Capítulo 0075: A escuridão que os espreita
Lili foi a primeira a dormir. Estava tão cansada que desmaiou de sono assim que se deitou. Nem sequer parecia considerá-los seus captores ou se dar conta de que era uma prisioneira; não que ela parecesse uma.
Os recrutas fizeram o mesmo.
O barão Kessel foi quem determinou os turnos de vigília; como eram oito, cada dupla teria apenas um turno de duas horas. Então os dois primeiros assumiram seus postos e os outros foram dormir.
Siegfried não tinha trazido a sua tenda. A floresta não era um lugar adequado para isso. Então teve de se contentar com uma árvore qualquer; sentou com as costas apoiadas no tronco e a espada em seu colo, como fazia na sua época de mercenário. Não era confortável e sempre acordava com o pescoço doendo, mas o deixava alerta.
O sono não demorou a vir.
Estava tão cansado da noite passada que bastou fechar os olhos para se sentir tonto. Nem se deu conta de que estava dormindo, até que a floresta desapareceu ao seu redor e ouviu a voz de Lura em seus sonhos:
— Eu confiei em você.
Seus cabelos estavam em chamas, como sempre acontecia em seus pesadelos. Ao seu redor, nada além de escuridão; não haviam árvores, nem céu ou o que fosse. Apenas um breu eterno.
— Você quebrou seu voto! — ela disse.
— Não! Não foi assim!
— Você jurou!
Os cabelos dela perderam o calor e começaram a se apagar, enquanto Siegfried corria para alcançá-la:
— Espera!
Sua voz ecoou pela escuridão, mas era tarde demais.
Estavam a menos de dois centímetros um do outro, quando a luz dela se extinguiu e o chão desapareceu sob seus pés, fazendo-o cair em um abismo sem fim.
Então acordou, ainda sentado na árvore em que adormeceu. Tinha o coração acelerado, mas se acalmou ao ver a floresta escura ao seu redor. Estavam no meio da madrugada, provavelmente no segundo turno, mas não conseguiu voltar a dormir.
Nem teve tempo de tentar.
Um braço em estado avançado de decomposição saiu do chão e agarrou sua perna.
Como um reflexo, Siegfried decepou a mão antes mesmo de entender o que estava acontecendo e se levantou. Apesar do ferimento, a criatura abriu seu caminho lentamente até a superfície, escavando a terra com a mão que restava; os dedos enegrecidos sujos de sangue.
Mas não foi a única.
Um odor pútrido tomou conta do acampamento, conforme mais cadáveres saíam do chão, como vermes rastejando para fora de uma carcaça podre. Bastava uma olhada em seus trapos para ver que tinham sido refugiados em vida; mortos das piores formas possíveis. A maioria por lobos e outros animais.
— Inimigos! — gritou um dos vigias, cercado por dois zumbis. Ele até conseguiu derrubar um deles, mas entrou em pânico ao ver que uma dúzia de mortos-vivos se espalhava pelo acampamento e o segundo zumbi o derrubou no chão, mordendo a sua garganta feito um animal selvagem.
O barão Kessel foi o primeiro a se levantar.
O lorde abriu um dos mortos-vivos ao meio com sua espada e então avançou para o próximo, se lançando contra os inimigos e dando tempo para os recrutas se levantarem.
— Comigo! — ordenou. — Agrupar!
Siegfried deu um passo em direção a eles, mas o zumbi que tentou agarrar sua perna tinha finalmente feito o seu caminho até a superfície e agora avançava para cima dele; ambos os olhos haviam sido devorados por animais há muito tempo, mas sua mão fria o encontrou assim mesmo.
Só precisou de um golpe para partir o crânio da criatura ao meio, bem entre os olhos, fazendo o sangue negro e viscoso como piche escorrer pela lâmina até o cabo da espada e grudar em suas mãos.
Foi quando viu…
Alguns mortos-vivos tinham passado por cima da fogueira e começaram a pegar fogo, incendiando as árvores secas mais próximas. As chamas logo se espalharam e engoliram o acampamento, mas isso estava longe de ser o pior.
A essa altura, todos os recrutas já estavam de pé, mas ainda havia mais zumbis saindo da terra; uma garota da idade de Mirabel agarrou a perna de Siegfried e o mordeu até suas gengivas sangrarem. Não que os dentes podres dela fossem adversários à altura das suas calças de couro fervido.
Agarrou a menina pelo pescoço e arremessou ela em cima de um zumbi que se aproximava, mas de nada adiantou, estava cercado.
Foi se deitar longe demais dos outros e agora tinham quase duas dúzias de mortos-vivos entre eles. Cinco zumbis vieram em sua direção e não teve outra escolha senão recuar.
Quando um deles se aproximou demais, Siegfried atravessou seu crânio podre com a espada, até a ponta da lâmina sair por trás da cabeça. Isso teria sido o suficiente para fazer seus colegas hesitarem…
Se estivessem vivos.
Dois deles agarraram seus braços e jogaram seu peso em cima dele, lutando para morder o seu rosto com aquelas bocas podres e descarnadas, cheias de dentes negros. Eram ambas mulheres magras, mas quase o derrubaram no chão.
Uma delas chegou tão perto de arrancar um pedaço da sua garganta que fez o coração de Siegfried disparar e seu sangue gelar ao lembrar dos gritos do vigia, enquanto uma das criaturas o devorava.
Esses zumbis não tinham armas, então tudo que podiam fazer era morder e arranhar, mas nenhum conseguiu atravessar as suas camadas de tecido e couro.
Um terceiro morto-vivo se aproximou e Siegfried jogou o seu corpo para a direita, empurrando a zumbi que mordia seu braço em uma árvore; com o impacto, a parte de trás do crânio da criatura se partiu, deixando pedaços de cabelo e carne grudados no tronco quando ela escorregou e caiu sentada no chão, tremendo descontroladamente enquanto tentava se levantar.
Só então o rapaz percebeu que três dentes podres da zumbi atravessaram o couro fervido da sua blusa e se enterraram em seu ombro direito.
Valeu a pena.
Com a mão da espada livre, Siegfried decapitou o morto-vivo que se aproximava dele e derrubou no chão a que agarrava seu braço esquerdo; quando ela tentou se levantar, pisou em seu peito e enfiou a espada no seu olho, matando-a na hora.
Restava apenas mais um zumbi, mas era um dos que estavam em chamas e deixava um rastro de fogo para trás, enquanto se aproximava.
Tinha a espada em mãos, pronto para enfrentá-lo, quando ouviu uma das árvores incendiadas atrás da criatura estalar. A madeira cedeu e caiu bem em cima do zumbi, o esmagando.
Mas também bloqueou o seu caminho de volta ao acampamento.
Tinha se afastado demais, nem conseguia mais ouvir a batalha, apenas o crepitar da madeira que queimava na sua frente.
Foi quando sentiu um calafrio subir a sua espinha e se virou para encontrá-la, parada entre as sombras.
— Lili!?
Ela sorriu e de repente seus olhos se tornaram de um vermelho vivo que parecia queimar, como se fossem feitos de fogo. Siegfried nunca tinha visto um demônio antes, mas ouviu as histórias:
— Foi você! Os ataques, aquela vila, tudo.
— Não. Foi você! Foi tudo por você, Carniceiro. Não faz ideia de quanto tempo sonhei com esse momento.
E como se fosse um comando, dois lobos negros saíram da escuridão e vieram para junto dela. Os dentes amarelados à mostra em um rosnado que buscava por sua presa.
Mas quando a garota se ajoelhou entre os dois e acariciou a cabeça deles, aquelas bestas ficaram tão mansas quanto dois filhotinhos e lamberam o seu rosto. Ela riu e então voltou a olhar para Siegfried:
— Senti sua falta.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.