Capítulo 0035: Elenor
Um guarda abriu a porta da cela e Siegfried entrou, trazendo consigo uma rajada de vento frio que fez os prisioneiros estremecerem.
O lugar era apertado demais para andar sem pisar em alguém, por isso se limitou a observá-los. Treze homens e duas mulheres, todos despidos, com as mãos e os pés roxos de frio.
Não haviam correntes o bastante para todos, por isso acorrentaram apenas quatro deles às paredes, enquanto os demais tiveram os tornozelos agrilhoados uns aos outros, para não escaparem.
Nenhum deles se atreveu a levantar a cabeça para ver o rapaz, e tudo o que se ouvia era o som de correntes chacoalhando levemente e dentes batendo, enquanto tremiam.
Mas não sentia pena deles.
Deu dois passos à frente e escolheu:
— Ele! — disse, olhando para o taverneiro corcunda que havia sequestrado Mirabel.
Então se afastou e dois guardas vieram, dando pontapés nos prisioneiros que estavam em seu caminho.
O velho esperneou, chorou e implorou, enquanto soltavam as suas correntes e o arrastavam até o lado de fora, mas ninguém se importou. Mesmo os outros prisioneiros pareciam gratos demais em terem sido poupados, para lamentar o destino de um desconhecido qualquer.
Mas o rapaz sabia que ele era apenas o primeiro. Antes do dia terminar, viria buscar todos, um a um.
A fortaleza não tinha uma câmara de tortura, por isso o levaram até a parte de trás da prisão, onde o conde os esperava sentado em uma cadeira ao ar livre. Apesar do frio, tinha o peito peludo nu e usava apenas uma calça de lã negra desgastada e botas de couro.
Quando os viu se aproximar, o lorde se limitou a dar um breve aceno para a cadeira vazia do outro lado da mesa.
O velho corcunda tinha perdido toda a força nas pernas, por isso teve de ser arrastado como uma boneca de pano e quase caiu quando o puseram sentado. O conde descansou as costas no encosto da cadeira e Siegfried permaneceu em silêncio ao seu lado, enquanto os guardas se retiravam.
— M-milorde… — implorou o velho, com a voz rouca. — P-por favor… T-tenha misericórdia. Não sabia quem era a garota, juro. Se soubesse, nunca teria tocado um dedo nela. E não toquei. Não lhe fiz mal algum. Tem de acreditar em mim.
— Eu não tenho que fazer nada! Os seus crimes vão muito além de sequestro. É um vendedor de escravos ilegal e um rebelde.
— N-não! Eu não–
— Eu não lhe dei licença para falar!
— …
— Normalmente eu mandaria que o enforcassem por seus crimes e daria fim ao assunto, Elyon sabe que tenho coisas mais importantes pra fazer do que conversar com vermes como você. E pode ser que eu ainda o faça, mas antes você vai me contar tudo o que sabe sobre Eradan.
— M-misericórdia… Mi-milorde, por favor. Não sei nada a respeito de rebeldes. T-tem de acreditar em mim.
— Você sabe! Fez negócios com eles. Agora, me dê algo útil!
Mas o velho não deu, ao invés disso desabou em lágrimas e soluços que não deixavam palavras coesas escaparem de sua boca. Não que fosse a primeira vez que o rapaz via um homem implorar, mas o conde perdeu a paciência rapidamente.
— Siegfried!
O escudeiro não se demorou. Puxou o braço do velho para cima da mesa e o segurou firme, enquanto o lorde pegava um martelo.
Ouviu-se um ‘tump’ meio abafado por baixo dos gritos do homem, quando o conde pregou a sua mão na mesa. E então a outra. Quando terminou, percebeu que o velho tinha se mijado.
— Agora — disse o lorde —, vamos tentar de novo.
Não que tenha sido uma grande surpresa, mas ele se limitou a chorar e implorar. Então o conde puxou uma faca e começou a serrar seus dedos, um a um.
O grito estridente do velho preencheu a fortaleza com um lamurio de gelar os ossos. Gatos miaram, cães ladraram e cavalos relincharam agitados, mas ele nada disse de útil.
— P-por favor… Mi… Misericórdia…
— Eu te fiz uma pergunta!
— E-eu não sabia… A garota. E-eu não sabia… Juro. T-tem… Tem de acreditar…
— Fale dos rebeldes!
— E-eu não… N-não a toquei. Não lhe fiz mal… Tem de acreditar… P-por favor. Misericórdia…
Um dedo a menos e o velho bateu a cabeça na mesa com tanta força que sua testa ficou vermelha e inchou.
Quando os dedos da mão esquerda acabaram e o conde começou com os da direita, o homem entrou em convulsão, babando sangue, e então desmaiou. Mole como um cadáver recém-morto.
— Guardas!
Os soldados vieram de imediato e levaram o velho de volta para a cela. Siegfried foi com eles e voltou com outro prisioneiro.
E então outro. E outro. E outro.
Um a um, todos foram interrogados. Olhos foram queimados, pele foi esfolada e ossos se partiram aos montes. Cada prisioneiro quebrava mais rápido que o anterior. Algumas informações eram sempre as mesmas; e quando não eram, o conde pressionava ainda mais por detalhes.
Mas nenhum disse o que o lorde queria ouvir.
Até que trouxeram a dona do bordel; uma mulher jovem e altiva, com longos cabelos negros que desciam até a cintura e um sorriso nervoso no rosto.
Estava tremendo de frio quando se aproximou do conde, nua e assustada, como todos os outros antes dela. Mas foi a única que não caiu de joelhos e implorou assim que o viu.
— Milorde — cumprimentou. — Por favor, não há necessidade de me fazer gritar. Sei bem o que quer e não tenho intenção de lhe esconder nada. Certamente não quero acabar como os outros, e creio saber mais do que eles.
O lorde se limitou a observá-la, sentado em sua cadeira, pesando cada palavra dita.
— Minhas meninas já viram de tudo. Todo homem que vem ao vilarejo, vem também até mim, cedo ou tarde.
Ela caminhou até o conde, com as pernas trêmulas, sentou no seu colo, colocou um braço em volta do seu pescoço e aproximou a boca do seu ouvido:
— E eles dizem coisas. Muitas coisas. Aqueles rebeldes, os que foram mortos naquela espelunca, ontem. Eles eram só garotos de recado. A verdadeira mente por trás de tudo é a garota.
— Que garota!?
— Era o que estava tentando descobrir — ela deu um olhar para Siegfried —, antes do seu rapaz ter matado eles. Tudo o que sei é que ela trabalha aqui.
Por apenas um breve instante, viu-se surpresa no rosto estoico do conde.
— Se estiver mentindo…
— Não estou!
— Então admite ser uma rebelde? Estava escondendo eles. Era seu dever me informar da primeira vez que entraram no seu bordel.
— E então você nunca saberia da espiã. Recebo muitos homens. Alguns não gostam do senhor, e outros já fizeram… ‘Coisas’. Pretendia contar aos guardas assim que descobrisse mais. Algo um pouco melhor do que as palavras de um bêbado. Se não acredita em mim–
— Não tenho de acreditar. Vou descobrir. Até lá… Siegfried!
— Vossa graça?
— A senhorita…
— Elenor — respondeu a mulher.
— A senhorita Elenor é nossa convidada. Ache Brynna e diga-lhe para tratar de deixá-la… Apresentável.

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