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    Foi um dia agitado para as cozinheiras.

    O desjejum tinha sido simples, nada mais do que mingau de aveia, pão de alho e leite. Ninguém ali esperava a visita da baronesa Kessel, tão pouco a presença de mais 34 de seus guardas e outras 10 servas de companhia.

    Pouco importava. O barão Kessel era um vassalo de grande prestígio para o conde e a sua esposa merecia um tratamento adequado à sua posição, por isso tiveram nada menos que um banquete no almoço; cordeiro assado no espeto, nozes com mel, truta defumada, barris de vinho e muito mais.

    Não havia espaço no estrado, por isso o conde e sua esposa puseram uma mesa na parte baixa, aos pés do trono, com a baronesa Kessel recebendo um lugar de honra ao lado esquerdo do lorde.

    Devido à sua posição inferior, Siegfried passou o banquete inteiro recluso em um canto do salão, enquanto seus guardas bebiam com os da lady Kessel.

    Ninguém falou do motivo para ela estar ali, mas qualquer idiota com meio cérebro podia notar. A baronesa passou a maior parte do evento com a sua futura nora, Emelia, que ocupava um assento ao seu lado.

    Quando o conde retornou da Torre da Justiça, sua esposa não perdeu tempo em contar tudo o que aconteceu na sua ausência. Tão logo soube que Gwen era uma espiã, mandou chamar Siegfried e a primeira coisa que perguntou foi:

    — Minha filha… Ela desempenhou algum papel nisso?

    — Foi ela quem me avisou, vossa graça. Na noite em que os rebeldes atacaram, ela veio até mim e confessou tudo.

    — Então isso é um sim.

    — …

    — Humpf. Ela não aprende mesmo. Primeiro a Brynna e agora essa Gwen… Tinha tantos planos pra ela. Pra vocês dois… Acho que não tenho escolha. Não posso mais ter um traidor sob meu teto. Quando a primavera chegar, vou mandá-la pra Cidade Pequena. Já passou da hora de lhe arranjar um marido. Talvez um bebê ou dois seja exatamente o que precisa pra pôr um fim nessas conspirações.

    O conde escreveu as cartas naquele mesmo dia, convocando os seus vassalos para a guerra. A primeira ainda devia estar a caminho de Vila da Truta, mas a segunda foi entregue aos Kessel com mais do que uma ordem de recrutamento.

    — Ela tá bonita, né? — perguntou Dara; a única sentada perto de Siegfried. — A Eme, quero dizer.

    O rapaz deu um breve olhar em Emelia, sentada ao lado da baronesa Kessel e bebericando uma taça de vinho, enquanto sorria e ouvia o que sua futura sogra tinha a dizer. Seus cabelos negros estavam presos em uma longa trança decorada com pequenas fitas e usava um belo vestido de seda branca com mangas longas que cobriam os braços até os punhos, uma gola alta adornada com rendas delicadas e um colar de pérolas.

    A aparência de uma donzela recatada.

    — Soube que o filho do barão é um rapaz galante — prosseguiu Dara. — Ela tem sorte. Os únicos homens que querem a minha mão são traidores e rebeldes.

    Ela esticou a mão por baixo da mesa e segurou a de Siegfried. Quando o rapaz não a afastou, ela se aproximou mais e entrelaçou seus dedos aos dele, descansando a cabeça em seu ombro.

    Siegfried não sabia o que dizer, por isso falou o que achou que toda donzela queria ouvir:

    — O conde vai conseguir um bom casamento pra você.

    — Não, ele não vai. Não restaram muitos rapazes solteiros aqui no sul e a Eme acabou de pegar o melhor deles… Talvez o Adrien. Ele é só um ano mais velho e o segundo filho do barão Dalton, mas eu soube que tirou a virgindade de uma das filhas do lorde Kessel no verão passado. O mais provável é que ele a despose em breve. Depois disso, só vão restar crianças e velhos pra mim…

    Ela apertou a mão de Siegfried e segurou o seu braço com a outra.

    — Talvez eu vire uma sacerdotisa… E você?

    — Como assim?

    — Ah! Vamo lá, ‘capitão’. Todo mundo sabe que o conde vai te armar cavaleiro assim que voltarem da guerra. Aposto até que ele vai te dar a Torre da Justiça e todo mundo vai começar a correr pra te casar com uma de suas filhas. Sei de pelo menos quatro que podem ser sua futura esposa. Três, se o Adrien e a Alethra se casarem. Deve estar ansioso, né?

    — Eu não vou me casar com nenhuma delas.

    Dara afrouxou os dedos e ficou em silêncio por um momento, antes de finalmente perguntar:

    — Gwen?

    Foi o que bastou.

    Na mesma hora, Siegfried soltou a mão dela e se afastou irritado:

    — O que tem ela!?

    — E-eu só pensei–

    — Não pense! Ela é uma traidora e não significa nada pra mim!

    O clima ficou desconfortável depois disso e Dara se manteve em silêncio, mas o banquete seguiu sem problemas, embora Siegfried tenha deixado o salão antes de terminar, se sentindo duro e sem jeito entre os convidados barulhentos.

    Voltou ao pátio de treinamento e lá ficou, praticando até que ela apareceu…

    — Não está um pouco frio pra isso? — perguntou a baronesa Kessel. Sozinha.

    — Milady? — Siegfried guardou a espada e fez uma pequena reverência.

    — Não seja tão cordial, rapaz. — Ela sorriu. — Certamente não combina com você.

    — …

    — Deu pra sentir o ódio da lady Gaelor quando eu comentei sobre esse jovem rapaz que se parecia tanto com o filho dela. Deve me desculpar, mas bem me lembro de ter visto Theron pela última vez quando tinha mais ou menos a sua idade, e vocês dois bem poderiam ser gêmeos.

    — Me pergunto o porquê dela ter ficado irritada.

    — Hahaha. Realmente. Mulher nenhuma gostaria de ver o bastardo do seu marido andando por aí, ainda mais na casa dela.

    — Não sou filho do conde.

    — Essa parece ser a história oficial, mas tem de me perdoar se acho difícil acreditar que o lorde Gaelor acolheu um mercenário qualquer sob seu teto e, em menos de meio ano, fez dele o capitão da sua guarda doméstica.

    — …

    — Não me entenda mal, meu marido já teve um escudeiro, sabe? Um rapazinho chamado Adrien Dalton, duvido que o conheça. Enfim, o criou como se fosse seu próprio filho, então sei como os homens podem ser paternais às vezes.

    — Com todo o respeito, milady, onde quer chegar?

    Ela sorriu.

    — Só estou tentando ser legal.

    Mas antes que pudesse dizer algo mais, algumas servas vieram do salão procurando pela baronesa, que as avistou de longe e deixou escapar um suspiro:

    — Parece que já sentiram minha falta. Minhas garotas podem ser tão carentes às vezes, por isso continuam solteiras. Se me dá licença.

    Então se virou e já estava indo embora, quando parou por um momento e acrescentou:

    — Devia vir nos visitar na Cidade Pequena, qualquer dia. Quem sabe? Talvez goste da vista.

    E foi embora.

    O rapaz não conseguia ver como aquilo podia ser uma ameaça, mas ainda assim fez o seu sangue ferver. Seus batimentos aceleraram e seus sentidos se aguçaram como se estivesse no meio do campo de batalha.

    Levou apenas algumas horas para a condessa vir procurá-lo depois disso.

    E ela não parecia nada feliz.

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