Capítulo 0039: Fuga à meia-noite
Siegfried estava polindo sua espada quando viu a primeira serva sair correndo aos prantos dos aposentos do conde. Alguns minutos mais tarde, um guarda conduziu outra garota até o quarto, e então outra, e outra.
Ninguém viu quando começou, mas não demorou muito até que todos soubessem exatamente o que estava acontecendo.
“Ele tá caçando a espiã.”
Algumas garotas tremiam, outras choravam, mas todas estavam pálidas e suando frio. Uma delas ficou tão assustada ao ser chamada para ver o lorde, que se mijou e perdeu toda a força nas pernas, caindo no chão e tendo de ser arrastada enquanto soluçava de medo.
Mas nenhuma delas foi ferida.
Quando a condessa soube o que estava acontecendo, invadiu o quarto, mas não demorou mais do que dois minutos antes de sair furiosa.
Uma a uma, todas as mulheres do salão foram chamadas. E após algumas horas, havia finalmente chegado a vez de Brynna; a garota fez o caminho com coragem, até seus olhos encontrarem Siegfried e Gwen, então ela tropeçou no nada e quase caiu.
— E lá se vai a sua última oportunidade — disse Gwen, assistindo à porta se fechar atrás da garota. — E pensar que tanta gente morreu por essa informação. Se não ia usar, devia ter dito antes.
— Não temos certeza.
— Ha! Boa. Afinal, não é como se ela estivesse gritando ‘traição’ na sua cara, né? O que mais cê quer? Uma plaquinha escrita: ‘eu odeio o conde’ em volta do pescoço? É ela, e você sabe disso!
Quando Siegfried não respondeu, ela deixou um suspiro escapar e disse:
— Cê devia ter sido um cavaleiro branco.
— Quê?
— É uma ordem de cavaleiros religiosos, aí. Eles são iguaizinhos a você. Proteger os fracos, matar o mal, não deixar garotas serem esfoladas vivas, essas coisas. Tudo bem cavalheiresco… Só que você não é! Quando um cavaleiro branco esconde algo do seu lorde, os bardos escrevem belas canções sobre a sua integridade e valores. Quando um mercenário faz isso…
De repente, a porta dos aposentos se abriu e Brynna deixou o local, com as pernas trêmulas e o rosto pálido como leite azedo. Então outra garota foi chamada.
— Parece que a sorte tá do seu lado — disse Gwen.
Mas o rapaz nada disse ao conde e, àquela noite, ela dormiu irritada com ele.
Siegfried fechou os olhos e ficou quieto pelo que pareceu ser uma eternidade, mas o sono não veio. O som de roncos, chorinhos e passos tímidos lhe eram insuportáveis, então desistiu de dormir e encarou o teto, até que seus olhos se acostumaram com as sombras e começaram a identificar as formas ao seu redor.
Só notou que havia adormecido quando acordou com o latido dos cães.
Então todo o salão estava de pé.
Siegfried pegou a espada e correu para ver o que estava acontecendo. Os portões estavam abertos e os guardas corriam de um lado para o outro aos gritos. Então ele avistou o conde dando ordens e se aproximou:
— Vossa graça?
— Ah! Bem na hora — disse o lorde. — Já estava indo mandar alguém acordá-lo. Sele meu cavalo!
— O que houve?
— Achamos a espiã.
Por um momento, o rapaz sentiu seu sangue gelar, então correu para cumprir suas ordens, mas selou também o seu cavalo. Quando terminou, uma dezena de guardas já tinha saído a pé, enquanto uma dúzia montada a cavalo se reunia para ouvir as palavras de seu lorde.
Siegfried entregou as rédeas para o conde, que montou, e então fez o mesmo, se colocando ao lado dele.
— Escutem! — A voz do lorde trovejou, fazendo a fortaleza prender a respiração e cair em um silêncio profundo para escutá-lo. — Menos de uma hora atrás, as sentinelas avistaram uma serva fugindo por uma passagem secreta. Tenho todos os motivos para acreditar que ela seja uma espiã que tem vendido informações para Eradan e seus rebeldes. Eu a quero viva! Achem-na!
Os homens urraram em consentimento e então dispararam portão a fora, se espalhando pelas ruelas do vilarejo, enquanto os guardas a pé invadiam as casas.
— Sieg! — gritou Gwen, tremendo de frio em seu vestido curto de seda, com o nariz vermelho e o rosto corado. Pela primeira vez, parecia preocupada.
Siegfried puxou as rédeas, girou o cavalo e então disparou até o vilarejo, deixando-na para trás.
♦
Era noite de lua crescente e as ruas estavam tão escuras que cavalgar por elas não era diferente de mergulhar em um abismo. Os guardas mais espertos logo reduziram à velocidade de trote, mas Siegfried não foi um deles.
Atravessou sozinho a escuridão, atento à cada sombra espreitando nos becos, e não demorou até que estivesse tão longe dos outros, que não se ouvia nada além dos cascos do seu cavalo na terra enlameada.
Foi então que a encontrou.
Apenas por um instante, ele viu uma sombra se mover na escuridão e quando parou para olhar mais de perto, ela correu, mas não muito longe.
Siegfried fez o cavalo avançar e a encurralou em um beco sem saída.
A luz da lua não os alcançava ali, e o rosto da garota lhe era invisível. Uma sombra que se movia entre as sombras. Mas não precisava vê-la para saber quem era.
— Brynna — chamou.
— S-Sieg…!? — Ela começou a soluçar. Estava chorando, e ele não precisava ver seu rosto para saber disso. — Não. P-por favor… Não pode. E-eu não… Eu não quis. Ela disse que… Por Elyon. Por favor, tem de me ajudar. Por favor.
“Eu não posso”, pensou, apertando as rédeas e fazendo o cavalo balançar a cabeça incomodado. “É traição!”
— Você sabe que sou inocente — ela continuou —, por favor. Não quis–
— Você vendeu a Mira!
— Não! Eu nunca… Não foi assim. Ela já tinha sumido. Procuramos por todos os lados… Eu não queria… Só disse a eles. Disse que ela tinha fugido. Só isso. Se eu soubesse…
— …
— Não era… Não era pra ter sido daquele jeito.
— Por que você fez isso?
— E-eu… Eu não posso. Eu prometi.
— O que você prometeu? — Ele fez o cavalo se aproximar e então se inclinou para agarrá-la pelo braço. — Por que está ajudando Eradan?
— Eu não estou!
— O que ele tem contra você?
— Me solta!
— Você tem que me contar!
— …
— Brynna!
— A Eme…! Ela me pediu. Eu não podia dizer não. É minha melhor amiga… Minha única amiga. Eu não podia deixar ela fazer isso sozinha. Ela morre de medo dele.
— ‘Dele’ quem?
— O conde! Ele é louco, Sieg! As coisas que ele fez. O bruxo envenenou a sua mente. Ele traiu a igreja, ele traiu Elyon, o reino! Se ninguém fizer nada. Se ninguém parar ele. Por favor, tem que me ajudar.
O rapaz não teve tempo de responder.
Estava tão concentrado na garota, que só notou os homens atrás de si quando os cães começaram a latir e fizeram o seu sangue gelar.
— Aí está ela — disse o conde, com um tom de satisfação em sua voz. — Bom trabalho, garoto.

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