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    Quando acordou, a primeira coisa que Siegfried viu foi a cabeça meio apodrecida de um tigre dente-de-sabre o encarando. Mais crânios decrépitos decoravam o teto de madeira, alguns eram de animais ferozes como ursos e lobos, mas a grande maioria pertencia à humanos, e todos tinham uma expressão de terror em seus olhos.

    — Péssima hora pra acordar, garoto. — O sacerdote sorriu. — Agora terei de ouvir seus gritos. Bom, que seja. Um pouco de companhia faz bem de vez em quando.

    O mercenário tentou se mover e só então percebeu que estava acorrentado a uma mesa de pedra, completamente despido e exposto.

    — O que você tá fazendo?

    Não obteve resposta. Depois disso, a dor nublou a sua mente e não tinha mais certeza se o que via era real ou não.

    As cabeças gritaram e a escuridão preencheu a sala, mas ainda podia enxergar tão claro como o dia. O sacerdote se aproximou, sorrindo como uma criança enquanto recitava uma língua estranha que fazia a sua cabeça doer, como se alguém martelasse pregos quentes em seus ouvidos.

    Deixou um grito escapar e isso pareceu divertir seu torturador, que então passou as mãos pelo seu corpo, e onde tocava, sua pele queimava.

    Sentiu seus ossos se movendo de forma anormal, como serpentes rastejando por baixo da sua pele. As cicatrizes expeliram um pus negro que queimava, fazendo a sua carne criar bolhas que estouravam, de novo e de novo.

    As sombras riram dele e foi a última coisa que viu.

    Quando voltou a acordar, suas correntes estavam soltas e o sacerdote mexia em alguns frascos do outro lado da sala.

    “A sala!”

    Ele se apressou em olhar ao redor. O local era pequeno, decorado com cadáveres de todos os tipos, de velhos apodrecidos a fetos mal-formados. Não apenas de humanos, mas também de elfos, anões, orcs e criaturas que o rapaz nunca viu na vida; algumas que duvidava serem reais.

    Mas nada de cabeças falantes ou sombras risonhas.

    Só então notou que seus ferimentos tinham cicatrizado. Não costurados, mas totalmente curados. Ele tocou seu corpo. O buraco de flecha embaixo do seu peito, os cortes da sua batalha no Forte dos Demônios. Tudo. Até mesmo seus ossos quebrados e fraturados pareciam mais fortes do que antes.

    — Se já consegue andar, então saia — disse o sacerdote, sem olhar sequer de relance para o mercenário. — Tenho muito trabalho a fazer.

    — Você me salvou… Por quê?

    — Ora, não é óbvio? — O homem sorriu. — Pela bondade em meu coração.

    — …

    — Vai ficar com essa cara de bunda até quando?! Foi uma piada, garoto. Além do mais, a sua pergunta foi bem estúpida.

    — O conde…

    — É claro que foi o conde. O pedido foi um tanto… incomum, admito. Estou mais acostumado a trazer os mortos de volta a vida, mas ele pediu para que eu o mantivesse vivo e foi isso o que fiz. Um esforço inútil, se quer a minha opinião. Afinal, você vai ser executado de qualquer forma. Que diferença faz morrer por uma flecha ou enforcado?

    — …

    — Bom, seja como for, meu trabalho está feito. Mas não se preocupe, já estou preparando os materiais e vou trazê-lo de volta o mais rápido que puder, enquanto o seu cadáver ainda estiver fresco. Não vai andar por aí como um saco velho de batatas cheio de estrume igual aos outros.

    — Hum… Obrigado…?

    — Não há de quê.

    O dia já estava bem avançado quando deixou a cabana. A luz do sol lutava para atravessar as nuvens cinzas carregadas que cobriam Thedrit como um manto; aquele reino era sempre frio, escuro e desolado.

    Seus pés descalços tocaram a areia úmida e uma rajada de vento correu em sua direção, atravessando o seu corpo como uma lâmina e gelando até os ossos.

    Sentiu os olhos dos guardas sobre si, mas tudo o que ouviu foi um silêncio mórbido, como se a fortaleza tivesse prendido a respiração para vê-lo. 

    Sua escapada e atentado contra a vida do conde foi, sem dúvidas, um golpe bem duro no orgulho dos soldados, que o encaravam como lobos selvagens, prontos para avançarem em seu pescoço ao menor sinal de desafio. Mas eles nada fizeram. Quem o pegou de surpresa foi uma garota de cabelos castanhos que comia alguns pães.

    Estava apoiada na parede da cabana, bem ao lado da porta. Esperando.

    Assim que o viu, ela deixou cair a bandeja de comida que carregava e então se apressou em sua direção, sorrindo:

    — A-aí está você… Quero dizer, você você, né? Ou é algum tipo de zumbi? — A garota esticou o braço e tocou a bochecha do mercenário, como se isso pudesse revelar algo.

    Quando não parou, Siegfried pegou sua mão e disse:

    — Eu sou eu. Quem é você?

    — Ah, claro. — Ela segurou a barra do vestido e dobrou os joelhos em uma reverência, embora tenha demorado um pouco demais para voltar a erguer a cabeça e, quando o fez, seu rosto estava vermelho como um tomate. — Brynna, ao seu dispor. Estou aqui para deixá-lo apresentável.

    — Apresentável pra quê?

    — Ora, para o seu encontro com o conde, é claro. Sua graça irá recebê-lo em breve. Temos que nos apressar.

    Dito isso, a garota o agarrou pelo braço e o levou aos tropeções até uma sala de banho, onde já havia preparado uma grande banheira de madeira com água quente.

    Então o empurrou para dentro.

    A água cristalina tomou um tom amarronzado quase imediatamente, conforme lavava o sangue seco e a lama de vários dias grudada na pele pelo suor.

    O rapaz então emergiu, tirando as mechas de cabelo molhado da frente dos olhos e sentiu a água se agitar quando Brynna se juntou a ele, já completamente despida.

    — O que você tá fazendo?

    — Te ajudando a se lavar.

    — Você é uma garota.

    — Prefere que um homem faça isso?

    — …

    “Será que todas as mulheres de Thedrit têm a língua afiada e pouca-vergonha?”

    — Uma donzela não devia se banhar com homens — disse por fim.

    Ela começou a rir:

    — Relaxa, eu não vou manchar a sua honra… — disse, se inclinando para mais perto e apoiando as mãos em seu peito. — Muito.

    — Ahem.

    Siegfried viu o terror nos olhos da garota, quando ela se afastou dele o mais rápido que pôde e se levantou, cobrindo as suas partes íntimas com as mãos, de repente muito preocupada com a própria nudez.

    — V-vossa graça… — disse. — E-eu só estava… O conde… E-ele me pediu para…

    A condessa fez um gesto com a mão e a garota se calou, abaixando a cabeça e permanecendo imóvel como uma estátua. Tão quieta que não se ouvia sequer a sua respiração.

    A lady Gaelor então se virou para o mercenário, franzindo as sobrancelhas e elevando o queixo, como se tentasse aumentar a distância entre eles:

    — Você!

    E como se fosse uma ordem, o capitão da guarda que a acompanhava arrancou Siegfried da banheira com um puxão e torceu seu braço para trás, ameaçando quebrá-lo, e forçando o rapaz a se curvar.

    — Olhe para mim, garoto — ela ordenou.

    Siegfried obedeceu e a condessa suspirou.

    — Francamente! Eu não sei o que meu marido tem na cabeça. Talvez você seja melhor em manipular as pessoas do que parece. — Seus olhos buscaram por Brynna, que se encolheu de medo, sem saber para onde ir ou o que fazer.

    — Que merda cê tá falando?

    O guarda torceu um pouco mais seu braço. Ele sentiu alguma coisa estalar e então se calou.

    — A merda que eu tô falando?! Tudo bem, me deixe colocar em termos que até um ignóbil como você possa entender. Você matou meu irmão, invadiu minha casa e tentou assassinar o meu esposo. Não tenha ilusões, você não é bem-vindo aqui! Não posso contrariar as ordens do conde, mas que fique claro…

    Ela se abaixou para encará-lo, e mesmo com o ódio que refletia naqueles olhos verdes, a única coisa que Siegfried conseguiu prestar a atenção foi no seu hálito doce de morangos frescos.

    — Se você fizer qualquer coisa para ameaçar esta família. Qualquer coisa. Nenhuma força neste mundo irá protegê-lo de mim.

    Ela se levantou e foi embora, sem esperar por uma resposta, mas o capitão se deixou ficar. Assim que a condessa deixou a casa de banho, ele o questionou:

    — Você a viu?

    — O quê?

    — Ontem a noite, você invadiu o quarto da condessa. Você a viu em seu leito, não viu?

    — Que merda cê tá falando?

    — É claro que viu. Apostaria minha vida nisso. Só de pensar em um verme como você maculando o corpo de sua graça com esses olhos nojentos… — Ele torceu um pouco mais o braço de Siegfried e, por um momento, pareceu que iria quebrá-lo. — Eu arrancaria seus olhos e o faria comê-los, se a decisão fosse minha.

    — …

    — A condessa lhe deu um aviso. Pois bem! Aqui está o meu. Se os seus dedos algum dia chegarem a tocá-la, eu mesmo o enterrarei vivo na Floresta dos Ingênuos.

    O capitão deu um último torção em seu braço antes de ir embora. Por sorte, não forte o bastante para deslocar o seu ombro; se isso havia sido intencional ou apenas desleixo, não sabia dizer.

    A garota o ajudou a se levantar e então ambos voltaram à banheira. Desta vez, não estava mais tão animada e se limitou a ajudá-lo a se lavar.

    — A condessa estava bem irritada — ela disse. — Mas cá entre nós, acho que ela tem razão. Quero dizer, você tentou matar o conde…

    — …

    — V-você não vai fazer isso de novo… vai?

    — O que você acha?

    — Acho que você é um idiota.

    Ele sorriu.

    — É. Eu também tô começando a achar isso. Mas se vou ser executado de qualquer forma, pelo menos morrerei fazendo de tudo para cumprir com a minha palavra.

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