Índice de Capítulo

    Siegfried achou Dorian sozinho no meio do pátio escuro; apenas ele e sua espada.

    Não tinham se encontrado muito nas últimas semanas. Apenas ocasionalmente o via de longe ou ouvia algo da sua irmã; por isso sabia que ele estava treinando.

    — O papai tá furioso com ele, cê tinha que ver — disse Dara, certa vez. — Nenhum filho meu vai olhar de baixo pra um plebeu, foi o que ele disse. Agora não para de falar sobre família, direitos de nascença e blá-blá-blá. Dá pra acreditar? Dando uma de pai, agora, depois de dezesseis anos. Já tá até falando que eu não me comporto como uma dama, tipo, sério? Cê acredita nisso?

    — Se eu responder, você vai me bater.

    E bateu, porque quando se trata de mulheres, não existe resposta segura.

    Um relâmpago iluminou a noite e o escudeiro viu os resultados do treino exaustivo ao qual Dorian vinha se submetendo. A sua mão sangrava das bolhas que estouraram, de novo e de novo, até ficar em carne viva.

    Sua respiração estava pesada, o cabelo grudava na testa por causa do suor e, apesar de continuar magro, era evidente que os seus braços ficaram mais firmes e fortes.

    Estava se tornando um guerreiro.

    — Maninho, aqui! — chamou Mirabel, acenando com vigor para o seu irmão mais velho, que virou lentamente para eles, finalmente ciente de sua presença.

    Seu olho esquerdo havia perdido toda a cor, até tomar uma tonalidade acinzentada que beirava o branco completo. A cicatriz tinha uma aparência melhor; o sacerdote não foi capaz de devolver a sua visão, mas o deixou menos desfigurado.

    Não seria o rapaz mais cobiçado pelas donzelas, mas tão pouco seria expulso dos círculos sociais. Não que fosse gratidão o que sentia.

    — Você! — Dorian cuspiu a palavra como se fosse veneno, ignorando completamente a irmã e erguendo a espada para Siegfried. — Não bastou aquela traidora. Você tinha que ir atrás da minha irmã mais nova também, né?

    — Eu não sei do que você tá falando.

    — Mentiroso!

    Assim que ouviu o grito, Siegfried puxou as duas crianças para trás de si e sentiu Mirabel se agarrando em sua perna, assustada. Não achava que Dorian fosse louco o bastante para machucar a própria irmã ou o filho do conde, mas não queria arriscar. Não com alguém tão mentalmente instável.

    — É tudo culpa sua — continuou Dorian. — Tudo começou a dar errado depois que você apareceu! Por que o conde te estima tanto? Por que minha irmã escolheu você e não eu? O que você tem que eu não tenho!?

    — …

    — Responda!

    — Sei lá. Os dois olhos?

    Por um momento, Dorian congelou, então sorriu, depois riu e logo estava gargalhando, até o seu estômago doer, mas não havia felicidade alguma nele. Quando conseguiu se recompor, seu olho direito tremia e os dentes estavam à mostra, embora fosse difícil dizer se era um sorriso ou um rosnado:

    — O meu pai está certo. Você respira insultos à minha família. Cada pedacinho de você é uma mancha grosseira na honra da minha casa. E eu não vou deixar nenhum plebeu me olhar de cima!

    — E-espera! — gritou Mirabel. — V-você não–

    — Cala a boca! — A voz de Dorian trovejou e fez a sua irmã se encolher de medo. — Você devia estar do meu lado! Eu sou o seu irmão, não ele! Qual é o seu problema?

    Ela não respondeu, estava ocupada demais tentando engolir o choro… E falhando.

    — Não grita com ela! — Sam tomou a dianteira, erguendo a sua espada curta. Um garotinho de não mais que um metro e quarenta. Esguio e de braços fracos; mas não demonstrou medo.

    — Sai da frente, moleque. — Dorian o encarou como se tivesse acabado de pisar em um monte de estrume. — Acha que eu não vou te matar, só porque é filho do seu pai?

    — Quero ver você tentar–

    E viu.

    Dorian acertou em cheio um chute na cabeça de Sam, fazendo o garotinho voar longe. A violência do golpe foi tamanha, que a espada escapou de suas mãos e deslizou pelo chão.

    Então tudo aconteceu muito rápido.

    Siegfried se inclinou em direção ao filho do conde e fez menção de ajudá-lo, mas Mirabel agarrou a sua perna com força e gritou, impedindo que ele se movesse.

    Foi graças a ela que seus instintos voltaram a assumir.

    Sentiu um frio em sua nuca e então os seus olhos encontraram Dorian, que deslizava até ele como uma serpente feita de sombras, diminuindo a distância entre passos largos. Quando viu a ponta de sua lâmina, ela já estava a um piscar de olhos do seu coração.

    Então puxou a espada da bainha e interceptou o golpe em um único movimento.

    Aço encontrou aço e a lâmina de Dorian escapou de suas mãos, voando por cima da cabeça dele e o deixando exposto. O covarde congelou em uma expressão aterrorizada e deixou tudo mais fácil.

    Acertou um soco em seu rosto, sentindo a carne macia e os ossos duros por baixo. Seu pescoço virou de forma brusca, provocando um estalo, e ele perdeu o equilíbrio, caindo de bruços no chão, com a boca sangrando.

    Mas inteligência não era o forte do jovem fidalgo.

    Estava desnorteado e o seu corpo tremia, ainda assim, tateou o chão em busca da espada, mas foi a de Sam que ele encontrou. Quando se virou e tentou levantar, deu de cara com a espada de Siegfried apontada para a sua garganta e então parou.

    Foi a coisa mais patética que o escudeiro já havia visto.

    Seus olhos se encontraram e Dorian congelou de medo, aguardando o seu destino. Não teve forças para erguer a espada, nem para protestar. Tudo o que fez, foi esperar.

    Igual ao estalajadeiro.

    Siegfried sentiu sua respiração ficar pesada, seu coração disparar e as mãos suarem. 

    Por que tinha que pensar nele… Logo agora?

    Já estava guardando a espada quando foi derrubado. O mundo ao seu redor girou de repente e então bateu a cabeça no chão, fazendo um corte na sua testa.

    Sentiu o joelho de alguém esmagando sua nuca, enquanto empurravam a sua cabeça para o chão e o impediam de se mover. Então tudo foi muito rápido e, antes que se desse conta, já tinha suas mãos amarradas atrás das costas.

    Pegaram sua espada e o puseram de joelhos. Nove guardas estavam ao seu redor. Homens adultos, não muito fortes, mas ainda assim, mais musculosos do que um rapaz de dezesseis anos.

    — Então, finalmente mostrou as suas cores, não é, vira-casaca? — Igmar se aproximou, saindo das sombras e parando diante do rapaz. — Eu sempre soube o que você era.

    — Eu não–

    O escudeiro não viu o chute até que o seu pescoço virasse para o lado. Sua visão ficou embaçada, sua mente vazia e ele caiu no chão, voltando a ser posto de joelhos, mas desta vez, um dos guardas precisou puxar o seu cabelo para trás e levantar a sua cabeça, que estava mole.

    — Você não fala! — disse Igmar. — Acha que essa fortaleza é o seu açougue, por acaso? Que eu não sei o que tá fazendo? Foi ideia daquele pivete, não é? Ele te disse pra se infiltrar aqui e matar todo mundo, né?

    — …

    — Responda!

    — Do que… Você…?

    — Eradan! O Eradan, droga! Foi ele, não é? Foi ele que te mandou aqui pra matar o conde. Anda logo. Admite. Não tenta mentir. Eu te peguei tentando assassinar o sobrinho dele. Qual era o plano? Matar um por um? Responde!

    — Capitão — chamou um dos guardas.

    — O que foi? Não vê que eu tô no meio de um interrogatório, aqui?

    — É o pequeno lorde. Parece que esse verme tentou matar ele também.

    — É-é isso mesmo! — disse Dorian, caminhando para perto de Igmar com um sorriso no rosto. — Foi isso o que aconteceu. O senhor é um gênio, capitão. Esse covarde tentou matar o Samuel. Se não fosse por mim, ele estaria morto agora. Teria matado esse traidor também, se ele não tivesse usado minha querida irmã como escudo.

    — N-não… — Siegfried tentou explicar, mas a sua boca estava seca demais e não conseguia raciocinar direito.

    Então Igmar se agachou ao seu lado e agarrou o seu cabelo, puxando a sua cabeça para trás, até que olhassem olho-no-olho:

    — Hum. Então foi isso o que aconteceu, é? Vou admitir, mesmo pra um mercenário, isso foi baixo demais.

    O capitão empurrou a sua cabeça no chão com força e o escudeiro sentiu seu corpo tremer. De repente ele não conseguia respirar pelo nariz e foi obrigado a puxar o ar pela boca.

    — O conde não vai mais te proteger. Rapazes.

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