Capítulo 0096: Você não pode ter todas!
Siegfried estava de volta à floresta.
Podia sentir as aranhas escondidas na copa das árvores. Observando. Esperando. Dessa vez ele tinha lembrado de trazer uma tocha, mas isso só impedia que elas o atacassem. A cada instante, mais apareciam, acompanhando seus passos de perto. À espera. Sempre à espera.
Cada brisa ameaçando apagar o fogo e permitir que as aranhas pusessem fim à sua loucura.
— Izzie!
Era difícil se mover por entre a mata. A noite não era um problema, podia enxergar bem o bastante no escuro, mas a neblina lhe chegava aos joelhos e escondia raízes grandes como cobras que mais de uma vez se enrolaram aos seus pés, dando o seu melhor para derrubá-lo.
— Izzie! Izzie!
Quanto mais avançava, mais estreitas as árvores se tornavam. Mais passagens bloqueadas faziam com que tomasse caminhos diferentes, até que o rapaz deu por si em um emaranhado de árvores que cresceram por dentro uma das outras, dando origem a uma única árvore de centenas de ramos feitos de outras árvores menores.
Para atravessar, precisou subir e descer por entre troncos retorcidos, procurando brechas aqui e ali, enquanto galhos secos e afiados agarravam suas roupas como se fossem as garras de algum animal qualquer.
Já tinha seguido por vinte minutos quando parou. Sentia a respiração difícil e irregular. O mundo ao seu redor havia desaparecido. Árvores, troncos e raízes. Era tudo o que via. Tão apertado que nem sequer conseguia esticar o braço. Havia pouco ar ali. Pouco espaço.
Mas não podia voltar. Não sabia como voltar. De que direção veio? Mesmo que olhasse para trás, não conseguia lembrar o caminho. Foram tantas curvas e brechas.
“Tenho que seguir em frente.”
E foi o que fez.
Vagarosamente, as árvores ao redor se curvaram em um arco de troncos retorcidos, até formarem uma espécie de túnel estreito que acabava numa clareira aberta no coração da floresta. Trezentos metros quadrados de espaço aberto.
Ar fresco encheu seus pulmões e o céu se abriu acima dele, negro e cheio de estrelas.
Então ouviu o choro.
A neblina transformava qualquer coisa a mais de dez metros em um borrão, mas quando seguiu o som, Siegfried encontrou o enorme carvalho que se erguia solitário no centro da clareira. O tronco era tão grande quanto a casa de um plebeu, com as raízes se projetando para fora do chão como se fossem tentáculos gigantes e as folhas que cresciam em seus ramos eram vermelhas como sangue.
Mas lá estava ela, encolhida debaixo da árvore.
— Izzie?
A garota parou de chorar e recuou assustada. A confusão durou apenas um instante, então ela se levantou com seu vestido de linho desbotado e os pés descalços, correu para cima do rapaz e caiu em seus braços:
— Siegfried!
— Eu te achei.
— E-eu sabia… — Ela voltou a chorar. — E-eu… Eu te esperei…
— Eu sei.
— Então por que não veio?
— M-mas eu vim. Estou aqui.
— Tarde demais.
Izzie ainda estava em seus braços quando sentiu a pele dela esfriar. O rosto da garota empalideceu até se tornar branco como a neve e os seus olhos castanhos perderam toda a cor. Então empurrou o rapaz para longe e se afastou, dizendo:
— Você chegou muito tarde!
— E-eu te procurei… Eu tentei… E-eu…
— Você falhou.
— E vai falhar novamente. — A Irmã Serena veio do nada. De repente a Izzie desapareceu e então era ela em seu lugar, com sua armadura branca e a capa azul; uma longa trança de cabelos loiros e olhos irritados. — Você não pode ter todas!
— O quê?
— Você não pode ter todas! — disse Brynna, se aproximando com seu vestido de algodão azul e um casaco de lã branca por cima.
— Você não pode ter todas! — disse Dara, com um vestido de chemise branco que lhe caía até os joelhos e nada mais.
— Você não pode ter todas! — disse Gwen, toda de preto em seu colete e calças justas, por baixo de seu manto negro. Uma escuridão que apenas destacava o brilho de seus olhos azuis.
Outras garotas também apareceram. Algumas de muito tempo atrás, outras muito recentes. Haviam garotas que ele conhecia há anos e outras que só lembrava vagamente. Izzie e Beth estavam entre elas, mas também a camponesa do lago e outras, muitas outras.
Cada uma delas dizendo a mesma coisa:
— Você não pode ter todas!
A última a aparecer foi Lura. Seus cabelos ruivos brilhavam como se estivessem em chamas e ela foi a única que se aproximou. Os olhos dela eram de um verde intenso e vestia-se como a guerreira que era, com calças, botas de couro e uma túnica que chegava às coxas. Ainda assim, era linda.
Ao vê-la, ele perdeu a força nas pernas e caiu de joelhos. A princesa se limitou a tocar seu queixo de leve para fazê-lo erguer a cabeça:
— Você tem que escolher.
— E-eu… Eu não sei. Eu… Você é uma princesa.
— Então seja um rei!
De repente algo puxou Siegfried de volta para a floresta, tão rápido que o mundo se transformou em um borrão diante de seus olhos e foi quando o rapaz acordou de sobressalto, com o coração acelerado.
Estava de volta na carroça, mas ainda era noite e ela não se movia. Ao seu redor, a maioria dormia, enquanto alguns soldados patrulhavam uma área e as rameiras iam se deitar em outra, escapando de fininho dos últimos clientes da noite.
Siegfried observou uma delas. Uma garota bonita de dezoito anos que o fez lembrar de Izzie.
“Não pode ter todas.”
Chegaram ao Castelo Silvergraft dez dias depois.

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