Capítulo 0045: Ventos do inverno
O primeiro dia de inverno começou com uma leve nevasca e ventos fortes uivando pelos telhados de madeira e telhas de turfas do Salão dos Poucos.
Não houve desjejum, nem almoço, pois aquela era uma ocasião especial; o dia da humildade.
— O povo de Elyon veio pra essas terras como refugiados e ex-escravos — explicou Gwen. — Não era uma época muito legal de se viver, e eu nem tô falando dos selvagens que já estavam aqui. A fome matava MUITO! Então o rei Elyon teve uma ideia maluca: ele começou a dividir as próprias provisões com os servos e, bem, é claro que seus homens mais próximos fizeram o mesmo. Virou algo meio cultural depois disso, sabe? Um dia inteiro de jejum, pra nunca esquecermos de onde viemos, e um belo banquete à noite, porque ninguém é de ferro. Relaxa, amanhã tudo volta ao normal.
Mas o povo de Dragoslav tinha outros costumes.
Quando a última luz do dia morreu, Siegfried foi até o pátio com uma pequena gaiola de madeira e retirou a sua túnica, deixando o peito desnudo para mostrar aos deuses que não temia o frio, e então acendeu uma pequena fogueira.
Ao terminar, se ajoelhou em frente ao fogo e recitou sua prece na língua dos anões:
— Ó, grande Dragoslav, patrono dos anões e senhor das montanhas, rogo pela tua proteção e orientação neste inverno que se inicia. Dê-nos força e coragem para enfrentar os desafios que virão, e ilumina nossos caminhos para que não nos percamos na escuridão. Proteja-nos dos perigos e males que nos cercam, e conceda-nos vida e saúde para continuar a lutar em teu nome. Faça com que teus ensinamentos e bênçãos sejam nosso escudo contra a adversidade e nos guie em direção à vitória. Que assim seja!
Então abriu a gaiola que estava ao seu lado e tirou de lá a melhor oferenda que pôde conseguir; uma galinha jovem e que dava muitos ovos. Teria preferido o galo, mas a responsável pela granja se mostrou inflexível.
Siegfried torceu o pescoço do animal, enquanto ele lutava para escapar, e então o jogou no fogo.
— Que essa pequena oferenda seja do seu agrado.
Se perguntou então o que Lura e seus irmãos em Qaredia estariam oferecendo a essa hora.
“Com certeza, algo muito melhor do que uma galinha”, pensou, olhando o céu escuro e sem estrelas.
— Que cheiro bom — disse Dara, encolhida em seu grosso manto de pele; o nariz vermelho e o hálito gelado formando uma leve fumaça quando falava. — Mas acho que não é assim que se faz galinha assada.
— É uma oferenda.
— Ah! Legal. É tipo, uma coisa dos anões ou dos mercenários?
— … Anões. O único ritual que os mercenários conhecem, é afiar bem suas espadas antes de uma batalha.
Ela sorriu e então se ajoelhou ao seu lado.
— O que eu tenho que fazer?
— …
— Que foi? Não posso?
— Não… Hum. Você só tem que pedir…
— O quê?
— Proteção. Sabedoria. Qualquer coisa que lhe falte.
— Saquei. — Ela juntou as mãos no peito e fechou os olhos: — Ó… Hum… Deuses anões…
— Dragoslav.
— Ah! Valeu. Ó, Dragoslav, deus dos anões. Por favor, proteja minha família… Essa guerra, bem, ela não tem sido boa pra gente. Seria legal se você fizesse algo, sabe? A-acho… Acho que eu nem ligo mais pra quem vence. Se eu puder viver bem, já seria o bastante. Nada muito exagerado. Quero dizer, a menos que você queira, tá? Uma casinha quente com três ou quatro servos já tá bom pra mim.
Ela hesitou por um momento e então sussurrou a última parte:
— Também seria bom se você fizesse ele notar…
Siegfried a observou em silêncio, enquanto Dara abria os olhos lentamente, sem saber ao certo o que devia fazer em seguida.
— E-e aí? — perguntou ela. — Acabou?
— Acabou.
— Ah! Legal. E, hum, funcionou?
— Se ainda estivermos vivos quando a primavera chegar, sim.
— Isso foi meio mórbido… Beleza! Então agora eu vou te mostrar os costumes do meu povo! — Ela se levantou sorrindo e pegou o seu braço, o forçando a se levantar também. — Vem!
Siegfried vestiu a túnica novamente e a seguiu.
♦
O salão estava animado e barulhento, bem mais do que o normal.
Bandejas de comida e bebida vinham, mas não chegavam muito longe; grupos de soldados logo as tiravam das mãos das servas e dividiam entre seus colegas aos risos.
Alguns guardas puxavam também as garotas para o próprio colo e beijavam seus pescoços; os mais bonitos recebiam mais beijos em troca, enquanto os outros ganhavam apenas um tapa ou caneca de cerveja despejada em sua cabeça.
Não haviam bardos, mas alguns soldados tinham instrumentos em mãos e os tocavam com vigor, enquanto seus amigos dançavam em cima das mesas ou batiam palmas e cantavam.
Era impossível dar dois passos sem esbarrar em alguém. De algum modo, o salão parecia mais cheio do que o normal.
Mas nem todos estavam se divertindo.
Elenor tinha assumido a função de copeira do conde e passou a noite inteira aos risinhos com o lorde, para o desgosto da condessa, que bebia em silêncio ao lado do marido, fazendo o melhor que podia para ignorar a mulher.
“Foi a única que escapou da gaiola, mas ainda flerta com a morte.”
Dara riu, pegou duas canecas de cerveja de uma serva que estava passando e entregou uma para Siegfried.
— Ao novo vice-capitão! Saúde! — ela disse, bebendo tudo de uma vez.
O rapaz fez o mesmo. Amargo.
Quando terminou, ela segurou suas mãos e o puxou para uma dança, mas desistiu da ideia depois que ele pisou em seu pé algumas vezes, então os dois foram se sentar e dividiram uma perna de ovelha cozida com legumes.
Não tinha notado antes, mas a garota parecia mais bonita do que o normal.
Quando notou que ele a observava, Dara se moveu mais para perto, até ficarem com os quadris colados um no outro, e aproximou o rosto para dizer algo em seu ouvido…
— Sieg! — gritaram Mirabel e Sam, correndo até eles, cada um com uma espada curta na mão.
Uma serva perdeu o equilíbrio e derrubou um jarro de cerveja no chão quando as crianças deslizaram ao redor dela; a mulher gritou pragas e reclamou, mas eles a ignoraram, passando por debaixo da mesa e parando ao lado de Siegfried.
— Vieram me matar? — brincou o rapaz.
— N-não! — gritou Mirabel.
— Claro que não! — concordou Sam.
— Então?
A garotinha abaixou a cabeça, segurando a barra do vestido com uma mão, respirou fundo e tomou coragem para dizer:
— O-obrigada por me salvar! E-eu… Hum… É… P-por favor, me deixe ser sua escudeira!
— … Quê!?
— E-eu quero aprender a lutar e ficar forte que nem você! Quero poder me defender e ajudar os outros! Então, por favor…
Ela se ajoelhou, entregando a espada para Siegfried em um gesto de devoção.
— Eu também! — disse Sam, fazendo o mesmo. — Quero ser forte e proteger os outros sozinho!
— Eu não sou cavaleiro — disse Siegfried. — Não posso tomar escudeiros.
— Eu não ligo! — respondeu Mirabel com firmeza.
— Nem eu! — concordou Sam.
O rapaz sorriu:
— Cês vão se arrepender disso.
Então bagunçou o cabelo da Mirabel e as crianças se entreolharam por um momento, antes de pularem de alegria e sentarem à mesa com Siegfried e Dara.
Foram muitos pratos e ainda mais canecas de cerveja até que todos adormecessem no chão quente e aconchegante, mas a festa continuou por muito mais tempo depois disso.
O rapaz acordou com os primeiros raios de luz, como de costume, bem a tempo de ver Igmar e seis dos seus homens mais leais partindo.

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