Capítulo 0109: A invasão
Uma semana havia se passado desde a reunião com o barão Kessel.
Nesta altura, o cadáver que enforcaram já estava irreconhecível. Seus olhos, lábios e a maior parte do rosto havia sido devorada pelos corvos, mas o que restava tinha escurecido para se tornar negro como carvão. Queimaduras de sol cobriam-lhe os membros despidos, enquanto as larvas eclodiam de suas feridas.
Da próxima vez, talvez fosse melhor enterrar vivo os desertores. Seria um castigo ainda pior, então o efeito psicológico nos seus homens continuaria o mesmo.
“E ninguém ia precisar sentir esse fedor.”
A primeira decisão que Siegfried, Adrien e Hunter tomaram como comandantes foi dar um exemplo. Não podiam ter seus soldados fugindo da batalha só porque tinham medo de morrer.
— Esse será o seu único aviso — disse Adrien no dia em que enforcaram o garoto. — O destino dos desertores é a morte!
Como não podiam executar todos os homens que fugiram, escolheram um bode expiatório. O infeliz foi um garoto de quinze anos que era também um bom arqueiro, mas não o melhor. Estava entre os primeiros a fugirem e Adrien não gostava dele por qualquer razão, o que eram dois motivos a mais do que precisavam para executá-lo.
Mas as coisas permaneceram bastante rotineiras depois disso.
Ao nascer do sol, enviavam um novo escravo até os portões do Castelo Silvergraft, sempre com os mesmos termos de rendição — a morte do barão Silvergraft e seu herdeiro, a mão da sua filha em casamento e todos os guardas teriam de lutar na vanguarda do lorde Kessel contra o conde Essel. Normalmente o escravo era morto pelos guardas, mas às vezes não. Dependia bastante do humor deles… Que não andava nada bem ultimamente.
Depois disso, as catapultas disparavam pedras e cadáveres no castelo até o entardecer, quando o ataque de verdade começava.
Enquanto os arredores do castelo eram assaltados pelas tropas dos barões Whitefield e Kessel, com ataques coordenados em busca de pontos fracos em sua estrutura, derrubar os portões continuava sendo responsabilidade do trio. Infelizmente, havia bem pouco que pudessem fazer.
Como era de se esperar, o inimigo voltou a usar o óleo fervente, mas apenas em duas ocasiões. Em sua maioria, jogavam pedras; o que deixou de ser um problema depois que Siegfried conversou com um ferreiro local e conseguiu dez elmos para os homens que operavam o aríete.
Mas nada podiam fazer quanto às flechas.
Apesar de tudo, a maioria das perdas aconteceu no primeiro dia e poucos morreram depois disso. Ao todo, foram apenas quatorze soldados durante a semana. Os outros tiveram ferimentos leves e se recuperaram depois de alguns dias.
Então finalmente aconteceu.
O portão caiu.
Adrien e Hunter estavam cavalgando na parte de trás da tropa de assalto, movendo suas montarias ao redor dos soldados para garantir que nenhum deles tentasse fugir.
Siegfried, por outro lado, estava no meio da tropa com o seu cavalo. Não apenas para garantir que o aríete continuasse o seu trabalho, mas também para dar alguma coragem aos homens.
Mesmo que não fizesse nada, sabia bem o fervor que os soldados sentiam em ver um comandante entre eles, na linha de frente. Era a mesma coisa quando lutava nas Terras Verdes. Ver seu próprio comandante escondido na retaguarda é mais que o bastante para deixar os soldados ansiosos.
— A gente tá indo pra uma armadilha? Ele sabe o que tá fazendo? — eram as principais perguntas. Não à toa o número de desertores entre exércitos mercenários era tão alto. — Como posso confiar em um comandante que nem tem coragem de pôr os pés no campo de batalha?
Esses pensamentos desapareciam bem depressa quando o comandante estava entre eles. Lutando lado a lado. Uma estratégia idiota, como qualquer comandante veterano poderia te dizer, mas ainda assim funcionava… Se você não caísse em uma armadilha e fosse morto junto com os soldados.
Por sorte, o barão Silvergraft não tinha força para um contra-ataque de verdade e só a presença de Siegfried pode ter salvado muitos homens, já que os arqueiros inimigos preferiam desperdiçar suas flechas tentando abatê-lo. Em duas ocasiões, ele acabou ferido; uma flechada tão forte que deixou um hematoma do tamanho da sua unha por baixo do peitoral, mas não atravessou a couraça; e um corte superficial no cotovelo, onde uma flecha de sorte o atingiu de raspão entre as dobradiças da sua armadura.
“Talvez uma armadura seja mesmo uma benção divina.”
Estava a apenas cinco metros do portão quando ele finalmente cedeu.
A ponte levadiça já estava parcialmente destruída a dias, mas sempre tinham de recuar antes que o trabalho fosse concluído. Desta vez não. O aríete finalmente a derrubou.
Quando ela caiu, Siegfried entendeu o porquê de ter levado tanto tempo. Logo atrás da ponte havia um portão de ferro duplo que caiu junto.
“Estávamos derrubando dois portões ao mesmo tempo”, sorriu.
Na confusão da batalha, ninguém pareceu notar o que tinha acontecido, então Siegfried puxou pela espada e a ergueu bem acima da cabeça, com o grito de guerra:
— Atacar! Tomem o castelo!
Os homens que carregavam o aríete deixaram o enorme tronco cair no chão e foram os primeiros a invadirem os portões, armados com martelos e clavas. Os outros logo seguiram seu exemplo, se lançando contra a entrada sem se importar com as flechas dos guardas nas ameias.
Siegfried estava entre essa segunda onda, sendo o único homem a cavalo e de armadura.
Quando atravessou o portão, o rapaz notou que a parte interna havia sido barricada com sacolas de areia e pedaços de pedra que as catapultas deles haviam jogado dentro dos muros. Isso bloqueou a parte direita da entrada, mas ainda havia espaço mais que o bastante para entrarem.
Lá dentro, o caos tomou conta.
Alguns homens já tinham subido até as ameias e não se demoraram em dominar os arqueiros que estavam lá em cima, os atirando para o fosso do lado externo dos muros.
A parte interna do castelo era bastante espaçosa. Talvez um pouco demais. Com o barão Kessel e Whitefield assaltando os muros, a guarnição que defendia o castelo estava terrivelmente dividida e mal se viam três guardas juntos.
O que se seguiu foi um verdadeiro massacre.
Uma flecha passou a quase um metro da cabeça de Siegfried, mas o homem que a disparou tinha sido morto antes mesmo que o rapaz pudesse se lançar contra ele, já que cinco dos seus soldados o derrubaram e um deles abriu o seu crânio com uma maça, enquanto os outros o esfaqueavam no estômago.
Siegfried tinha quatro soldados para cada guarda e a diferença apenas aumentava conforme mais homens invadiam o castelo e mais guardas eram mortos. Alguns tentavam lutar e outros se render, mas todos morriam.
Então o rapaz se dirigiu à torre de menagem que ficava no centro da fortaleza, não muito diferente da Torre da Justiça, exceto que parecia ser mais larga e tinha a forma quadrada, não arredondada.
Levou o seu cavalo até a entrada, desmontou e quebrou a porta com um chute.

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