Capítulo 0137: Ciclo de violência
A noite estava em seu auge, fria e escura, quando Siegfried deu início às execuções.
“E cá estamos nós de novo”, pensou. “A violência é a única coisa que eles respeitam.”
Uma fileira de soldados havia sido formada à sua frente, com todos os quatorze sobreviventes; não apenas aqueles que o enfrentaram no salão, mas também os dois guardas que estavam de serviço nos muros quando a confusão aconteceu.
Se pudesse, mataria a todos, mas não estava em condições para outra batalha, tão pouco desejava incitar uma revolta logo agora que se encontrava em uma posição tão delicada com a sua recente traição e o barão Lawgard lutando pela vida.
Por isso, teria de se contentar em usar um deles como exemplo. Ou melhor, dois.
O primeiro escolhido foi um dos homens Lawgard. O maior e mais forte dos sobreviventes, com pouco mais de trinta anos e um metro e noventa. Quase um gorila, embora fosse tão covarde quanto seus colegas menores. Assim que foi chamado para se ajoelhar sobre a tábua de madeira, empalideceu e tentou fugir, mas não chegou muito longe…
Gelo acertou uma seta nas costas do covarde e os seus próprios companheiros o arrastaram de volta. Sua cabeça foi posicionada, lágrimas escorreram, pedidos de clemência foram feitos e só então Carrasco o decapitou.
O próximo foi um Espada Brilhante. Restavam apenas quatro, onde antes haviam sido dez. O barão Kessel podia ter deixado eles sob o seu comando, mas eram homens de Ermin. Sempre foram e sempre serão. Mesmo que ele estivesse morto. Principalmente agora que estava morto.
Apontou para um deles sem se importar muito e mandou que se aproximasse. Então começaram as desculpas:
— N-não — implorou. — Milorde. Por favor. E-eu não quis. Eles me obrigaram. O-o lorde Lawgard. Disse que tínhamos de fazer uma escolha.
— E você fez. Agora venha!
O covarde fitou o machado do Carrasco e caiu de joelhos, mas não para aceitar a morte.
— E-eu luto! É isso o que quer, não é?! O senhor perdoou os homens da lady Whitefield. T-tem que me perdoar. Sirvo ao senhor. Lutei por você. Sou leal. P-posso provar. Mato quem o senhor quiser. Serei um dos seus Mantos Negros.
A mera sugestão de ter aquele covarde vestindo o negro foi o bastante para causar náuseas em Siegfried.
— Você não merece o negro!
— E-eu sou–
— Um covarde! E um traidor. Você e seus amigos juraram lealdade a mim depois que Ermin morreu, ou será que já esqueceu?!
Houveram mais súplicas e desculpas, mas estava farto de ouvir. Mandou que o arrastassem e então Carrasco terminou o serviço em três golpes sujos que fizeram de seus últimos momentos uma cena de brutalidade repleta de gritos e sangue.
Os cadáveres foram jogados em uma carroça, ao lado dos demais soldados que morreram naquela noite, e acabou. Restavam doze guardas — nove homens Lawgard e três Espadas Brilhantes. Pôs todos eles para patrulhar os muros, mas deixou a supervisão a cargo dos Mantos Negros, que eram agora os únicos com o direito de portarem armas dentro do Salão Branco.
♦
Foi apenas quando voltou para o seu quarto que Siegfried finalmente se permitiu um momento de alívio e caiu no chão antes mesmo de conseguir chegar à cama.
Ethel tinha feito um bom trabalho fechando suas feridas, mas estava sobrecarregada tentando se certificar de que o barão Lawgard e seu filho não morressem, por isso não tinha magia o suficiente para curá-lo completamente.
— Não é magia! — ela havia explicado. — Eu não sou uma bruxa. Tudo o que faço é rezar. Com um pouco de sorte, Elyon escuta as minhas preces e acha por bem intervir. Mas o seu amor tem limites e eu não irei abusar dele.
Em outras palavras, curou o sangramento interno e parou a hemorragia com suas mãos mágicas. O resto dependeria de pomadas e descanso.
Não morreria tão cedo.
Mas também não tinha forças para se levantar. O vigor que Lili lhe deu havia desaparecido e agora mal conseguia se mexer. Suas pernas tremiam e suas costas doíam. Então virou de bruços e fitou o teto de madeira.
Após o incidente daquela noite, os quartos foram mudados.
Lavina simplesmente não conseguia voltar para o alojamento das servas. Aparentemente, ter ficado presa lá com os cadáveres, sem saber quando ou se ele viria buscá-la, foi demais para ela. Mesmo a simples visão do local havia feito a garota vomitar duas vezes. No fim, acabaram se mudando para o quarto privado do lorde do Salão Branco. Muito mais espaçoso, quente e aconchegante.
Ethel, Allane, Elsa e Will abriram mão do quarto com certo alívio. Era o local onde tinham sido arrastadas de suas camas no meio da noite e espancadas pelos homens Lawgard. Embora isso não fosse culpa do quarto, as memórias ainda estavam frescas e, tal como Lavina, preferiam um lugar novo.
Como o alojamento das servas estava sendo usado para o tratamento do barão Lawgard e seu filho, decidiu pô-las na cozinha; era quente, espaçosa e a única opção disponível. Mas nem a baronesa Whitefield, nem Astrid, ficaram felizes com isso. Não que o rapaz se importasse. Nessa altura, o que agradava ou não às fidalgas era a menor de suas preocupações.
Quando Ermin morreu, Siegfried fodeu Lavina até dizer chega. Mas desta vez não havia o que comemorar.
Ethel jurava que podia salvar o barão Lawgard. E afirmava que o estado de Adrien era ainda menos crítico. Os dois deveriam sobreviver, mas e então? Assim que se recuperasse, a primeira coisa que o lorde Lawgard faria seria pedir a sua cabeça.
“E o barão Kessel não vai recusar”, esse pensamento era seu ou algo que Lili sussurrou em seu ouvido? Não tinha certeza.
Mas era verdade.
O barão Kessel já era o general de fato, mesmo antes da morte do barão Whitefield. Aquela era a sua guerra. E embora Siegfried não soubesse quantos homens o barão Lawgard havia trazido, sabia que tinha sido graças a ele e ao barão Coyle que o Castelo Silvergraft sobreviveu ao cerco do conde Essel e derrotou os sitiantes.
Uma vitória, no mínimo, crucial.
Que tipo de recompensa seria o bastante para o homem que veio em seu auxílio quando estava no seu momento de maior necessidade?
Queria acreditar que o barão Kessel encontraria outra forma. Que se importasse com ele o bastante para pôr a mão no fogo; ou talvez que se recusasse em matá-lo simplesmente para se impor e não ceder às demandas de outro nobre. Mas a verdade é que não acreditava.
Se o barão Lawgard pedisse a cabeça de Siegfried, o barão Kessel a entregaria em uma bandeja.
Talvez ainda pudesse fugir. Deixar o condado e desaparecer antes que o barão Kessel descobrisse o que aconteceu. Poderia encontrar trabalho mais ao norte, onde a guerra era mais intensa. Ou talvez voltasse para as Terras Verdes; sempre há guerra por lá. Mas era em Thedrit que os mercenários estavam prosperando. As Terras Verdes estavam em paz… Bem, certamente bem mais do que em Thedrit. O dinheiro estava aqui. O dinheiro para construir um exército e se tornar rei.
Além disso, ainda não havia pago a sua dívida com o conde Gaelor.
“Vou devolver Alethra”, decidiu. “Vou levar ela e o garoto de volta pro Salão dos Poucos. E então acabou.”
Era quase divertido pensar em como a condessa Gaelor reagiria quando Siegfried chegasse com a sua substituta e o novo herdeiro da casa Gaelor. Mas se ela soubesse da sua traição… Conseguia até ver o sorriso de satisfação no seu rosto. Será que usaria uma corda ou teria pensado em algo mais criativo?
— Que merda! Por que todo mundo quer me matar!?
— Realmente — disse a baronesa Whitefield, um sorriso inocente no rosto. A porta do quarto, meio aberta. A quanto tempo ela estava ali? — Por que será?! Um rapaz tão educado e de tão elevado nascimento. Por que alguém iria lhe querer mal?! Um mistério, de fato.
— Eu não tô com cabeça pra sarcasmo agora. O que você quer?
— Ora! E o que mais poderia ser?! Vim salvá-lo.

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