Capítulo 0062: Teia de mentiras
Era uma noite clara.
Não havia nuvens e o céu era um mar de estrelas azuis iluminando as ruas escuras.
“Uma bela noite”, pensou Siegfried, cavalgando a passo lento colina abaixo.
O dia havia chegado.
Todas as janelas estavam fechadas, todas as portas trancadas e não havia sinal de mendigos ou órfãos em parte alguma. Era como se todos tivessem desaparecido, deixando o vilarejo só para ele.
O rapaz virou a montaria e entrou em um beco, e depois outro, cada vez mais fundo na escuridão, até que finalmente chegou ao Saqueador Paciente. Amarrou as rédeas do seu cavalo em uma pilastra de madeira qualquer que havia por perto e então entrou, quase escorregando em alguma coisa pegajosa assim que passou pela porta.
A taverna havia sido completamente depredada. Levaram todas as bebidas, é claro, mas também as mesas, cadeiras, tábuas, portas; qualquer coisa que não estivesse grudada no chão. Tudo o que restava agora era um estabelecimento vazio de madeira podre.
Siegfried caminhou alguns passos até o centro, fazendo o assoalho ranger sob seus pés, então ela apareceu…
Uma sombra se moveu por entre as outras e saiu de um canto mais escuro do salão, vestindo uma capa negra, com o rosto escondido debaixo do capuz. Nem a teria notado se não fosse o ruído da madeira.
Quando ela finalmente chegou perto, o rapaz já tinha se acostumado com a falta de claridade.
— Gwen?
A garota tirou o capuz e seus olhos brilharam como pequenas fagulhas azuis. Seus lábios se curvaram em um sorriso arrogante e ela correu alguns passos em sua direção:
— Já tava achando que–
Então parou abruptamente.
Foi a primeira vez que a viu chocada.
Uma rajada de vento frio invadiu o local quando três de seus homens entraram, bloqueando a única saída.
— Você trouxe eles?! — perguntou Gwen, com uma voz quase triste.
— …
— Tsc! E eu achando que… Humpf! Eu já devia saber. E aí? Veio me prender ou me matar?
— Vim atrás de respostas.
Os guardas começaram a se espalhar pelo local, andando discretamente; não haviam portas, mas um deles bloqueou a passagem que levava até o porão, outro fez o mesmo com a que levava até o segundo andar, enquanto o terceiro buscava um ponto cego atrás da garota.
Siegfried era a única coisa entre ela e a saída.
— Falei com a Eme — continuou o rapaz. — Ela me contou do seu plano. Disse que você é uma assassina da igreja. Leal ao príncipe Helmut.
— E a Letya acha que eu sou só uma ladra atrás do ouro. Conto uma mentira diferente pra cada um, assim sempre sei quem foi que me traiu.
— Então não planejava matar o conde?
— Se eu disser ‘não’, cê dá meia volta e vai pra casa com o rabo entre as pernas?
— …
— É, foi o que eu pensei.
— A invasão… Foi você, não é? Contou a eles como entrar no Salão. O que mais? Os turnos? As rotas? Quantos homens? Quais armas? Onde a família do conde dormia? Teve alguma coisa que você não contou!?
Quando ela não respondeu, ele ficou ainda mais irritado:
— Eles vieram atrás da Dara!
— Peraí! Então é por isso?
— Ela quase foi sequestrada!
— Quem se importa com a sua namoradinha!? — ela gritou, furiosa.
— Você sabia!?
— É, eu sabia. E daí!?
— …
— O plano era levar as duas, mas tá na cara que não deu muito certo, né? Acho que temos que te agradecer por isso. Pensaram que sem o conde aqui, ia ser fácil, mas cê se saiu bem. Matou um monte de mulheres e crianças, mas ei, pelo menos cê trouxe a sua namoradinha de volta. É só isso que importa, né?
Então os gritos cessaram.
— Eu confiei em você — Siegfried deixou escapar sem notar, quase um sussurro.
Por um momento, pareceu que Gwen diria algo, mas então a confusão começou.
A madeira rangeu quando um dos seus guardas avançou e ela puxou uma besta debaixo da sua capa. A seta serpenteou no ar, quase invisível, e errou a cabeça do alvo por pouco menos de cinco centímetros, antes de desaparecer na escuridão.
O soldado deu um grito de guerra com a espada em riste e teria aberto o crânio dela, se fosse um pouco mais rápido. Gwen deu uma cambalhota para o lado e rolou para longe do golpe; a lâmina estilhaçou o assoalho podre, levantando poeira e lascas de madeira.
— Vagabunda! — gritou o guarda, arrancando o aço do chão com um puxão. — Fica parada!
— Acho que cê não entendeu bem como uma luta funciona — zombou a garota, puxando outra seta e recarregando a besta.
De repente um segundo soldado apareceu por trás dela e Siegfried levou a mão ao cabo da espada, sentindo seu sangue gelar quando a lâmina desenhou seu caminho até o pescoço da garota.
Mas então ela desprendeu a capa e o tecido se enrolou no rosto do guarda, que recuou cortando o ar com a espada, tentando inutilmente acertar algo. A essa altura, Gwen já havia se afastado e terminado de recarregar a sua besta.
Quando o soldado finalmente arrancou o pano do rosto, deu de cara com ela ajoelhada a pouco mais de dois metros de distância, com uma seta apontada para ele e congelou.
Mas Gwen hesitou e a morte mudou sua presa.
— Te peguei, vadia!
Nem Siegfried notou o terceiro guarda até que ele já estivesse bem em cima da garota. Sua lâmina acertou em cheio o ombro dela e a lançou longe; um grito ecoou pelo salão vazio e ela deslizou no chão, deixando a besta escapar por entre seus dedos.
Então a maré virou rapidamente.
Ela parou bem aos pés de um outro guarda, que desceu a espada contra o seu rosto e por pouco não abriu seu crânio quando ela rolou para o lado. A lâmina atravessou o piso e uma pequena nuvem de poeira cobriu a cabeça da garota, que se levantou de olhos fechados e tossindo.
“Um cisco”, percebeu Siegfried.
Aquilo era a pior coisa que poderia ter acontecido naquele momento.
Um soldado veio correndo na direção dela, mas a garota só desviou no último segundo, fugindo até uma pilastra de madeira enquanto esfregava os olhos loucamente. Pouca diferença fez. Não podia enxergar e o rapaz sabia disso.
Os guardas a perseguiram como cães selvagens e a garota recuou para o canto mais escuro do salão.
“Acabou”, por um momento, foi o que Siegfried pensou, até que ela passou pelos três como uma serpente, deslizando por entre suas pernas e saindo do outro lado.
Quando finalmente perceberam o que ela estava fazendo, já era tarde demais e Gwen subia as escadas até o segundo andar.
— Lá em cima! — gritou um deles. — Ela tá fugindo!
Então os três foram atrás dela, mas Siegfried não fez menção de segui-los.
Ouviu passos no andar de cima, primeiro leves e rápidos, então ruidosos e descoordenados, por isso não foi difícil saber onde cada um estava.
A garota correu até os limites do prédio, ouviu-se o som de vidro se estilhaçando e então tudo ficou em silêncio, até que seus homens chegaram ao mesmo local e pararam. Por um momento, pensou que eles a tivessem encurralado, mas estava quieto demais.
Menos de dois minutos depois, voltou a ouvir os guardas. Dessa vez faziam o caminho de volta, quase arrastando os pés de má vontade. Quando desceram, vieram sozinhos e com cara de derrotados.
Os três formaram uma fileira na frente do capitão, como um grupo de crianças buscando coragem para contar à mãe que quebraram a sua louça favorita.
— Capitão — falou um deles —, ela escapou.
— Saltou da janela e escalou o prédio ao lado — acrescentou outro de imediato. — Se chamarmos mais homens, talvez–
— Não precisa — disse Siegfried. — Tínhamos uma chance e falhamos, duvido que voltemos a vê-la. De qualquer forma, eu já consegui tudo o que precisava. Vamos voltar.

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