Capítulo 0079: O Quebrador de Promessas
Não havia lua.
A noite era escura e um manto de névoa cobria o chão úmido da floresta, se estendendo até a Vila do Lago e o acampamento. Não era à toa que as pessoas tinham ido se deitar mais cedo. Siegfried não foi uma delas.
O rapaz descansou as costas em uma árvore e puxou o lenço que Dara havia tricotado para ele meses atrás. Nunca o usou, por isso o tecido continuava tão macio e branco como no dia em que o recebeu.
Em noites como aquela, gostava de sentir a lã em seu rosto; fazia-o lembrar dela. Era patético, mas foi o primeiro presente que uma garota lhe deu.
“Tem de significar algo.”
Jurou seu amor à Lura, mas já não tinha mais certeza se ainda a amava. Não tinha certeza de muitas coisas ultimamente. Quebrou tantos votos. Fez tantas coisas. De algumas, se arrependia; de outras, não — e isso era ainda pior.
Tudo ficou tão complicado depois da Dara.
Ela o estava destruindo.
Antes de conhecê-la, Siegfried nunca atacou uma garota. Agora, quando fechava os olhos, só o que via era o rosto da camponesa do lago, chorando e implorando que a deixasse ir. Estremecia só de pensar no que podia ter feito a ela; e mais ainda ao pensar no que queria ter feito a ela.
“Era só uma garota. Não devia pensar nisso.”
A violação era algo esperado de um soldado. Não que fosse algo que ele apreciasse, mas ainda era o direito dos vencedores; recolher os espólios. Só mais um motivo para nunca perder uma batalha. Havia muitas mulheres importantes na sua vida para que se desse ao luxo de sofrer uma única derrota.
Seja como for, a camponesa não era espólio algum.
Os recrutas que matou pertenciam ao barão Dalton, mas ele não foi o único a ficar furioso com o que aconteceu. Era a segunda vez que matava soldados para proteger uma garota qualquer e o conde já tinha deixado bem claro o que pensava disso.
No fim das contas, não foi punido, mas o lorde Gaelor determinou que nenhum soldado se aproximasse da Vila do Lago ou das garotas de lá novamente.
Dois dias depois, outra camponesa foi atacada.
O soldado era um dos homens do conde, por isso sua punição foi muito mais severa; amarraram-no a um poste em frente ao vilarejo e lhe deram vinte chibatadas, até que suas costas estivessem em carne viva. O pobre coitado ficou lá por mais três dias, antes de o soltarem.
Isso não pareceu intimidar os demais.
Muitos soldados ainda se esgueiravam até a vila em busca de garotas, embora não houvesse falta delas no acampamento. No começo eram poucos e sempre acabavam sendo apanhados, mas já se passavam duas semanas desde que chegaram à Torre da Justiça e os números só aumentavam.
A calmaria os deixou inquietos e a maioria já não tinha mais dinheiro para as rameiras.
Nessa altura, já não se passava um dia sem que ouvisse falar de uma nova garota que foi atacada pelos recrutas, mesmo depois de terem reforçado as patrulhas e proibido as garotas de saírem de suas casas após escurecer.
“Podia ser pior.”
Se o conde não considerasse aquelas terras como ainda sendo suas, provavelmente já teriam saqueado até o último grão e passado o vilarejo inteiro na espada. Não que as mulheres parecessem gratas por isso.
Siegfried passou os dedos pelo bordado do lenço e de repente a névoa ficou mais espessa. Sentiu o ar frio da noite gelar seus ossos e uma voz feminina sussurrou na escuridão; uma voz que já conhecia muito bem:
— Patético.
— Cala boca!
— E pensar que você trairia seus votos por tão pouco.
— Você não sabe de nada!
Então ela apareceu.
A Irmã Serena avançou pela névoa, montada em um pônei tão branco quanto a sua armadura. Tinha o cabelo loiro preso em uma longa trança, bem na moda anã, e uma capa de lã azul pendendo dos seus ombros.
Sabia que era ela assim que ouviu sua voz, mas raramente a via, por isso seu coração disparou ao vê-la se aproximar, parando a três metros de distância, antes de dizer:
— Sei que jurou nunca ferir os inocentes, mas abriu a garganta do velho estalajadeiro e entregou seu cadáver aos vermes.
— E-eu recebi ordens!
— Sei que jurou dar aos seus oponentes a morte de um guerreiro, mas executou aqueles homens antes mesmo que puxassem suas espadas.
— Eram vagabundos! Estavam atacando uma garota inocente. Q-quem se importa se não tiveram uma morte digna?
Ela ignorou sua pergunta:
— Sei que jurou celibato e prometeu devotar sua vida à princesa, mas se deitou com outra e agora sonha com um futuro diferente.
— N-não foi assim… F-foi um erro. Só isso.
— Todas as oito vezes?
— E daí!? Por acaso sou o primeiro homem a se deitar com outra antes do casamento!? Thrarim já teve mais mulheres do que eu tenho fios de cabelo!
— Você é cheio de desculpas, mas não foi Thrarim quem fez o voto! Lorde Dragoslav leva as promessas muito a sério… Assim como aqueles que as quebram.
Cinco cavaleiros saíram de trás dela e avançaram, cercando-no como uma matilha de lobos selvagens cerca uma presa. Ao contrário da bela Irmã, esses anões usavam armaduras completas, tão negras quanto seus cavalos. A única coisa que se podia ver de seus rostos era o brilho vermelho de seus olhos; tão intenso que atravessava as viseiras.
Eles fizeram as montarias avançarem um único passo e Siegfried puxou a espada. Não tinha a sua armadura, nem sua brigantina ou mesmo o escudo, mas não seria abatido como gado.
Os cavalos expeliram fumaça das suas narinas ao verem o aço, mas não estavam assustados, se algo, pareciam impacientes para arrancar a carne de seus ossos com os próprios dentes.
A anã o observou em silêncio por um momento. Seus olhos eram verdes como os de Dara, mas foi só pensar nisso que eles brilharam como se estivessem pegando fogo e os lábios dela se contorceram em um rosnado:
— Mesmo agora, é só nela que você pensa!
Siegfried não teve tempo de responder. Os cinco cavaleiros avançaram em perfeita sincronia e se espalharam ao seu redor.
Um deles veio por trás com seu machado de dois gumes, fazendo um arrepio gelado subir pela sua espinha, mas o rapaz conseguiu se virar a tempo de interceptar o ataque… Ou assim pensou.
Sua espada se desfez em mil pedaços assim que tocou a lâmina do machado. Ela nem resistiu ou enfraqueceu o golpe, apenas se estilhaçou, como se fosse feita de gelo.
Siegfried sentiu o aço se enterrar em seu peito; o impacto quebrou duas costelas e pontas afiadas perfuraram o seu pulmão, enchendo-o de sangue a cada inspiração. Já tinha se afogado uma ou duas vezes; aquilo era muito pior.
Quando tentou arrancar o machado do peito, suas mãos queimaram como se o metal estivesse em brasas e o cavaleiro anão lhe deu um chute, arrancando a lâmina e fazendo-o cambalear para trás, bem no caminho de um segundo cavaleiro que atravessou seu ombro com o machado e quase o partiu em dois.
Seu corpo ficou pesado e, quando deu por si, já estava no chão.
Viu os cascos de um pônei branco se aproximarem e então dois cavaleiros puxaram-no pelos ombros, o colocando de joelhos. Foi como se seus ossos fossem feitos de vidro quebrado; rasgando o seu corpo de dentro para fora; triturando seus órgãos a cada pequeno sacolejo. A dor era tanta que entorpeceu seus sentidos e, por um momento, não sentiu nada.
Um dos cavaleiros puxou seu cabelo para trás e o forçou a olhar para a Irmã Serena, ainda montada em seu cavalo branco.
— E pensar que é nisso que aquele garotinho tão cheio de convicção se tornaria. Eu poderia chorar, mas você não merece as minhas lágrimas.
Ela acenou para eles e então o cavaleiro soltou o seu cabelo, permitindo que a sua cabeça caísse para a frente, enquanto os outros dois seguravam seus braços. Siegfried não podia ver o machado, mas ouviu as botas de metal esmagando a lama conforme um terceiro cavaleiro anão se aproximava e sabia bem o que viria a seguir.
Tentou se soltar, mas bastou um puxão e sentiu como se o seu braço esquerdo fosse se desprender do corpo. Então parou, tremendo e suando frio. Não podia ver o estado do ferimento, mas se a dor era algum indicativo, ele devia estar preso no lugar por não mais do que dois tendões tão finos quanto uma linha de algodão.
Levou apenas um instante.
Quando o aço frio tocou em seu pescoço, sentiu algo quente explodir em seu peito; uma chama que ardia de dentro para fora, como se tentasse escapar. E uma voz, escondida bem fundo dentro dele, sussurrou:
“Mate!”
Então acordou.
Estava de volta sentado na sua árvore, mas não havia sinal dos anões em parte alguma. Nenhum rastro de cascos ou da batalha. O seu instinto fez com que puxasse a espada para perto e, quando olhou para ela, continuava inteira.
“Um sonho”, pensou aliviado. Até que tocou a nuca e sentiu os dedos úmidos.
Sangue.

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