Índice de Capítulo

    Um guarda abriu a porta da cela e Siegfried entrou, trazendo consigo uma rajada de vento frio que fez os prisioneiros estremecerem.

    O lugar era apertado demais para andar sem pisar em alguém, por isso se limitou a observá-los. Treze homens e duas mulheres, todos despidos, com as mãos e os pés roxos de frio.

    Não haviam correntes o bastante para todos, por isso acorrentaram apenas quatro deles às paredes, enquanto os demais tiveram os tornozelos agrilhoados uns aos outros, para não escaparem.

    Nenhum deles se atreveu a levantar a cabeça para ver o rapaz, e tudo o que se ouvia era o som de correntes chacoalhando levemente e dentes batendo, enquanto tremiam.

    Mas não sentia pena deles.

    Deu dois passos à frente e escolheu:

    — Ele! — disse, olhando para o taverneiro corcunda que havia sequestrado Mirabel.

    Então se afastou e dois guardas vieram, dando pontapés nos prisioneiros que estavam em seu caminho.

    O velho esperneou, chorou e implorou, enquanto soltavam as suas correntes e o arrastavam até o lado de fora, mas ninguém se importou. Mesmo os outros prisioneiros pareciam gratos demais em terem sido poupados, para lamentar o destino de um desconhecido qualquer.

    Mas o rapaz sabia que ele era apenas o primeiro. Antes do dia terminar, viria buscar todos, um a um.

    A fortaleza não tinha uma câmara de tortura, por isso o levaram até a parte de trás da prisão, onde o conde os esperava sentado em uma cadeira ao ar livre. Apesar do frio, tinha o peito peludo nu e usava apenas uma calça de lã negra desgastada e botas de couro.

    Quando os viu se aproximar, o lorde se limitou a dar um breve aceno para a cadeira vazia do outro lado da mesa.

    O velho corcunda tinha perdido toda a força nas pernas, por isso teve de ser arrastado como uma boneca de pano e quase caiu quando o puseram sentado. O conde descansou as costas no encosto da cadeira e Siegfried permaneceu em silêncio ao seu lado, enquanto os guardas se retiravam.

    — M-milorde… — implorou o velho, com a voz rouca. — P-por favor… T-tenha misericórdia. Não sabia quem era a garota, juro. Se soubesse, nunca teria tocado um dedo nela. E não toquei. Não lhe fiz mal algum. Tem de acreditar em mim.

    — Eu não tenho que fazer nada! Os seus crimes vão muito além de sequestro. É um vendedor de escravos ilegal e um rebelde.

    — N-não! Eu não–

    — Eu não lhe dei licença para falar!

    — …

    — Normalmente eu mandaria que o enforcassem por seus crimes e daria fim ao assunto, Elyon sabe que tenho coisas mais importantes pra fazer do que conversar com vermes como você. E pode ser que eu ainda o faça, mas antes você vai me contar tudo o que sabe sobre Eradan.

    — M-misericórdia… Mi-milorde, por favor. Não sei nada a respeito de rebeldes. T-tem de acreditar em mim.

    — Você sabe! Fez negócios com eles. Agora, me dê algo útil!

    Mas o velho não deu, ao invés disso desabou em lágrimas e soluços que não deixavam palavras coesas escaparem de sua boca. Não que fosse a primeira vez que o rapaz via um homem implorar, mas o conde perdeu a paciência rapidamente.

    — Siegfried!

    O escudeiro não se demorou. Puxou o braço do velho para cima da mesa e o segurou firme, enquanto o lorde pegava um martelo.

    Ouviu-se um ‘tump’ meio abafado por baixo dos gritos do homem, quando o conde pregou a sua mão na mesa. E então a outra. Quando terminou, percebeu que o velho tinha se mijado.

    — Agora — disse o lorde —, vamos tentar de novo.

    Não que tenha sido uma grande surpresa, mas ele se limitou a chorar e implorar. Então o conde puxou uma faca e começou a serrar seus dedos, um a um.

    O grito estridente do velho preencheu a fortaleza com um lamurio de gelar os ossos. Gatos miaram, cães ladraram e cavalos relincharam agitados, mas ele nada disse de útil.

    — P-por favor… Mi… Misericórdia…

    — Eu te fiz uma pergunta!

    — E-eu não sabia… A garota. E-eu não sabia… Juro. T-tem… Tem de acreditar…

    — Fale dos rebeldes!

    — E-eu não… N-não a toquei. Não lhe fiz mal… Tem de acreditar… P-por favor. Misericórdia…

    Um dedo a menos e o velho bateu a cabeça na mesa com tanta força que sua testa ficou vermelha e inchou.

    Quando os dedos da mão esquerda acabaram e o conde começou com os da direita, o homem entrou em convulsão, babando sangue, e então desmaiou. Mole como um cadáver recém-morto.

    — Guardas!

    Os soldados vieram de imediato e levaram o velho de volta para a cela. Siegfried foi com eles e voltou com outro prisioneiro.

    E então outro. E outro. E outro.

    Um a um, todos foram interrogados. Olhos foram queimados, pele foi esfolada e ossos se partiram aos montes. Cada prisioneiro quebrava mais rápido que o anterior. Algumas informações eram sempre as mesmas; e quando não eram, o conde pressionava ainda mais por detalhes.

    Mas nenhum disse o que o lorde queria ouvir.

    Até que trouxeram a dona do bordel; uma mulher jovem e altiva, com longos cabelos negros que desciam até a cintura e um sorriso nervoso no rosto.

    Estava tremendo de frio quando se aproximou do conde, nua e assustada, como todos os outros antes dela. Mas foi a única que não caiu de joelhos e implorou assim que o viu.

    — Milorde — cumprimentou. — Por favor, não há necessidade de me fazer gritar. Sei bem o que quer e não tenho intenção de lhe esconder nada. Certamente não quero acabar como os outros, e creio saber mais do que eles.

    O lorde se limitou a observá-la, sentado em sua cadeira, pesando cada palavra dita.

    — Minhas meninas já viram de tudo. Todo homem que vem ao vilarejo, vem também até mim, cedo ou tarde.

    Ela caminhou até o conde, com as pernas trêmulas, sentou no seu colo, colocou um braço em volta do seu pescoço e aproximou a boca do seu ouvido:

    — E eles dizem coisas. Muitas coisas. Aqueles rebeldes, os que foram mortos naquela espelunca, ontem. Eles eram só garotos de recado. A verdadeira mente por trás de tudo é a garota.

    — Que garota!?

    — Era o que estava tentando descobrir — ela deu um olhar para Siegfried —, antes do seu rapaz ter matado eles. Tudo o que sei é que ela trabalha aqui.

    Por apenas um breve instante, viu-se surpresa no rosto estoico do conde.

    — Se estiver mentindo…

    — Não estou!

    — Então admite ser uma rebelde? Estava escondendo eles. Era seu dever me informar da primeira vez que entraram no seu bordel.

    — E então você nunca saberia da espiã. Recebo muitos homens. Alguns não gostam do senhor, e outros já fizeram… ‘Coisas’. Pretendia contar aos guardas assim que descobrisse mais. Algo um pouco melhor do que as palavras de um bêbado. Se não acredita em mim–

    — Não tenho de acreditar. Vou descobrir. Até lá… Siegfried!

    — Vossa graça?

    — A senhorita…

    — Elenor — respondeu a mulher.

    — A senhorita Elenor é nossa convidada. Ache Brynna e diga-lhe para tratar de deixá-la… Apresentável.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (2 votos)

    Nota