Índice de Capítulo

    A nova montaria de Siegfried era um palafrém de temperamento tão negro quanto o seu pelo; meio selvagem, meio disciplinado. O cheiro de sangue parecia ser a única coisa capaz de acalmá-lo.

    E naquela noite estava calmo como um cadáver.

    O ataque havia começado há meia-hora, mas se espalhou depressa. Como de costume, foram os animais que primeiro notaram que havia algo de errado; os latidos acordaram alguns moradores e seus gritos alertaram os outros.

    Nessa altura já era tarde demais.

    Podia ouvir a morte tomar conta do vilarejo, vindo a galope pelas ruas e arrombando as portas com um estrondo. Uma canção que o rapaz já ouviu e tocou mais de uma vez. Se fechasse os olhos, até podia dar rostos aos gritos; ver os soldados lhes arrancando de suas camas; ouvir as suas últimas súplicas inúteis…

    Finalmente voltara ao campo de batalha.

    “Esse é o meu lugar.”

    Sentiu Lili o abraçando por trás, com suas mãos quentes e macias deslizando pelo seu estômago e peito, acariciando suas cicatrizes por baixo da brigantina, como se ambos estivessem nus.

    “Que noite linda”, sussurrou ela em seu ouvido. “Você realmente sabe como impressionar uma garota.”

    — Você não é real.

    “Que coisa cruel pra se dizer. Claro que sou. Estou aqui, não vê?”

    E via.

    Mas mais do que isso, podia senti-la. Seu hálito quente no pescoço. A maciez dos seios em suas costas, pressionados com força contra ele. E as mãos… Deuses.

    Ninguém mais a via e o rapaz percebeu isso bem depressa. Desde a morte da Izzie, mal se passava um dia sem que ela estivesse ao seu lado; sentia prazer em atormentá-lo. Certa vez, tentou atacá-la e pôr um fim nisso, apenas para descobrir que tal coisa era impossível. Ela podia tocá-lo, mas ele não podia tocá-la de volta a menos que ela mesma quisesse.

    Não tinha outra escolha senão ignorá-la.

    Então prestou atenção aos gritos. Viu alguns dos órfãos e ladrõezinhos de rua pulando de telhado em telhado, fugindo da batalha. Ordenou que os arqueiros os abatessem e uma das crianças caiu, fazendo as outras virarem em outra direção.

    Seria uma noite longa.

    Cinco dias atrás estavam no Salão Branco, sede da casa Whitefield, onde o barão Kessel pôs fim às suas dúvidas e confirmou que Alethra Gaelor e seu filho estavam sob poder do barão Whitefield.

    Quatro dias atrás, voltaram a marchar.

    Dois dias atrás, despacharam os batedores para se posicionarem na Vila do Lobo; a comunidade tinha mais de seiscentos anos, segundo o barão Whitefield, e cresceu ao redor das muralhas do Castelo Silvergraft como ervas daninhas. Alguns arqueiros bem posicionados poderiam abater as aves que o barão Silvergraft enviasse, antes que tivessem a chance de chamar ajuda.

    Um dia atrás, tiveram sua última reunião tática e dividiram os papéis de cada um. Caberia ao lorde Whitefield liderar um pequeno destacamento com cinquenta soldados pelo norte, impedindo que os moradores escapassem pela estrada para contar ao conde Essel o que houve ali.

    Siegfried e Adrien receberam quarenta soldados cada, fechando o cerco; Adrien seria responsável pelo oeste, onde havia poucas estradas; Siegfried ficaria com o leste, que dava para a Floresta da Velha, por onde os sobreviventes poderiam tentar escapar.

    A parte mais importante da missão ficou, é claro, com o barão Kessel: 150 homens para sua graça tomar a Vila do Lobo; uma comunidade de pouco mais de oitocentos habitantes.

    E ali estavam.

    Como esperado, alguns moradores tentaram fugir para a floresta e deram de cara com Siegfried em seu cavalo negro. Alguns vagabundos e homens desarmados; mandou que os soldados matassem os vagabundos e aqueles que resistiram. O resto foi acorrentado e seriam vendidos como escravos quando a guerra terminasse.

    Mais sobreviventes apareceram depois disso. Famílias inteiras fugindo da matança.

    — Rendam-se e não serão feridos! — disse para cada um deles, conforme chegavam.

    Um homem armado com um forcado tentou lutar e foi morto; seu filho mais velho tentou vingá-lo e teve o mesmo destino. Os outros obedeceram às suas ordens mais docilmente. Alguns choraram e rezaram, outros choraram e praguejaram, mas no fim todos foram postos a ferro.

    Duas horas se passaram desde o ataque inicial. Nesta altura já era bem tarde da noite, mas isso não fez o fluxo de sobreviventes diminuir.

    Uma mulher grávida chegou sozinha, manchada de sangue, mas não ferida. Um garotinho de oito anos apareceu, trazendo nas costas uma mulher meio-morta de vinte e poucos anos que devia ser sua mãe. Um homem gordo vestido de cetim veio sozinho com uma sacola; quando Siegfried fez os seus homens tomarem-na dele, encontrou alguns talheres de prata e louça de porcelana que devia valer algumas moedas, por isso confiscou tudo e prendeu o homem.

    Mas foram as garotas que mais chamaram a sua atenção. E também a dos soldados.

    Já era de madrugada quando uma sacerdotisa e suas acólitas apareceram. A mulher tinha dezoito anos, com uma túnica de lã branca que lhe caía até os tornozelos. As garotas que vinham com ela estavam menos decentes; tinham entre quinze e dezessete anos, mas ainda usavam suas roupas de dormir: uma camisa de linho branco que batia no joelho e saias de anágua que cobriam bem as pernas; mas estavam suadas e o tecido grudava na pele, mostrando mais do que seria esperado de mulheres santas.

    Alguns dos cativos também fugiram depressa de suas casas, mal vestidos é claro, mas as garotas que encontraram até agora tinham sido espertas o bastante para se esconderem por baixo de uma capa ou manto velho qualquer.

    Os soldados se apressaram em capturá-las, mas as coisas logo saíram de controle, tal como seria de se esperar.

    Vê-los deixou Lili animada.

    Ela mordiscou seu pescoço e deslizou uma mão até o seu pênis, enquanto usava a outra para lhe acariciar as cicatrizes no peito. Então sussurrou:

    “Isso vai ser divertido.”

    No começo foram discretos, apalparam elas um pouco e fizeram comentários indecentes, mas o trabalho estava sendo feito e algumas delas até tinham sido acorrentadas. Então um deles ficou interessado na garota do outro e começaram as brigas.

    De repente mais soldados vieram para reivindicar as garotas, até que uma multidão se formasse ao redor delas, gritando e trocando socos, enquanto puxavam-nas de um lado para o outro.

    Um dos homens aproveitou a confusão, derrubou uma acólita de quinze anos no chão e abaixou as saias dela até os joelhos, deixando sua bunda nua exposta para que todos vissem, enquanto ele mesmo se atrapalhava em desamarrar as calças.

    Os cativos também ficaram agitados. Os homens começaram a praguejar e insultar seus soldados, enquanto crianças choravam e mães seguravam suas filhas nos braços, bloqueando a visão para o que estava acontecendo.

    Cães latiram. Mais choro. O cavalo agitado. Lili. Lili… Izzie.

    — CHEGA! — rugiu Siegfried e todos pararam. A briga cessou, os gritos sumiram e agora tudo que se ouvia era o tênue choro dos bebês e o soluço das garotas que foram atacadas. Então se voltou para os soldados: — Que porra cês tão fazendo!? Prendam elas e voltem aos seus postos! Agora!

    Por um momento, ninguém se mexeu, até que o mais idiota deles encontrou a voz:

    — Queremos as garotas! A gente merece.

    Alguns deles criaram coragem o bastante para concordar, mas se calaram depressa depois de Siegfried puxar a espada.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (3 votos)

    Nota