Capítulo 0087: Conquista vazia
A porta que dava acesso à Torre da Justiça era de madeira maciça, com oito centímetros de espessura e reforçada com tiras de metal. Um aríete levaria dez ou quinze minutos para quebrá-la; talvez meia-hora, se tivessem barrado a entrada pelo lado de dentro.
Mas não chegaria a tanto e sabia disso.
Não foram suas paredes de pedra, nem os arqueiros e muito menos aquela porta que os tinha mantido afastados todo esse tempo, foram os reféns. E agora sabiam que os rebeldes não tinham nenhum, por isso o barão Kessel decidiu pôr um basta nisso e tomá-la de imediato.
A chuva tinha recomeçado e uma leve garoa salpicava o cabelo de Siegfried quando o rapaz liderou cinquenta soldados até a entrada:
— Rendam-se! Capturamos seu líder e já sabemos que não têm nem a nora, nem o neto de sua graça, o conde. Saiam em paz e receberão todos os direitos que lhes são devidos como prisioneiros de guerra, mas se nos forçarem a abrir nosso caminho pela espada, os únicos direitos que receberão são aqueles devidos aos mortos!
Levou pouco mais de quatro minutos até que se ouvisse alguém responder do outro lado da porta:
— Jura que não irão nos matar?
— Têm a minha palavra. Deixem suas armas e saiam. Nenhum mal lhes será feito.
Dessa vez demorou um pouco mais e Siegfried já tinha o cabelo encharcado da chuva quando por fim ouviu uma tábua de madeira cair no chão e a porta se abriu com um rangido.
Uma dúzia de soldados maltrapilhos e esfomeados saiu arrastando os pés e olhando os arredores com apreensão, como se esperassem que algum arqueiro escondido lhes acertasse uma flecha a qualquer momento.
Eram em sua maioria rapazes de vinte a trinta anos, mas também viu três mulheres igualmente jovens e um ou outro homem mais perto dos quarenta do que dos trinta.
Apesar da aparência, eram todos bastante musculosos e mais pareciam avaliar seus homens do que temê-los, como se medissem suas chances de escapar lutando.
“Mercenários”, entendeu de imediato.
Um dos homens mais velhos, com uma barba negra espessa, ombros largos e braços grandes como toras, liderou o caminho e parou na sua frente:
— Disse que seríamos poupados.
— E serão — confirmou Siegfried. — A qual companhia pertencem?
— Lâminas Bravas… Senhor.
O nome não queria lhe dizer nada. Nunca ouviu falar deles antes, mas isso era apenas natural. As companhias mercenárias raramente eram mais que um punhado de homens-de-armas que se conheceram em uma taverna qualquer e foram com a cara uns dos outros.
Assim como os lobos, mercenários tinham mais chances de sobreviver se andassem em bando. Uma dúzia poderia facilmente vender suas espadas como guarda-costas em uma caravana ou se unir a um exército qualquer por algumas batalhas.
Tinham de dividir o lucro, é claro, mas esse era o menor dos problemas. Pequenos bandos e mercenários solitários eram frequentemente atacados por grandes companhias, então quanto mais companheiros você tivesse, mais seguro estava.
Siegfried entregou os cativos para seus homens e ordenou que fossem mantidos separados dos outros prisioneiros. Os rebeldes provavelmente seriam enforcados, mas se o barão Kessel permitisse, queria reservar um destino um pouco mais piedoso aos seus antigos colegas de ofício.
Então foi investigar a torre.
A primeira coisa que viu foi o alçapão logo acima da sua cabeça, bem em frente a porta de entrada. Estava fechado, mas a simples visão já era o bastante para fazer o seu sangue gelar. Podia até imaginar o óleo fervente sendo derramado dali de cima, derretendo o seu couro cabeludo e devorando sua pele até os músculos.
Uma forma horrível de morrer.
O salão de entrada era bastante simples; armas estavam espalhadas pelo chão, onde os mercenários as deixaram, mas fora isso, não havia muito mais o que ver. Apenas lixo.
Enquanto andava, encontrou outro alçapão, desta vez no chão. Quando o abriu, viu que levava até às masmorras, então enviou cinco dos seus homens para investigar e subiu a escada em espiral que rodeava as paredes, levando até os andares superiores.
A primeira porta levava até o que devia ser uma cozinha, com uma segunda sala dentro dela que devia ser a despensa, mas ambas estavam tão vazias quanto o salão de entrada. Viu penas de galinha e cascas de ovos quebradas, mas nenhum sinal de ossinhos ou uma fita de carne podre que fosse.
“Devem tê-las comido também.”
Talvez por isso Eradan tenha tentado aquele ataque inútil e desesperado ontem a noite; é difícil manter a lealdade de mercenários sob cerco, especialmente se estão famintos.
A segunda porta, alguns degraus acima, levava até o que poderia ser um escritório, com livros e tapeçarias, além de uma mesa e uma lamparina apagada pendendo do teto ao seu lado, mas haviam também três colchões de palha que destoavam do resto.
“As garotas”, compreendeu.
Haviam três mulheres entre os mercenários. Provavelmente ali era onde elas dormiam. Talvez por isso não parecesse tão sujo e nojento como a sala anterior.
A última porta ficava no último andar da torre e Siegfried sabia que seriam os aposentos do lorde antes mesmo de entrar. Era a única que estava trancada, por isso teve de arrombá-la, o que lhe custou quase um minuto inteiro.
Lá dentro, encontrou um garoto de costas para a parede, com as pernas tremendo e tentando o seu melhor para manter uma expressão séria.
— Só pode tá de sacanagem — disse Siegfried.
— Você!? — disse Dorian. O cabelo loiro tão sujo que quase parecia marrom; suas roupas surradas e podres, fedendo a suor e merda; até o rosto parecia pálido e o garoto tinha perdido cinco ou seis quilos, se tornando magricela e frágil. — O que está fazendo aqui!?
— Eu podia perguntar a mesma coisa. Achamos que cê tava morto… Por que está com os rebeldes?
— E-eu… Fui capturado… Era prisioneiro deles.
— Parece muito bem pra um ‘prisioneiro’.
— Chama isso de bem!? Faz ideia de quanto tempo estive preso aqui? Eles disseram que… N-não importa. Onde está meu tio? É ele quem comanda esse cerco, não é? Sei disso, ouvi Eradan e seus homens discutindo. Onde ele está?
— Sua graça está descansando.
— Leve-me até ele! Imediatamente! Exijo falar com o meu tio!
— Não estou te segurando. Se quer ir, vá.
Dorian hesitou por um momento, mas acabou por sair da sala, lentamente e sem tirar os olhos de Siegfried até que já tivesse colocado dez bons degraus entre eles.
Siegfried deu uma última olhada na sala; tinha uma cama grande o bastante para três pessoas, uma pequena mesinha ao seu lado, com uma lamparina apagada descansando em cima dela, além de tapeçarias nas paredes e um tapete de pele de urso negro no chão. Tudo iluminado por uma janela estreita, grande o bastante para se passar um braço e não mais do que isso.
“Prisioneiro, ein?”
Então foi atrás de Dorian e o guiou até a tenda do barão Kessel, que não ficou muito impressionado com o ressurgimento do garoto, tão pouco com a história que contou.
— Foi tudo culpa dele! — Dorian apontou para Siegfried. — Foi durante o inverno. Os rebeldes tinham raptado minha irmã, então fui atrás dela e a teria salvo, se ele não tivesse entrado no meu caminho. Matei vários inimigos enquanto procurava por ela. Uma dúzia, talvez duas. Mas esse aí chegou primeiro. Deve ter se aproveitado de mim, já que tinha me livrado de todos os rebeldes. Pegou ela antes que eu a encontrasse e desapareceu com o meu cavalo, me deixando sozinho naquela floresta maldita. Eradan veio pessoalmente atrás de mim, com uma dúzia de soldados treinados. Matei tantos quanto pude antes de ser capturado. Eles têm me mantido preso naquela torre desde então. Diziam que eu era um refém muito valioso.
Quando terminou seu conto, a única resposta do barão Kessel foi um breve grunhido incomodado, como se estivesse farto da história na metade do caminho. Mandou que dessem um banho em Dorian e então despachou Siegfried para tirar a verdade dos mercenários capturados.
O rapaz planejava perguntar para todos, um por um, mas cansou dessa ideia quando chegou ao quarto e a história que ele contou foi a mesma que todos os outros:
— O garoto? Ah! Aquele garoto. Ele chegou um dia aí com a Kath. A gente queria mesmo era a irmã, mas o capitão disse que era melhor do que nada, então ficamos com ele, mas era chato pra caramba! Alguém deixou escapar que um lorde qualquer do norte ia fazer dele conde, depois disso não parava de falar sobre como ia ser um lorde ‘justo, mas firme’, então a gente trancou ele na sala do topo. Tinha esquecido que ele tava lá.
Essa história não impressionou o barão Kessel mais do que aquela que Dorian havia contado. Depois disso, pediu para ficar sozinho e não recebeu mais visitas pelo resto do dia.
Já era de noite e a chuva tinha finalmente terminado quando mandou chamar Siegfried.
O rapaz foi encontrá-lo sentado em sua cadeira, tal como estava quando o mandou embora naquela tarde. Não parecia ter se movido um centímetro sequer desde então.
— Mandou me chamar, vossa graça?
— Envie um mensageiro ao acampamento do barão Whitefield. Diga-lhe que estamos prontos para negociar. Amanhã de manhã. À primeira luz do sol.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.