sacerdote? Esse ombro está me matando.

    — Mandarei chamá-lo imediatamente.

    — Faça isso. Ah, e traga o mercenário. Quero-o onde possa vê-lo.

    — Às suas ordens. Guardas!

    Siegfried sentiu alguém chutar suas costas, mas não tinha forças para revidar, e tão pouco para se levantar. Foi preciso mais alguns chutes até o soldado desistir e arrastá-lo pelos cabelos. O rapaz não resistiu.

    Foi levado para dentro do salão e a luz das tochas o cegou, enquanto o calor abraçava seu corpo e o cheiro de porco assado fez o seu estômago roncar.

    Escutou risadas e, por um momento, pensou ter retornado à Lâmina Feroz.

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