Índice de Capítulo

    A chuva já havia se transformado em uma tempestade quando chegaram aos portões da fortaleza, que se abriu de imediato assim que os guardas viram Emelia se aproximando à frente do grupo.

    — Eles voltaram! — gritou um dos soldados. — Avisem a sua graça!

    Siegfried e os outros mal haviam atravessado, quando a condessa veio correndo, abrindo caminho por entre um batalhão de guardas que desmontavam dos cavalos, com as roupas ensopadas d’água, como se voltassem de uma longa patrulha.

    — Eme! — ela disse, abraçando Emelia. Então se virou para Sam e fez o mesmo, como se as crianças tivessem acabado de retornar de algum campo de batalha particularmente sangrento. Então ela viu Siegfried. — Você!

    Os seus olhos brilharam como fogo esmeralda, quando avançou em sua direção:

    — Está louco? Quem lhe deu permissão para levar meus filhos!?

    Siegfried não teve tempo de responder, mesmo com o céu despencando furiosamente sobre eles, logo os portões da fortaleza estavam cheios de guardas e servos curiosos por saber o que havia acontecido.

    — Eles chegaram? — perguntou o conde, com a sua enorme figura se projetando bem acima dos demais, enquanto atravessava a multidão até a sua esposa; mas ao contrário dela, estava calmo e falava tranquilamente.

    — Eu disse que esse mercenário era problema. Ele… — De repente a condessa engasgou e as palavras não saíram. Ela se curvou, perdendo a força nas pernas e o lorde a segurou. — E-eu tô bem. Eu só preciso–

    Ela vomitou ali mesmo. Uma coisa branca, com pequenos pedaços de carne e legumes.

    — P-perdão… — A voz da condessa saiu fraca e estranha, como se ainda segurasse mais coisas por vomitar. — Não estou… Acho que eu…

    Ela tentou ajeitar a postura, mas levantou muito depressa e acabou vomitando um pouco mais.

    — Chamem o sacerdote! — ordenou o conde, já pegando a esposa no colo e carregando-na de volta ao salão, enquanto todos o seguiam.

    Emelia foi atrás dos pais de imediato, mas parou e voltou quando percebeu que Sam não vinha atrás dela:

    — O que você tá fazendo?

    — Eu quero ficar com a Mira — respondeu o garoto.

    — Nossa mãe está doente. Nosso lugar é ao lado dela.

    — A Mira também tá doente. Acabamos de resgatar ela.

    — Seu moleque mal-agradecido. É a sua mãe!

    A irmã insistiu um pouco mais, até que desistiu e foi embora sem ele. A essa altura todos já haviam entrado, deixando para trás Siegfried, Gwen, Sam e Mirabel, tão cansada e fraca que acabou por adormecer no colo do escudeiro.

    Primeiro foram atrás da mãe da menina, mas ela se recusava a abrir a porta da cabana, forçando Gwen a arrombar a fechadura com alguns grampos e permitindo que os quatro entrassem.

    Da primeira vez que o rapaz viu Kethra Essel, ela era uma mulher jovem e bonita, capaz de atiçar o desejo até no mais santo dos homens, com não mais do que um sorriso lascivo em seus lábios e a sugestão do que eles podiam fazer.

    Agora…

    — Saiam! — ela gritou, correndo da cama e se escondendo em um canto mais escuro, incapaz de olhá-los por mais do que alguns instantes. — Vão embora! Eu não quero nada! Saiam!

    Seus longos cabelos loiros estavam agora sujos e embaraçados, tão secos como se fossem feitos de palha. O vestido de algodão, rasgado e em fiapos, quase como se vestisse um saco de batatas. Ela também fedia a carniça, mas nem de longe foi um dos piores cheiros que Siegfried alguma vez sentiu.

    — Vocês não deviam estar aqui — disse Brynna, surgindo de repente por trás deles. — Sua graça disse que não devíamos incomodar a irmã da condessa em seu luto.

    No fim, deixaram Mirabel aos cuidados da garota, mas Sam insistiu em acompanhá-las.

    — Não é à toa que ela fugiu — disse Gwen, assim que se afastaram. — A mãe tá maluca e o pai morto. Isso não faz bem pra cabecinha de uma garota de oito anos.

    — Ela ainda tem a Dara.

    — Ha! E que bela irmã, né?! A garota desaparece por três dias e ela nem sente falta. Não lembro de ter visto a Dara indo procurar a pirralha com a gente, nem vir correndo quando chegamos. Até a condessa notou quando seus filhos sumiram por mais de uma hora. Vai me dizer que ela não percebeu o que tava acontecendo, mesmo depois de toda aquela confusão lá no pátio?

    — …

    — Foi o que eu pensei. A garota não dá a mínima pra irmã. Na verdade, tirando você e o garotinho do conde, acho que ninguém aqui dá.

    “Ela também não liga pro irmão”, Siegfried lembrou.

    Mesmo depois de o rapaz ter desfigurado Dorian, Dara não demonstrou nenhuma preocupação por ele, nem derramou lágrimas por seu pai quando o executaram.

    — Ela só está em choque — disse por fim, mais um pensamento em voz alta do que qualquer outra coisa. E havia dúvida em suas palavras. — É a família dela. Claro que se preocupa.

    — Laços de sangue não significam nada aqui. Só servem pra saber quem você tem que matar e com quem tem que se casar pra subir na vida.

    Ele não tinha resposta para isso.

    Caminharam em silêncio até chegarem ao salão, já com as roupas ensopadas da chuva. O casaco de pele da garota parecia pesado, como se ela arrastasse um lobo de verdade nas costas, mas não tinha outra opção, senão usá-lo; era aquilo ou a seda branca quase transparente que vestia por baixo.

    Os guardas abriram as portas do salão quando se aproximaram e eles entraram, pingando água no assoalho de madeira, conforme iam até às mesas.

    Assim que se sentaram, Gwen desnudou os ombros, deixando o casaco cair até o quadril, aliviando um pouco do peso. Sua pele brilhou com a luz das tochas, enquanto a garota torcia o cabelo, tentando secá-lo um pouco. Do ângulo em que estava, Siegfried podia até ver a ponta dos…

    — Mercenário! — chamou Igmar.

    O rapaz não o tinha visto se aproximar e se sobressaltou assim que o ouviu, de repente muito consciente de que estava encarando demais a garota.

    — O conde exige sua presença. — O capitão deu um olhar carrancudo para Gwen, que retribuiu o favor, fazendo o mesmo. — De vocês dois!

    O homem se virou e eles o seguiram. Não eram poucos os curiosos de pé em frente ao quarto do lorde, mas a maioria estava em seus assentos, bebendo, conversando e cuidando dos seus afazeres.

    Igmar quase esbarrou em Drew, quando o jovem sacerdote saía dos aposentos, e então entraram.

    O conde estava sentado em uma cadeira, ao lado da cama, segurando o cabelo de sua esposa, enquanto ela vomitava em um balde. Quase não notou Emelia de pé em um canto do quarto, com as mãos juntas em frente ao corpo e a cabeça baixa.

    — Vossa graça — saudou Igmar. — Trouxe seu escudeiro e a escrava. Como ordenado.

    — Muito bem! — disse o lorde, se levantando da cadeira, enquanto Emelia corria para tomar o seu lugar e ajudar a condessa. — Minha filha disse que encontraram rebeldes e escravos.

    — Estavam escondidos em uma taverna, vossa graça — respondeu Siegfried. — Matamos sete rebeldes e capturamos o vendedor de escravos. Não tinha homens suficientes para trazê-lo, por isso o deixei em uma de suas gaiolas, junto com os outros.

    — Um mercado ilegal de escravos… — O rosto do conde se contorceu de raiva. — Bem debaixo do meu nariz.

    — Vossa graça — Igmar interveio. — Permita-me investigar o caso. Estarei de volta antes do anoitecer, com todos os traidores que fizeram parte disso e uma resposta decisiva, se for do seu agrado.

    — Esse vendedor de escravos me fez de tolo. Se acha que ficarei aqui parado, apenas esperando por resultados, está muito enganado. Siegfried!

    — Vossa graça.

    — Sele meu cavalo. Você irá me levar até esse mercado de escravos ilegal.

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