Capítulo 0088: Uma nova guerra
Siegfried observou em silêncio enquanto o barão Dalton e sua comitiva se afastavam, fazendo seu caminho de volta ao Salão dos Poucos.
Cinco batedores lideravam a vanguarda, com o lorde Dalton seis metros atrás, montado em seu cavalo e flanqueado por outros dez soldados a pé. Atrás deles se encontrava uma velha carroça de madeira, coberta com uma lona branca sustentada por quatro arcos de ferro; não podia ver lá dentro, mas o rapaz sabia que era onde o conde estava.
— Talvez o sacerdote possa curá-lo — foi o que o barão Kessel disse quando tomou sua decisão de enviá-lo para casa.
Mas talvez tenham exagerado um pouco na comitiva.
A carroça era guiada por um soldado, com outros três de cada lado. Por último, vinham os soldados esqueletos fazendo a retaguarda; setenta deles, marchando em cinco fileiras de quatorze, com a sincronia perfeita que apenas os mortos-vivos eram capazes de alcançar.
Taticamente falando, uma tropa de vinte soldados teria sido mais que o bastante para levar o conde, mas aquele era o suserano deles e sua posição exigia uma escolta digna de sua estatura.
Não que tenha sido uma grande surpresa, mas o barão Dalton se ofereceu com entusiasmo para a tarefa; que lhe foi entregue de bom grado. Ninguém queria ser o responsável por dizer à condessa que o seu marido estava à beira da morte e podia nunca mais acordar.
Mas o conde não era a única coisa que ele teria de entregar.
Dorian Essel também estava na comitiva, junto de uma confissão por escrito, assinada pelos 12 mercenários capturados e autenticada pelo próprio barão Kessel. Um testemunho de sua participação voluntária na revolta, com o intuito de fortalecer a posição dos rebeldes através de um casamento arranjado. Seu julgamento caberia ao conde Gaelor… Fosse ele quem fosse.
Também levavam consigo o próprio Eradan. Sem dúvidas o real motivo para o barão Dalton estar tão ansioso em liderar esta comitiva.
“E ele vai levar todo o crédito pela sua captura, aposto.”
Dorian não era uma ameaça, mesmo para o lorde Dalton, mas Eradan ainda tinha homens à solta e o risco de fuga era alto demais para arriscar; só outro motivo para a enorme comitiva que incluía 22 recrutas e todos os 70 soldados esqueletos.
Os recrutas foram escolhidos por terem recebido ferimentos na batalha da Vila do Lago, nenhum dos quais eram fatais, mas tinham de escolher alguém. A questão dos soldados esqueletos foi uma decisão mais penosa, mas o motivo era simples:
— Eles não obedecem minhas ordens — explicou o barão Kessel no dia em que montou a escolta. — Não posso levá-los conosco sem o comando de sua graça.
— Mas o senhor já deu ordens antes — protestou Siegfried. — Quando voltamos da caçada e mais tarde, naquela noite na Vila do Lago.
— Orientações. Nada além disso. Como segundo no comando, tenho certa autoridade, mesmo entre os mortos-vivos. O conde lhes diz o que deve ser feito e eu posso lhes dizer como, mas não posso lhes dar ordens que já não tenham. E sua graça não pode lhes dar ordens no momento. Mesmo que eu não diga nada, eles ainda irão seguir o conde.
Muitas outras coisas tiveram de ser resolvidas e aprontadas antes da partida.
Cinco dias haviam se passado desde a reunião com o barão Whitefield e não foram poucas as decisões tomadas naquele dia. Siegfried ainda sentia algo em seu peito arder sempre que se lembrava do acordo. Esperava uma troca de reféns, mas o lorde Whitefield exigiu mais.
— Ele quer uma aliança — disse o lorde Kessel ao retornar do encontro. — Diz que pode tomar o condado de Essel com a nossa ajuda e exige isso como preço a ser pago pela liberdade da nora e o neto de sua graça. Isso e a sobrinha do conde. Dara Essel.
— E você aceitou!?
Foi a primeira vez que Siegfried sentiu tamanha raiva do barão Kessel. Se fechasse os olhos, ainda podia ver a expressão perplexa em seu rosto, quando o rapaz o agarrou pelo colarinho com tanta força que acabou rasgando sua túnica de lã.
“Não devia ter feito aquilo”, pensou.
“Devia ter matado ele”, sussurrou a voz em sua cabeça. “Ela é sua, não dele. Não tinha o direito de dá-la a outro.”
Fosse como fosse, a aliança já tinha sido aceita e não cabia a Siegfried opinar nisso.
Então virou a montaria e foi se juntar ao barão Kessel e Adrien na vanguarda da tropa. Quando chegaram ali para tomar a torre, eram pouco mais de trezentos, agora eram pouco menos de duzentos.
Alguns tinham morrido na Revolta das Rosas, como os homens vinham chamando a batalha contra as mulheres na Vila do Lago; outros foram mortos aqui e ali, às vezes por Eradan, às vezes por Siegfried. Não importava. Estavam mortos. 48 ao todo.
Haviam também os 22 que o barão Dalton levou consigo de volta ao Salão dos Poucos; outros 30 que tinham sido despachados ainda no começo do cerco, para manter a linha de suprimentos; e mais 16 que o barão Kessel deixou responsáveis por proteger a Torre da Justiça em sua ausência.
Os que sobraram iriam para o norte.
Enquanto passava pelo acampamento, Siegfried viu um velho puxando uma carroça cheia com os cadáveres de mulheres e recrutas mortos na Revolta das Rosas. Nos primeiros dias, os moradores tinham sido autorizados a procurar e enterrar todos os mortos que desejassem, fossem eles parentes ou amigos; os na carroça eram os outros, aqueles que não tinham nenhum familiar por perto para exigir um enterro digno e por isso seriam jogados em uma vala comum.
Mais à frente, uma garotinha de doze anos o observava da janela de sua casa, com os olhos vermelhos de tanto chorar e uma expressão de ódio no rosto. Mas ela não era a única.
A maioria das mulheres da vila tinham se trancado em suas casas e não saíam desde o grande julgamento que foi realizado dois dias atrás. O barão Kessel poupou muitas delas e chegou até a punir alguns dos soldados que as estupraram, antes, durante e após a revolta. Não que isso tenha servido de qualquer conforto para elas, que tiveram de ver algumas de suas amigas menos sortudas serem enforcadas como rebeldes.
“Seus maridos vão ter uma bela surpresa quando voltarem da guerra.”
Foi encontrar o barão Kessel montado ao lado do barão Whitefield, enquanto ambos discutiam qual rota iriam tomar.
— Já enviei meus batedores na frente — disse o lorde Whitefield. — Vamos levar várias semanas para chegar ao Castelo Silvergraft, até lá, nossa passagem deve ser mantida em segredo. Meus homens vão dar fim em qualquer um que veja mais do que deveria, mas temos de ser rápidos.
— Não tão rápidos assim — disse o barão Kessel. — Já acertamos isso antes. Primeiro eu quero ver a nora e o neto de sua graça.
— Como quiser. Teremos de passar pelo meu salão de qualquer modo. Poderá vê-los assim que chegarmos.
— É o que espero.
O barão Kessel deu uma breve olhada para trás, mas não prestou atenção em Siegfried. Se limitou a gritar uma ordem e então todos se puseram em marcha.

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